Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Reforma da Previdência não deve vir no primeiro semestre, diz economista-chefe do Itaú

Mario Mesquita acredita que a reforma da Previdência só deva ser votada no Senado em setembro ou outubro

Altamiro Silva Junior, Aline Bronzati e Nayara Figueiredo, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2019 | 12h21

O economista-chefe do Itaú e ex-diretor do Banco Central, Mario Mesquita, não acredita que a aprovação da reforma da Previdência deva ocorrer antes do segundo semestre. O texto deve ser votado na Câmara em agosto e no Senado em setembro ou outubro, disse ele durante evento do banco com a imprensa nesta terça-feira, 19.

A proposta que será enviada ao Congresso nesta quarta-feira, 20, por Jair Bolsonaro deve ser ambiciosa, com economia fiscal estimada da ordem de 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) - R$ 1,05 trilhão em 10 anos, ressaltou Mesquita. Este valor está acima do texto inicialmente proposto por Temer - que previa economia fiscal de 2,1% em 10 anos e, após a tramitação, caiu para 1,4%. Segundo o economista, é este porcentual que Bolsonaro deve conseguir com seu texto na aprovação, após as negociações com os parlamentares - o que significa uma economia da ordem de R$ 550 bilhões em 10 anos.

"Faz todo sentido começar com uma proposta mais ambiciosa", disse Mesquita, destacando que as medidas correm o risco de serem desidratadas durante a tramitação entre os parlamentares. O impacto da Previdência na confiança dos agentes, com reflexos tanto na atividade econômica como nos mercados, tende a ser mais positivo quanto mais profunda forem as medidas que mudam as regras da aposentadoria. Se Bolsonaro conseguir algo acima do 1,4%, melhor, destacou o economista.

Mesquita começou sua apresentação destacando que atividade no Brasil está em ritmo "bem moderado". "Temos uma economia que parece estar em compasso de espera para a aprovação das reformas", disse ele. O começo de 2019 tem sido mais modesto que o esperado, completou, citando fatores que contribuíram para este ritmo mais fraco: clima, carrego do ano passado e o cenário externo.

Recentemente o banco revisou para baixo a previsão de crescimento do país em 2019, para 2%. Para a Selic, a previsão é de estabilidade este ano. "O Banco Central não vai fazer nada [nos juros] antes de ter clareza das reformas", disse Mesquita. "Juros baixos são o novo normal", disse o economista do Itaú, Arthur Manoel Passos, destacando que estimativas indicam que o juro real neutro, aquele que não gera inflação, caiu para aproximadamente 3%.

No cenário externo, o economista do Itaú destacou que as respostas de política econômica dos países desenvolvidos vêm gerando alívio para os emergentes. Na América Latina, o reflexo é que as condições externas permitem que os Bancos Centrais da região posterguem eventuais apertos monetários. "Não esperamos movimentos de juros no primeiro semestre." No segundo período do ano, a previsão do Itaú é de alta de juros no Chile, Colômbia e Peru.

Mesquita minimizou o risco de recessão nos Estados Unidos, por conta da perspectiva de menos altas de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano).

Na China, estímulos de Pequim para a atividade econômica e consolidação do acordo comercial com Washington devem estabilizar o Produto Interno Bruto (PIB), disse Mesquita. "Esperamos ver progresso nas negociações EUA/China ou postergação da data", disse o economista, se referindo ao dia 1º de março, data acertada entre os dois países para o fim da trégua tarifária.

A maior preocupação no exterior é com a Europa, onde a fraqueza no crescimento continua e há pouco espaço para respostas de política econômica, afirmou Mesquita.

Itaúsa

A Itaúsa, conglomerado que reúne Itaú Unibanco, Duratex, NTS, Alpargatas e outras empresas, anunciou na manhã desta terça-feira um lucro líquido recorrente no quarto trimestre de 2018 de R$ 2,689 bilhões, alta de 18,8% sobre o mesmo intervalo do ano anterior.

O diretor presidente da companhia, Alfredo Egydio Setubal, afirmou em teleconferência com analistas e investidores que espera mudanças tributárias para empresas e mais favoráveis neste ano. Em linha com o discurso do ministro da economia, Paulo Guedes, ele afirmou ainda que também espera elevação do tributo sobre os dividendos.

Esses, conforme Setubal, são pontos importantes para serem acompanhados ao longo deste ano. Ele citou ainda a retomada do emprego e da renda. "O emprego vai continuar crescendo e o desemprego se reduzindo de forma lenta e gradual sem nenhum sobressalto neste exercício", disse Setubal, em teleconferência com analistas e investidores, nesta manhã.

O presidente da Itaúsa, holding que controla o Itaú Unibanco com a família Moreira Salles, afirmou ainda que a aprovação de reformas previdenciária e fiscal são "condição sine qua non" para sustentar o crescimento econômico nos próximos anos. A companhia espera que o Produto Interno Bruto (PIB) cresça 2% este ano e 2,7% em 2020. Para a Selic, a holding, que usa as projeções do Itaú BBA, projeta estabilidade, ficando em 6,5% neste e no próximo exercício. Já a inflação, medida pelo IPCA, deve ficar em 3,6% em 2019 e 2020.

"Esperamos um cenário razoavelmente positivo. A projeção para o PIB é menos forte do que imaginamos alguns meses atrás. Mas, de qualquer jeito será superior que no ano passado. Somado à inflação baixa e Selic estável, trabalhamos com uma perspectiva de um ambiente que gere pequena recuperação e facilite o ambiente econômico para nossas empresas", explicou Setubal, acrescentando que a Itaúsa vê oportunidade de investimento em meio às privatizações no governo de Jair Bolsonaro.

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