Reformas com Temer?

Não há como ter ilusões sobre a fragilização do presidente

Rogério L. Furquim Werneck*, O Estado de S.Paulo

02 Junho 2017 | 05h00

Justo quando, afinal, se detectavam sinais de otimismo sobre a possibilidade de uma travessia exitosa até a eleição de 2018, a pinguela desabou.

Tendo desempenhado papel decisivo na reeleição de Dilma Rousseff – após se abarrotarem de dinheiro público extraído do pervertido capitalismo de compadrio dos governos petistas –, os irmãos Batista deram outra demonstração de força, ao arruinar de vez o mandato do seu sucessor.

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Não há como ter ilusões sobre a fragilização do presidente Temer. A percepção de que os danos, além de graves, são irreversíveis impôs ao País colossal choque de incerteza. A apertada corrida contra o tempo com que já se defrontava a agenda de reformas tornou-se bem mais difícil.

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Logo após a divulgação da notícia de que a conversa do porão do Jaburu fora gravada, disseminou-se a fantasia de que a crise política seria encurtada pela imediata renúncia de Temer. Não foi o que se viu. Muito pelo contrário. Ele vem deixando cada dia mais claro que, por mais fragilizado que possa estar, não tem nenhuma intenção de se afastar do cargo.

Agora, o temor de que o País tenha de voltar a enfrentar longo e penoso processo de impeachment vem dando alento a expectativas um tanto escapistas de que haveria ainda outra forma pela qual a crise poderia ser abreviada. Bastaria que, no julgamento marcado para 6 de junho, o Tribunal Superior Eleitoral decidisse, afinal, cassar a chapa Dilma-Temer.

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Falta combinar com os russos. Não contavam com a minha astúcia, diria Temer. O Planalto decidiu apostar boa parte das fichas que lhe restam na possibilidade de que o julgamento venha a ser adiado por pedido de vista do processo. E já deixou claro que, caso tal aposta não tenha sucesso e a chapa venha a ser cassada, o presidente não abrirá mão de fazer amplo uso de todos os recursos a que tem direito. O que lhe asseguraria permanência no cargo por meses a fio.

Foi com esse plano de jogo em mente que Temer resolveu transferir o ministro da Transparência para o Ministério da Justiça, tendo em conta sua longa experiência no TSE e sua boa interlocução com os tribunais superiores. E a verdade é que o novo titular da Justiça não tem deixado margem a dúvida sobre o empenho com que pretende levar adiante a missão de que está incumbido.

A esperança de Temer é que, em face das dificuldades de removê-lo do cargo em tempo hábil, o País se convença, ainda que a contragosto, de que só ele poderá assegurar a aprovação das reformas no Congresso, antes que a janela de oportunidade se feche. Fragilizado como está, Temer acalenta o sonho de que a aprovação das reformas poderá lhe assegurar a remissão que lhe permitiria chegar ao fim do mandato. O pior é que não falta quem, entregue à autoilusão, venha fazendo grande esforço, mais de torcida do que de análise, para se convencer de que essa história faz sentido. Que Temer tem de ser preservado para que as reformas possam avançar. E que, não obstante todo o desgaste que lhe foi imposto pelas delações dos irmãos Batista, o presidente continua apto a conduzir com sucesso as complexas negociações que a aprovação das reformas deverá exigir.

Para perceber quão infundada é essa avaliação, basta ter em mente as agruras diárias que Temer vem enfrentado para conviver com os desdobramentos das delações. Desde 17 de maio, o Planalto vive um dia a dia de alta-tensão. Esta semana, o leque de atribulações foi do alarme com a possível delação premiada do ex-deputado Rocha Loures a tentativas desesperadas de conseguir que o presidente fosse dispensado de depor em inquérito em que é investigado, no cargo, por corrupção passiva, organização criminosa e obstrução da Justiça.

A ideia de que, em meio a dificuldades dessa ordem, o presidente terá condições de mobilizar as amplas coalizões parlamentares requeridas para fazer avançar a agenda de reformas não faz sentido. Trata-se de uma mistificação da qual o País precisa urgentemente se livrar, para poder construir uma saída da crise.

* ECONOMISTA, DOUTOR PELA UNIVERSIDADE HARVARD, É PROFESSOR TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC-RIO

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