Paulo Pampolin|Hype|Divulgação
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‘Reforma da Previdência atrairá investidores’

Embora cenário esteja mais otimista, executivo diz que ainda falta no mercado a confiança para ‘assinar o cheque’

Entrevista com

Helio Magalhães, presidente do Citi Brasil

Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2017 | 05h00

Depois de mais de cem anos no Brasil, o Citi quer ser reconhecido como o banco das empresas, principalmente após vender a operação de varejo para o Itaú Unibanco. Helio Magalhães, presidente da instituição no País, afirma que, com a aprovação da reforma da Previdência, o investidor voltará a aplicar recursos no País: “Não tenho a mínima dúvida”.

“O Brasil andou para trás com a crise, tem muitos desafios, mas grandes oportunidades”, avalia Magalhães, em entrevista exclusiva ao Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado. Por enquanto, porém, o executivo enxerga otimismo, mas não confiança. “A diferença é óbvia: quando tem confiança, (o investidor) assina o cheque.”

Considerando somente o atacado, o Citi Brasil está entre as cinco maiores dos 97 países em que o banco atua com tal estrutura. Por isso, diferentemente do inglês HSBC, que vendeu todo o seu negócio no País para o Bradesco e recomeçou do zero, optou por permanecer com essa divisão.

A nova “versão” do Citi nascerá com mais de R$ 50 bilhões em ativos. Atualmente, o banco soma cerca de R$ 72 bilhões, sendo que cerca de 20% deverão ser transferidos para o Itaú após a aprovação da venda do negócio de varejo pelos órgãos reguladores.

Leia os principais trechos da entrevista:

O otimismo em relação ao Brasil voltou?

Tem otimismo, mas não confiança. A diferença é óbvia. Quando tem confiança, (o investidor) assina o cheque, faz investimento e coloca o projeto para andar. Com otimismo, você começa a fazer o planejamento. A boa notícia é a queda da inflação. De janeiro a janeiro, caiu 50%. Quer dizer, um dia a inflação ia ceder porque tinham forças contra, como a recessão e o desemprego. Mas é muito importante destacar a disciplina do Banco Central.

Os investidores estrangeiros estão mais interessados?

Se andarmos um ano para trás, sim. A pergunta é: estão prontos para assinar o cheque? Talvez ainda não. Os investidores estão observando a discussão da Previdência. Eles querem falar conosco, atualizar as informações e ouvir mais uma opinião, mas talvez a discussão da Previdência seja a mais importante, porque eles entendem o problema fiscal.

Se a reforma da Previdência passar no primeiro semestre, o investidor estrangeiro vai assinar o cheque para Brasil?

Não tenho a mínima dúvida.

O governo aposta em crescimento do PIB já no primeiro trimestre. É possível?

A economia é complexa. Na semana passada, começaram a aparecer discussões sobre os estoques. Será preciso repor estoque e essa pode ser uma mola no curto prazo. Estamos no meio do trimestre. O Meirelles (Henrique Meirelles, ministro da Fazenda) falou em crescimento no primeiro trimestre e ele, normalmente, é preciso. O ano começou bem, com emissões de brasileiras no exterior e vem mais coisa por aí. Isso mostra que as empresas estão começando a reaquecer as turbinas, olhando um cenário mais positivo.

O setor bancário reagiu bem à crise, mas, por outro lado, se concentrou mais. Não há riscos?

As dinâmicas acabam forçando essa concentração. Nossa decisão de sair da pessoa física é, literalmente, de escala. Não é somente no Brasil, é no mundo inteiro. Infelizmente, o ambiente levou a uma concentração maior, com a própria regulamentação e a exigência de capital. Isso tudo acabou fazendo o custo subir, obrigando a busca por escala.

Isso fez o Citi decidir sair do varejo no Brasil...

No varejo, a decisão é operar nos mercados que temos escala, como o México. Nos outros países, vamos concentrar nossas sinergias no diferencial estratégico que temos no corporativo, como o banco das empresas. Ter presença global é um diferencial do Citi em vários lugares do mundo. A estrutura que teremos no Brasil, focada em empresas e private banking, se replica em 97 países. A pessoa física está em 19 países. Apesar do Trump e da discussão sobre a globalização, as empresas fazem cada vez mais negócios fora de seus mercados. Acho até que as brasileiras vão olhar mais ainda. A crise ensinou que depender de um mercado só não é bom.

Qual o risco de Michel Temer não concluir o mandato?

Nossos consultores dizem que é baixa. Tem aí alguns buracos, um deles é o TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Parece que o relator vai propor a cassação da chapa, mas, segundo os cientistas políticos, não será aprovada. Vamos reconhecer: o presidente tem demonstrado habilidade para navegar.

As delações da Lava Jato podem balançar o governo atual?

A Lava Jato não para de jeito algum. Houve uma época em que muita gente do setor privado achava que a Lava Jato atrapalhava. Não tenho escutado (mais) isso.

E a situação dos Estados?

As opiniões se dividem. De alguma forma, é preciso fechar o buraco, mas precisamos de crescimento econômico. Se não, a receita não sobe. Por isso, a recuperação será longa. As soluções são complicadas. Na própria reforma da Previdência, o impacto no curto prazo é muito pequeno. O governo tem de ter outras estratégias para reduzir o déficit e entregar o orçamento que ele propôs com venda de ativos, concessões, repatriação.

E a aprovação da venda do negócio de varejo para o Itaú?

O processo depende dos reguladores. Enquanto isso, estamos tocando o negócio normalmente. Depois, seremos um banco diferente, 100% focado em grandes e médias empresas, em grupos com fluxo no exterior e private banking.

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