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Reforço positivo

Há mais psicologia por trás das redes sociais do que você imagina

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2018 | 05h00

A análise do fenômeno das redes sociais - sejam elas Twitter, Instagram, Facebook, WeChat, YouTube (adquirido pela Google), Whatsapp ou Instagram (adquiridos pelo Facebook), Tumblr, LinkedIn ou qualquer outra - é um exercício que passa, necessariamente, pela psicologia do ser humano. Essas redes acumulam bilhões de usuários ao redor do mundo: de acordo com o Global Digital Report 2018 (ou “Relatório Digital Global 2018”), elaborado pela agência global com sede na Inglaterra We Are Social e pela canadense Hootsuite, que desenvolve sistemas de gestão de redes sociais, dos mais de 4 bilhões de usuários de Internet nada menos que 3,2 bilhões participam de algum tipo de rede social.

O Dr. Ciarán McMahon, formado em Psicologia e com Doutorado em História e Teoria da Psicologia (ambos pelo University College Dublin, na Irlanda), é um dos pesquisadores interessados nesta questão: o que leva tantos de nós a participar dessas organizações digitais? Vamos endereçar esta questão para, depois, analisar o valor econômico associado às redes sociais.

Uma das razões básicas e intuitivas para nosso interesse nas redes é o constante fluxo de “novidades” que nos é apresentado: notícias do mundo, do país, da cidade, da família, curiosidades, fotos, vídeos, boatos - tudo que chega até nós e que tem algum aspecto de ineditismo atrai, naturalmente, nossa atenção. E em um ambiente como a Internet, no qual múltiplos elementos competem por nosso tempo, esta é uma vantagem competitiva significativa.

O segundo grande motivo da popularidade destes instrumentos é bem menos óbvio, e está ligado a um aspecto do comportamento humano identificado e estudado pelo psicólogo norte-americano B.F. Skinner (1904-1990): o efeito do reforço, seja ele positivo ou negativo. Ações com consequências negativas para determinado indivíduo não são repetidas, ao passo que ações com consequências positivas tipicamente continuam a ser realizadas.

No seu livro de 1957, intitulado “Schedules of Reinforcement”, Skinner e seu colega Charles Ferster (1922-1981) mostram que ações que podem gerar como consequência tanto feedbacks negativos quanto positivos são, com alto grau de certeza, repetidas. E é isso que acaba acontecendo quando engajamos uma rede social: por vezes somos recompensados com “curtidas”, somos “seguidos” por conhecidos ou por desconhecidos da mesma maneira que somos ignorados ou criticados. Como não sabemos qual será o próximo reforço que será recebido (positivo ou negativo), mantemos o mesmo padrão de comportamento – ou seja, continuamos publicando nossas fotos, comentários e opiniões.

Uma vez que nossas redes estejam razoavelmente estabelecidas, passamos a consultá-las dezenas de vezes por dia, à procura de um ponto vermelho próximo do ícone de cada rede social presente em nossos smartphones, tablets e computadores, indicando que temos novidades à espera. Este padrão de interrupções constantes ao longo do dia é causa de preocupação tanto entre educadores quanto entre gestores, justamente em função dos prejuízos causados no processo de aprendizado e no aumento da dificuldade para concentração e foco, causando frequentemente queda na produtividade.

A escolha de se conectar a uma rede social está ligada aos benefícios potenciais que esperamos obter, seja pessoalmente, profissionalmente ou ambos. E tais benefícios estão ligados ao número de conexões disponíveis para exploração: não faz sentido se conectar a uma rede com poucos elementos, mas se todos que conhecemos fazem parte de uma determinada comunidade virtual, somos praticamente forçados a fazer o mesmo (é por isso que você provavelmente possui o Whatsapp instalado em seu telefone). Semana que vem iremos explorar como calcular o valor econômico deste fenômeno. Até lá.

* Guy Perelmuter é fundador da GRIDS Capital, Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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