Refinarias polêmicas começam a sair do papel

Especialistas questionam o investimento em refinarias no Ceará e no Maranhão

Kelly Lima, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2010 | 00h00

Alvo de críticas severas do mercado, os investimentos bilionários da Petrobrás em duas refinarias nos Estados do Ceará e do Maranhão, começaram a sair do papel na semana passada, com a contratação dos serviços de terraplenagem de uma das unidades, mas ainda suscitam dúvidas quanto à sua continuidade. Segundo fontes do setor, a depender do resultado das eleições, o projeto pode ser arquivado.

"Tecnicamente é bastante justificável que o Brasil invista em refinarias, mas por que em tantas e por que justamente naquela região? Isso é uma decisão política que pode ser questionada", comentou o consultor Luiz Henrique Sanches, ex-diretor comercial da refinaria de Manguinhos, no Rio de Janeiro, a única de controle privado no Brasil.

A Petrobrás argumenta que a opção de investir US$ 32 bilhões nos próximos cinco anos para modernizar suas refinarias e construir mais quatro - em Pernambuco, Rio de Janeiro, Ceará e Maranhão - faz parte da estratégia de agregar valor ao petróleo que será produzido no pré-sal, para depois exportá-lo.

Sobre a escolha dos Estados do Ceará e do Maranhão, locais em que serão erguidas as sedes das refinarias Premium, dedicadas especificamente a essa função, a estatal argumenta que estariam mais próximas dos mercados europeu e americano.

A escolha do Ceará, segundo analisam fontes do setor, no entanto, estaria ligada à proximidade do PT com o PMDB local. Já o Maranhão estaria representado pelo ex-ministro de Minas e Energia do governo Lula, Edison Lobão.

Há também o presidente do Senado, José Sarney, que, dois dias antes da assinatura do contrato para os serviços de terraplenagem da refinaria Premium pela Petrobrás, teve encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Brasília, para pedir a inclusão dos Estados do Maranhão e do Amapá na agenda de campanha.

Exagero. "É claro que, se a oposição assumir o governo, não dá para reverter leis já promulgadas, mas a decisão de investimentos desse porte cabe à empresa e pode ser revista", argumentou o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires.

O executivo do CBIE comentou ainda que não vê motivos para a construção de tantas refinarias em território nacional. "Uma no Recife e outra no Rio de Janeiro já seriam suficientes", ressaltou.

Entre as principais críticas que recaíram sobre os projetos da Petrobrás na área de refino estão o volume de recursos destinados a essa área, que cresceu acima do esperado.

O novo plano de investimentos da companhia prevê que a área de Exploração e Produção receberá a maior fatia (53%) do total a ser aplicado no Brasil e no exterior, um volume de US$ 118,8 bilhões.

Já a área de Abastecimento é a de segunda maior receita, com US$ 73,6 bilhões (30% do total previsto no plano). No programa de investimentos anterior, a área de Abastecimento e Refino ficava com 24% do total dos investimentos e a de Exploração com 60%.

Retorno baixo. Na opinião de analistas, trata-se de um gasto muito alto em projetos com retorno baixo. "O grande foco da Petrobrás no refino é difícil de entender", resumiu o analista de petróleo do Credit Suisse, Emerson Leite, em relatório enviado a clientes.

A empresa prevê ampliar a sua capacidade de refino dos atuais 1,818 milhão para 3,205 milhões de barris por dia em 2020.

A última refinaria da estatal foi construída em 1980 e uma nova unidade está em fase de construção em Pernambuco, em parceria com a venezuelana PDVSA. Essa refinaria terá capacidade para processar 200 mil barris diários a partir de 2011.

Uma outra unidade de refino está sendo erguida no Rio de Janeiro, com capacidade para transformar 150 mil barris de petróleo pesado brasileiro em insumos petroquímicos.

Já a super-refinaria Premium, que deve operar a partir de 2014 no Maranhão, será voltada à produção de gasolina e diesel de alta qualidade.

Decisão do governo. O próprio presidente Lula admitiu, em entrevista concedida no mês de junho, em evento em Natal, capital do Rio Grande do Norte, a decisão política de investir em refino. Na ocasião, Lula afirmou que a Petrobrás não concordava com a construção das novas unidades.

A estatal avaliava que as refinarias já existentes seriam suficientes para atender à demanda do País.

"Se dependesse da Petrobrás, não teria nova refinaria no País. As novas refinarias são decisão de governo. As refinarias do Maranhão e do Ceará são para produzir para exportação", destacou o presidente à época.

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