Reestruturar débitos reduz inadimplência para os bancos

Índice de atrasos na carteira de crédito para empresas dos bancos teria sido 23% maior sem as reestruturações

Josette Goulart, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2016 | 21h00

Durante este ano, os grandes bancos brasileiros, entre eles Itaú, Bradesco Santander e Banco do Brasil, adotaram em suas estruturas operacionais uma nova diretoria, a de “situações especiais”. O objetivo dos bancos era ter uma equipe especializada não só em renegociar dívidas, dar mais prazo, exigir mais garantia, mas efetivamente reestruturar as empresas, tentando com isso evitar que os calotes cheguem aos resultados dos bancos. Quando uma empresa atrasa um pagamento, a instituição precisa fazer uma provisão que afeta diretamente seu lucro. Além disso, os números de inadimplência crescem.

Segundo dados do Banco Central, a reestruturação de dívidas reduz a inadimplência nos bancos. Até junho deste ano, a inadimplência nas carteiras de crédito de pessoa jurídica, por exemplo, teria sido 23% maior não fossem as reestruturações. O índice foi de 3%, e teria ficado em 3,7%, segundo o BC. Em dois anos, os dados do BC mostram que as reestruturações cresceram 158% no sistema bancário, saindo de R$ 14 bilhões para R$ 37 bilhões.

Um caso prático que ilustra como um calote pode aumentar o índice de inadimplência dos bancos foi o pedido de recuperação judicial da Oi. A empresa tem uma dívida de R$ 65 bilhões e os bancos estão entre os credores relevantes da companhia. Quando a recuperação judicial é efetivada, as instituições financeiras imediatamente provisionam 60% do crédito que emprestaram. E a inadimplência, por consequência, é imediatamente afetada. No caso da Oi, a decisão de entrar em recuperação aumentou em média 0,3 ponto porcentual no índice de inadimplência dos bancos no segundo trimestre.

Provisões. Na última divulgação de resultados das empresas, referentes ao terceiro trimestre do ano, os bancos já se mostraram mais otimistas. As provisões para calotes apontaram uma desaceleração e os bancos já preveem que, a partir do primeiro semestre do próximo ano, a inadimplência deva começar a cair. Mas as análises foram feitas antes da nova crise política que se instalou no País e dos números do Produto Interno Bruto (PIB), que fizeram economistas rever previsões para o ano.

O presidente da consultoria alemã Roland Berger, Antonio Bernardo, diz que as provisões para calotes ainda devem subir. Em sua visão, os bancos, mesmo com novas áreas especializadas, têm problemas em agir preventivamente para evitar que as empresas quebrem.

Ele conta ter feito um trabalho para identificar o nível de relacionamento de um grande banco brasileiro com seus clientes de médio porte e descobriu que os gerentes só conversam com as empresas quando têm algum crédito a ser concedido. “Os bancos se contentam com demonstrações contábeis que são velhas e esquecem de conversar com os seus clientes e saber o que eles estão fazendo para o futuro”, diz.

“Os bancos brasileiros deveriam analisar o que aconteceu com os bancos europeus recentemente. Na Itália, os bancos precisam de ¤ 20 bilhões em capital para fazer frente aos calotes das empresas.” Ele também critica o fato de os bancos serem muito restritivos ao crédito a pequenas e médias empresas, ajudando a agravar a situação dessas empresas.

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