EFE/WIN MCNAMEE
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Reforma de Trump geraria repatriação de US$ 2 tri e guerra fiscal global

Segundo agência da ONU, redução de impostos mudaria fluxos de investimentos em todo o mundo

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

05 Fevereiro 2018 | 15h00

GENEBRA – A redução de impostos nos EUA promovido pelo governo de Donald Trump ameaça o padrão dos fluxos de investimentos pelo mundo e deve levar a uma repatriação de quase US$ 2 trilhões de empresas privadas, de volta à economia americana. Os dados foram publicados nesta segunda-feira pela Conferência da ONU para o Desenvolvimento e Comércio e que ainda alerta para o risco de uma guerra fiscal global. 

“O impacto será significativo para os padrões de investimentos”, alertou James Zhan, diretor do Departamento de Investimentos da Unctad. No final de 2017, Trump conseguiu aprovar uma reforma fiscal nos EUA que reduziu o volume de impostos sobre empresas de cerca de 35% para 21%. Além disso, dividendos de multinacionais que estariam no exterior poderiam ver um corte de impostos de 100%, em determinadas condições. 

Diante da dimensão da economia americana e do peso de suas multinacionais em diversos países, a constatação da agência da ONU é de que o impacto dessa política seria profundo, inclusive fora das fronteiras americanas. “Tal política pode levar a uma maior competição fiscal global”, alertou a entidade. 

As multinacionais americanas representam 48% do estoque global de investimentos, que chegam a US$ 27 trilhões. Ao receberem promessas de que irão ter reduções de impostos no mercado americano, a previsão é de que as empresas optem por evitar investir no exterior e repatriar seus lucros de volta aos EUA. 

Sozinhas, cinco empresas americanas – Apple, Microsoft, Cisco, Alphabet e Oracle – cona com um estoque de US$ 530 bilhões fora do território americano. Logo após o anúncio da aprovação da lei, empresas como a AT&T e Boeing revelaram intenções de realizar novos investimentos em território americano. 

“A reforma pode gerar uma mudança estrutural dos fluxos de investimentos no mundo”, admite Zhan. 

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Segundo o levantamento da agência da ONU, 75% dos estoques americanos de investimentos estão em outros países desenvolvidos e em paraísos fiscais. 25% estariam em economias em desenvolvimento. 

No caso do Brasil, a Unctad acredita que uma fuga de capital também ocorra. Mas apenas em um volume limitado. No total, os dados da entidade apontam que os estoques de investimentos americanos no Brasil cheguem a US$ 64 bilhões. Desse total, US$ 35 bilhões foram investidos a partir dos lucros que as multinacionais fizeram no próprio País.

Uma das características da economia brasileira, segundo a Unctad, seria o patamar elevado de investimentos que são feitos no próprio país a partir da renda obtida pelas multinacionais. Segundo a Unctad, do estoque total de investimentos no Brasil de US$ 626 bilhões, um quinto representa renda reinvestida. 

Mas o impacto poderia vir de outras formas. Richard Bolwijn, pesquisador chefe da Unctad, alerta que os US 2 trilhões estacionados pelo mundo tinham ainda um papel macroeconômico e ajudavam países em desenvolvimento a fechar suas contas nacionais. 

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Guerra. Uma das ameaças, porém, é de que governos em todo o mundo optem por uma corrida por reduzir impostos, na tentativa de manter suas economias atrativas.  “A competição fiscal poderia ter um impacto negativo, especialmente em países mais pobres, onde impostos sobre o setor empresarial são mais importantes para a renda do governo”, alertou a entidade. 

Zhan admitiu que um dos impactos da política de Trump poderia ser uma “maior pressão para que governos reduzam impostos e isso pode ter impacto de longo prazo”.

Em dezembro, os governos da França e Alemanha já protestaram contra a proposta americano, alertando que a redução de impostos viola regras internacionais de tributação e poderiam retaliar diante do impacto que a medida teria para o comércio e investimentos. Já o Reino Unido indicou que poderia reduzir seus impostos de 19% para 17% até 2020, enquanto outros governos avaliam seus arsenais de medidas para evitar uma fuga de capital. 

Na avaliação da agência da ONU, o incentivo fiscal não é o aspecto mais importante em uma estratégia para atrair investimentos e governos devem evitar esse caminho. 

Mas o temor é de que, ao rebaixar os impostos para 21%, os americanos estariam criando uma competição direta com a Europa, onde a carga fiscal é de cerca de 22% e na OCDE, com média de 24%. Vendo uma saída de recursos, governos estariam avaliando uma revisão de suas estruturas fiscais, justamente para compensar a redução de encargos nos EUA. 

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