Reformismo ou populismo?

Bolsonaro tem agenda baseada na truculência; ex-presidente Lula abraça o populismo

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S. Paulo

10 Dezembro 2017 | 03h00

O IBGE divulgou na semana passada sua estimativa do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) até o terceiro trimestre de 2017. Os números são bem auspiciosos, pois houve uma expansão de 1,4% em relação ao mesmo período do ano passado. Exceto pela construção civil, praticamente todos os segmentos que compõem a oferta cresceram significativamente. Do lado da demanda, consolidaram-se a expansão do consumo das famílias e a recuperação dos investimentos. 

Com esses números, projetamos um crescimento de 1% para o corrente ano e de 3,1% para 2018, ambos com viés de alta. Não existem mais dúvidas quanto à retomada do crescimento. A questão relevante é se esse movimento será sustentável ou não ao longo do tempo. 

Entretanto, gostaria de chamar a atenção para o fato de que ainda vai demorar um pouco para a população perceber generalizadamente essa trajetória. Isso porque existe ainda muita diferenciação na situação de famílias, empresas e regiões. Assim, só no fim do primeiro trimestre é que a sensação de melhora no ambiente econômico será mais geral. Aliás, é exatamente o que aconteceu com a queda da inflação: embora ela fosse clara já em fevereiro, a percepção de alívio na elevação do custo de vida só se tornou ampla perto de agosto.

Continuamos convencidos que existem três passos até a sustentabilidade na retomada. São eles: 

1) O avanço inequívoco na melhora da situação fiscal, que hoje tem nome e data: trata-se da aprovação, na Câmara dos Deputados, da reforma da Previdência em sua versão mais compacta. Ela é bastante possível, mas depende da adesão firme dos partidos que compõem a base de sustentação do governo. É também a hora de o PSDB de fato mostrar, sem tergiversar, que é fiel ao seu diagnóstico e à sua história. Não existe dúvida: sem a aprovação da Reforma não haverá a consolidação das finanças públicas e sem isso é seguro que a economia piorará mais adiante. Por outro lado, uma aprovação do projeto seguramente vai reforçar a tendência de melhora. 

2) A recuperação do nível de investimento, sem o qual não haverá sustentabilidade na retomada. É também certo que, dada a capacidade ociosa existente na indústria, só há uma área na qual os investimentos podem e devem se elevar, a da infraestrutura, via concessões e privatizações. 

3) Um desenlace positivo da sucessão presidencial. A incerteza nesse front é muito grande, especialmente porque as pesquisas mostram a liderança de dois populistas que, se eleitos, levariam o País de volta ao pântano. 

O candidato Bolsonaro tem como “ponto forte” uma agenda de segurança baseada na truculência e no armamento da população, algo que em todos os lugares leva ao desastre. Além disso, está, aparentemente, abraçando um discurso fortemente liberal. Dada sua longa história de apreço por um Estado grande e intervencionista, à la Geisel, a proposta fica deslocada e falsa como uma nota de R$ 3,00. Dá para perceber que tem gente brincando de aprendiz de feiticeiro. 

À esquerda, o ex-presidente Lula abraça um populismo rombudo, por puro cálculo político. Pérolas como “é preciso evitar a aprovação da reforma da Previdência, que está acontecendo concomitante com o desmonte da Petrobrás” ou “farei um referendo para revogar muitas das reformas aprovadas pelo presidente Temer” são servidas todos os dias. 

Além disso, há uma promessa de retorno aos bons tempos, num exemplo antológico de pensamento mágico, dada a magnitude de nossas dificuldades. Devido ao grande insucesso do programa econômico de governos anteriores, uma recaída radical dessa natureza geraria uma crise garantida. Por outro lado, se esse discurso for puramente eleitoral, a dúvida do que seria um governo “sebastianista” fica muito elevada. 

Mas isso não é tudo. É razoável imaginar que a opção Bolsonaro tenha dificuldade para sustentar o apoio atual quando a aspereza de uma campanha se mostrar por completo.

Finalmente, o “grid” de largada da corrida presidencial não está completo, o que limita muito o alcance das atuais pesquisas eleitorais. Apenas menciono que o espaço para uma candidatura de centro é bastante amplo, especialmente se considerarmos que o ambiente econômico será muito melhor daqui a alguns meses. 

Reformismo ou populismo: o cenário dos próximos anos será definido por esse embate.

ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

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