Ueslei Marcelino/Reuters
Levantamento da CNI mostra que programa de redução voluntária de energia voltado para grandes consumidores pode ter baixa adesão.  Ueslei Marcelino/Reuters

Redução voluntária de consumo de energia deve ter baixa adesão, segundo pesquisa da CNI

Medida voltada para grandes consumidores é aposta do governo para reduzir o risco de apagões e racionamento durante a atual crise hídrica

Marlla Sabino, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2021 | 10h31

BRASÍLIA - Aposta do governo para reduzir o risco de apagões e racionamento, o programa de redução voluntária de energia voltado para grandes consumidores pode ter baixa adesão. Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que 65% dos empresários consultados afirmam ser "difícil" ou "muito difícil" mudar o horário de operação das suas empresas para aliviar a pressão sobre o sistema elétrico no horário de pico, quando há maior demanda de energia.

As regras do programa foram apresentadas pelo Ministério de Minas e Energia na última semana. O programa é voltado apenas para grandes consumidores que, voluntariamente, se disponham a reduzir ou evitar o consumo de energia em determinados horários, por períodos de quatro a sete horas por dia. Em contrapartida, as empresas vão receber uma compensação financeira, mas o valor não está previsto no modelo apresentado pelo governo. 

De acordo com os dados, um terço dos empresários consultados considera a medida "muito difícil" de ser adotada, enquanto outros 32% responderam que será "difícil". O especialista em energia da CNI, Roberto Wagner Pereira, explica que para algumas empresas é complicado aderir ao programa em meio a um processo de recuperação de perdas causadas pela pandemia da covid-19.

As perspectivas, segundo ele, estão alinhadas com o resultado da pesquisa, que mostra que 22% das empresas consideram a medida "nem fácil, nem difícil" de ser implementada, enquanto 14% consideram "fácil ou muito fácil".

"Acho válida essa proposta do governo. Mesmo que a adesão não chegue a 100%, isso vai ajudar no contexto geral. Vemos com bons olhos essa iniciativa e as empresas que têm a possibilidade de transferir essa carga vão fazer, pois a proposta é razoável, vai ter um retorno tarifário para as empresas que é razoável", disse. "Isso não é a solução, é uma das que vai somar a outras medidas que o governo está fazendo."

Os dados apontam que a maior dificuldade para mudar o horário de consumo está entre os autogeradores, onde 84% das empresas consideram muito difícil ou difícil. A taxa também é mais elevada entre os consumidores que operam no chamado mercado livre - onde podem negociar os preços da energia diretamente com as geradoras. Nessa categoria, a avaliação de dificuldade para adesão é de 70%.

Pela proposta do governo, os interessados deverão apresentar ofertas de redução de energia ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Os lotes de economia devem ser maiores do que 30 MW (megawatts), o que não agradou parte do setor elétrico. O limite foi considerado muito alto, pois significaria parar a produção para algumas empresas. Assim como outras regras, o parâmetro ainda pode ser alterado, já que o governo deve revisar a proposta após as contribuições apresentadas durante a consulta pública.

A CNI ouviu 572 empresas, sendo 145 de pequeno porte, 200 médias e 227 grandes, no período de 25 de junho e 2 de julho. 

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Seis em cada dez empresários acreditam que País enfrentará racionamento de energia, diz CNI

O ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, no entanto, diz que o governo não trabalha com essa possibilidade, apesar da crise hídrica 

Marlla Sabino , O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2021 | 10h21

BRASÍLIA - Mesmo que o governo negue qualquer possibilidade de impor restrições no consumo de energia, o discurso não afasta a preocupação dos empresários em relação à crise hídrica e as condições de fornecimento nos próximos meses. Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), 62% dos empresários consultados acreditam que é provável ou certo que haverá um racionamento de energia neste ano devido à grave situação dos reservatórios. Desses, 7% dizem ter certeza que será necessário impor esse tipo de medida.

Publicamente, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, sempre descarta que o governo trabalhe com a possibilidade de um racionamento de energia, como aconteceu 20 anos atrás. Diante da gravidade da crise hídrica, o governo chegou a elaborar uma medida provisória que abria caminho para um programa de "racionalização compulsória", conforme mostrou o Estadão/Broadcast. O trecho, no entanto, foi retirado após repercussão negativa da demanda. Para especialistas, o governo trata a crise hídrica da mesma forma que a sanitária, com negacionismo

Os dados apontam que 28% dos empresários acreditam que provavelmente a medida não será adotada e apenas 3% descartam completamente a possibilidade. "Existe um risco real que a gente corre de possível racionamento, então acho que todos têm essa preocupação, mas não é uma certeza. O governo já vem tomando algumas medidas importantes e o setor elétrico é mais robusto do que era em 2001 (quando o governo decretou racionamento de energia)", afirmou o especialista em energia da CNI, Roberto Wagner Pereira.

Segundo ele, simulações apontam que, se todas as medidas que vêm sendo implementadas pelo governo derem certo, o risco de racionamento ficará no patamar que o setor elétrico já trabalha normalmente. Mas isso também depende de como será a situação no próximo período de chuvas. Se as chuvas ficarem abaixo da média novamente, o problema será ainda pior em 2022.

"O principal problema, se por acaso vier a acontecer um racionamento, é que afeta diretamente a produtividade. Se você tem que limitar o uso de energia, diminui ou afeta a produção, em um momento que a Indústria está começando a aumentar a recuperar as perdas que tivemos durante o período da pandemia. Isso afeta diretamente a recuperação da Indústria", explicou.

Preço da energia

Segundo dados da CNI, nove entre cada dez empresários consultados se preocupam com a crise hídrica, sendo que as maiores preocupações são o aumento do custo da energia, apontado por 83%, o racionamento (63%) e a possibilidade de instabilidade ou interrupções no fornecimento de energia (61%).

Praticamente todos os empresários consultados acreditam que o custo da energia vai aumentar nos próximos meses. Dos 98% que têm essa opinião, 47% acham que aumentará muito, 37% dizem que aumentará moderadamente e 14% acreditam que aumentará pouco.

O temor com o valor da energia nos próximos meses está diretamente ligado à competitividade. Em média, 52% dos empresários acreditam que haverá uma redução na competitividade de suas empresas, sendo que 39% dizem que isso acontecerá provavelmente, enquanto 13% afirmam ter certeza. A preocupação maior é presente nos setores em que a energia representa uma parcela maior dos custos totais das empresas, e entre os empresários que acreditam que haverá racionamento ou aumento grande no custo com energia.

Empresários também manifestaram temor com o potencial da crise hídrica e energética de frear o crescimento da economia e com a possibilidade de racionamento, aumento ou instabilidade no fornecimento de água, principalmente nas regiões que enfrentam a seca. De acordo com a CNI, o impacto da crise hídrica sobre o uso de água é limitado regionalmente. "O uso da água no processo produtivo não atinge todos os setores industriais da mesma forma; há setores que não utilizam água em seu processo produtivo e outros nos quais o uso da água é relevante."

A CNI ouviu 572 empresas, sendo 145 de pequeno porte, 200 médias e 227 grandes, no período de 25 de junho e 2 de julho. 

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