McDonough Innovation/Divulgação
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Coluna

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Referência em inovação, arquiteto pensa em reaproveitar prédio antes mesmo de construir

William McDonough projetou prédio desmontável na Holanda e busca embalagem biodegradável

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2020 | 14h23

E se, para construir, fosse necessário antecipadamente saber como reciclar os materiais necessários para um edifício ao fim de sua vida útil? Pois é exatamente isso que propõe o arquiteto William McDonough, referência em inovação e economia circular. E essa “utopia” já é realidade no edifício Park 20|20, em Amsterdã. Todos os materiais do prédio foram pensados não apenas na utilidade imediata, mas em sua destinação na hora da desmontagem do edifício, daqui a décadas (ou séculos).

São ideias como essa que McDonough vai trazer para a versão a distância da Virada Sustentável – a palestra dele está marcada para esta segunda-feira, às 14h (com transmissão no portal do Estadão). Autor de livro considerado seminal quando o assunto é economia circular – Cradle to Cradle, ou do Berço ao Berço –, o arquiteto e pensador desafia a lógica que domina a economia desde a Revolução Industrial. É a antítese do Cradle to Grave, ou seja, do uso dos recursos até sua exaustão e descarte. A ideia de McDonough é o reúso contínuo de materiais.

Em entrevista ao Estadão, o arquiteto disse que pensar primeiro em desmontar um edifício – ou qualquer outro produto – é a maneira de garantir seu uso mais eficaz. “Em um prédio comum, você usa toneladas de aço e depois cobre com concreto. Na hora de desmontar, você é obrigado a derrubar tudo. E tem de achar as sobras para vender”, explica. “Se o edifício já foi pensado na desmontagem, você poderá resgatar uma barra de 10 toneladas de aço e vendê-la por um preço 20 vezes maior.”

Portanto, é preciso que o mundo pense de maneira mais eficaz – o que, na visão de McDonough, não deve ser confundido com eficiência. Para ele, ao adotar o conceito de “produto como um serviço”, que prioriza o uso de um bem, em vez da posse do mesmo, empresas como Uber e Airbnb são eficientes, mas não necessariamente eficazes. O especialista diz que esse tipo de empresa corre o risco de ser negativa, pois é eficiente, ao aproveitar recursos já disponíveis no planeta, mas sem se preocupar com o bem comum como missão de negócio.

Por outro lado, McDonough diz evitar julgamentos apressados e cita impactos positivos dessa nova economia. Somente em São Francisco, nos EUA, o Uber movimenta US$ 2 bilhões, quase dez vezes mais do que os táxis faturavam pouco tempo antes da chegada do app. “Temos muito mais gente utilizando transporte a preços mais baixos, em carros que já existiam. E isso nos faz pensar: quantas pessoas deixaram de se acidentar porque puderam optar por outro tipo de transporte para voltar para casa?”, questiona.

A relação do arquiteto com grandes conglomerados é próxima. Apesar de ser contra o fast-fashion, ele desenhou uma sede para a Gap (hoje usada pelo YouTube). Ele também projetou uma fábrica para a Ford. E, mais recentemente, se uniu a gigantes como Walmart e Unilever em uma coalizão para a criação de embalagens 100% sustentáveis. Para o especialista, é muito mais eficaz – trabalhar em larga escala para evitar a produção de lixo, embora também seja importante coletar os resíduos (leia mais ao lado).

Conexão Brasil

Sempre em busca de exemplos de sustentabilidade, McDonough achou um para admirar no Brasil: o de Jaime Lerner, ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do Paraná. Para ele, o exemplo de Curitiba em urbanismo, coleta de lixo e transporte é de nível global.

Segundo o arquiteto, as soluções ambientais mais bem-sucedidas não endereçam questões específicas, mas necessidades das pessoas. “Quando perguntei ao Lerner o insight para a criação do urbanismo de Curitiba, ele disse: ‘Trabalhar e viver em todo o lugar, o tempo todo’.”

É um conceito que o arquiteto aplica a seus projetos corporativos, que são projetados para poderem virar residências. “Foi o que ocorreu em um prédio para a IBM, que foi transformado em residencial. Agora, com todo mundo em home office, virou escritório de novo.”

‘Não podemos fingir que vamos coletar tudo’

Em entrevista ao Estadão, o autor do livro Cradle to Cradle, considerado um marco da economia circular, falou sobre a importância de coletar o lixo já produzido e sobre a relevância ainda maior da criação de soluções biodegradáveis para evitar novos descartes.

Seu livro ‘Cradle to Cradle’, sobre economia circular, é de 2002. Houve evolução nesse período?

Acredito que existe um despertar relativo aos temas do livro, que ainda não viraram prática. O mundo tem sistemas tecnológicos e biológicos. Podemos usar o design para criar coisas que vão voltar para a natureza de forma saudável e coisas que podem ser recicladas por meio da tecnologia. Do lado técnico, a gente pode buscar a reciclagem de materiais. Do biológico, a ideia é garantir que o mundo natural continue a prosperar.

Dá para proteger o meio ambiente por meio do design?

Podemos escolher criar coisas que são extremamente duráveis, como pontes e estradas. De outro lado, temos o poder de evitar coisas de uso efêmero, como plástico de único uso e fast-fashion.

Ou seja: dependendo dos produtos que criamos, ajudamos a preservar o meio ambiente.

Sim. Há a tendência de criar pequenas porções de produtos para populações mais pobres. A ideia é: as pessoas podem comprar um sachê. Mas os sistemas de coleta não estão preparados para esses sachês, que acabam no solo ou no oceano. É por isso que eu estou trabalhando em embalagens biodegradáveis. Não podemos fingir que vamos conseguir coletar todo o lixo.

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