Reforma global

Diante do corpo diplomático, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, avisou quarta-feira que a prioridade dos líderes do mundo passará a ser a definição de um novo sistema monetário global.

Celso Ming, celso.ming@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2010 | 00h00

Ele não falou em caráter pessoal. Já está fixando agenda para 2011, tendo em vista que a França assumirá em novembro a presidência do Grupo dos 20 países mais ricos do planeta, o G-20.

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Para Sarkozy, o maior problema hoje é a enorme instabilidade monetária. É a falta de um padrão de reserva de valor que ofereça um chão de estabilidade para os negócios e para os projetos de longo prazo.

Esse não é um problema restrito aos patrimônios dos Estados. É problema até mesmo para as finanças pessoais e familiares. As aplicações dos fundos de pensão e as reservas financeiras de qualquer pessoa estão ameaçadas na medida em que o dólar, que é quase o único ativo internacional de reserva de valor, corre o risco de derreter diante dos crescentes rombos gêmeos: o orçamentário e o das contas externas (contas correntes).

Desde 1972, quando o então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, suspendeu a conversibilidade do dólar em ouro, o mundo deixou de possuir um sistema monetário internacional. A partir daí, as cotações do câmbio entre as moedas ficaram à mercê de enorme volatilidade. E essa insegurança foi a principal razão pela qual um grande grupo de países passou a constituir reservas internacionais.

Em 1975, por iniciativa do presidente da França na época, Valéry Giscard d"Estaing, foi criado o Grupo dos Sete (G-7), que ficou encarregado de monitorar as altas finanças de um mundo destituído de sistema monetário. Hoje o G-7 está acanhado demais e já não dá conta da administração do sistema porque os emergentes, que não figuram entre os grandes, juntaram enormes arsenais de ativos em dólares. Só a China detém US$ 2,6 trilhões.

Essas reservas, por sua vez, se tornaram fator de instabilidade, na medida em que a qualquer momento podem ser despejadas no mercado. Sarkozy observou que "o sistema monetário global será reforçado se os países puderem usar como reserva de valor ativos que não sejam emitidos por uma única nação".

Por mais que tenha razão, há enormes obstáculos ao sucesso do projeto do presidente da França.

O primeiro deles é de natureza técnica, digamos assim. Não há no mundo nenhuma moeda capaz de substituir o dólar na função de reserva internacional de valor. O euro, que parecia mais próximo de atingir essa condição, está estruturalmente frágil, uma vez que é emitido por uma instituição que não conta com o respaldo de unidade fiscal e política. Basta que algum dos 16 membros da área do euro se desequilibre, como está acontecendo com a Grécia, para que imediatamente apareça a enorme fragilidade dessa moeda comum.

Outra opção seria reforçar o Fundo Monetário Internacional (FMI) e dar mais densidade ao seu ativo financeiro, os Direitos Especiais de Saque (DES). No entanto, as reservas internacionais estão hoje na casa dos trilhões de dólares e os DES não passam de US$ 204 bilhões.

O outro obstáculo é geopolítico. Os Estados Unidos têm tirado enorme proveito do quase monopólio do dólar na execução da função de moeda internacional de reserva. E farão de tudo para vetar ou boicotar a proposta que pretenda acabar com esse privilégio.

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