Reestruturação é falência

A globalização é ótima quando tudo vai bem. Então a virtude, assim como a saúde e a felicidade, se transmite de um país para outro. Mas, quando a peste ataca um continente, os micróbios ou os vírus se "globalizam" também e o mal se torna universal.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2011 | 00h00

É indubitavelmente este o espetáculo que se desenrola sob os nossos olhos: o Ocidente como um todo está em perigo. Mesmo que a apatia mortal da Grécia ou os imbróglios de Portugal não sejam da mesma natureza da irresponsabilidade dos Estados Unidos, hoje as crises específicas dos diferentes países devem ser analisadas, e quem sabe sanadas, no plano mundial.

As agências de classificação de crédito muitas vezes são criticadas. E com razão. Não só elas se enganam, como em todos os casos, e mesmo que seus diagnósticos sejam razoáveis, suas sanções têm o inconveniente de alarmar os mercados e provocar uma sensação de asfixia. Foi o que ocorreu na segunda-feira quando fomos informados de que a Standard & Poor"s ameaçava retirar a nota máxima (AAA) da mais poderosa economia mundial, a dos EUA. As bolsas caíram. O ouro subiu para a maior cotação da sua história.

No entanto, o pânico desencadeado pela decisão sacrílega da S&P também tem um efeito salutar: ele anuncia solenemente que a crise inaugurada em 2009 pelos subprimes, embora pareça ultrapassada, na verdade está sempre ali, no organismo mundial, oculta nas artérias e na linfa, como uma besta imunda, como uma população de micróbios. E que a desenvoltura da Grécia, dos Estados Unidos, mas também da Europa, é frívola, e frívolo, neste caso, é sinônimo do trágico.

De resto, é a mesma crise de três anos atrás. Sua causa é idêntica, mesmo que tenha mudado de feição: o endividamento, hoje como ontem. A crise das hipotecas subprime era um excesso de dívidas, de dívidas fabulosas de modestos cidadãos americanos. Ora, há três anos, esse excedente de dívidas não diminuiu. Foi transferido e, mais precisamente, estatizado. A dívida privada foi simplesmente transformada em dívida pública.

O mal não foi extirpado. Foi transferido. Vemos isso na Europa e, particularmente, nos países mais vulneráveis - Grécia, Irlanda, Portugal. Mas, desde segunda-feira, o vemos no caso dos Estados Unidos. (Na realidade, essa doença dos EUA é conhecida há muito tempo, mas o conformismo universal proibia mencioná-la, salvo em certos livros premonitórios e ligeiramente apocalípticos como, na França, os de Emmanuel Todd, que há dez anos anuncia o declínio americano.)

Quer se trate dos países pobres da Europa ou da riquíssima América, a questão que se coloca para esses Himalaias do endividamento é a mesma: quem vai pagar? E quanto? Lembremos que a dívida dos EUA já atinge US$ 14,3 trilhões, cifra espantosa e que servirá de munição aos republicanos para pegar o governo Obama.

Mas continuemos na Europa e, particularmente, na Grécia que, salva in extremis no ano passado graças à União Europeia, perde novamente o fôlego. Prova disso são os investidores que agora exigem desse país juros superiores a 14% sobre seus papéis da dívida de dez anos, um recorde absoluto.

Ora, como o crescimento na Grécia é nulo, e sua dívida chega a 340 bilhões, atingindo em breve 160% do Produto Interno Bruto (PIB), não entendemos como Atenas poderá sair dessa situação. Trata-se de uma aposta insustentável, reconhecem os especialistas. A desconfiança dos outros países europeus em relação à Grécia é tal, sobretudo do maior credor eventual, a Alemanha, que muitos aconselham a Grécia a recorrer à solução cirúrgica: reestruturação.

"Haircut". O que seria a reestruturação bastante em moda nos dias de hoje? É uma maneira chique de dizer "falência" ou falta de pagamento. Há muitas variedades de reestruturação - a mais rigorosa consiste em pedir aos credores um "haircut", ou seja, que cortem uma parte dos montantes devidos. Uma versão mais branda é a do reescalonamento, por meio do alongamento do prazo de pagamento da dívida. Às vezes, é possível obter juros mais favoráveis. Os detentores de títulos da dívida podem propor uma troca de títulos por papéis garantidos pelos Estados ou emitidos pelo Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF, na sigla em inglês).

Mas, mesmo que o termo falência seja substituído por reestruturação, o quadro continua sombrio. E se a Alemanha (ciosa do seu rico dinheirinho) defender a reestruturação, instâncias tais como o Banco Central Europeu (BCE) farão uma careta. Por quê? Porque essa decisão provocaria um contágio deplorável.

Uma falta de pagamento, mesmo negociada, alarmaria os investidores e estes ameaçariam evitar os outros países fragilizados da Europa, Irlanda ou Portugal, atirando-se sobre outra presa, a Espanha.

Outrora, nos felizes tempos do deutschemark e do franco, quando um país estava quebrado, desvalorizava sua moeda. Era uma solução brutal, mas que só abalava o país doente, e não a totalidade de um continente.

Hoje, com o euro, a desvalorização é impossível e é toda a Europa que está no barco em dificuldade. Moral da história: com a globalização, instrumentos como o euro e a União Europeia são maravilhosos quando o céu está claro. Mas quando vem a borrasca, obrigam todo mundo a enfrentar ventos contrários. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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