Prefeitura de Salvador/ Divulgação
Capital da Bahia, Salvador Prefeitura de Salvador/ Divulgação

Região metropolitana de Salvador lidera atrasos em dívidas bancárias no País

Levantamento feito com base em dados do Banco Central mostra que em algumas modalidades de crédito, o índice nessas cidades chega a ser três vezes o do DF, que tem os menores porcentuais de atraso

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2019 | 16h30

BRASÍLIA - Os moradores de um conjunto de nove municípios que fazem parte da região metropolitana de Salvador, incluindo a capital baiana, estão na liderança dos atrasos no pagamento de dívidas bancárias no Brasil. Considerando sete modalidades diferentes de crédito, essas cidades possuem o maior porcentual de atrasos no pagamento em quatro deles. Em alguns casos, como no rotativo do cartão de crédito, o índice chega a ser mais de três vezes o verificado no Distrito Federal, local com alguns dos menores porcentuais de atraso.

O levantamento foi feito pelo Estadão/Broadcast com base no Sistema de Informações de Crédito (SCR) do Banco Central. Os dados, de março deste ano, levam em conta atrasos de mais de 15 dias no pagamento de dívidas bancárias, conforme as sub-regiões do País. São consideradas todas as dívidas superiores a R$ 200. As sub-regiões são definidas de acordo com os dois primeiros números do CEP dos devedores, o que permite determinar exatamente onde eles estão.

No caso do cartão de crédito, a sub-região com CEP de início 42 possui o maior índice de atrasos. De toda a carteira de R$ 419,8 milhões de crédito no cartão, R$ 52,8 milhões estão em atraso superior a 15 dias, o que representa 12,57% do total. Essa é a situação dos moradores de partes de Salvador e das cidades de Madre de Deus, Lauro de Freitas, Camaçari e Dias d'Ávila. Em Brasília, sub-região com o menor índice, o porcentual é de apenas 3,49%.

Tecnicamente, o Banco Central considera como caso de inadimplência apenas o crédito com mais de 90 dias de atraso. Empresas que atuam na área de análise de crédito costumam utilizar critérios diferentes, como a Serasa e o SPC. “Esse atraso de 15 a 90 dias costuma ser chamado de pré-inadimplência”, explica a economista Isabela Tavares, da Tendências Consultoria Integrada. “Existe uma defasagem até chegar aos 90 dias, mas os dados de atraso refletem depois na inadimplência.”

Pelos números do BC, os moradores das cidades com CEP 42 também possuem os maiores índices de atrasos no pagamento de “outros créditos” - que englobam operações como as de cheque especial, microcrédito e conta garantida, entre outros. O porcentual na sub-região é de 16,81%. Os moradores de cidades com CEP 43 possuem os piores índices nos empréstimos sem consignação em folha (12,39%) e nos empréstimos para compra de veículos (2,28%). Isso inclui as cidades baianas de Simões Filho, Candeias, São Sebastião e São Francisco do Conde.

Por trás dos índices está a dificuldade dos moradores da região metropolitana de Salvador em pagar as contas, em um ambiente de desemprego e redução de renda. “É uma região que tem atravessado um momento crítico do ponto de vista do mercado de trabalho”, avalia o professor Henrique Tomé da Costa Mata, da Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). “A taxa de desemprego é mais intensa na região metropolitana. Além disso, é uma região que sobrevive muito na base da informalidade, principalmente o centro urbano de Salvador.”

Queda na renda

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a taxa de desemprego na região metropolitana de Salvador estava em 18,6% no segundo trimestre. A taxa média do Brasil foi de 12%.

Mata explica que o comércio é a atividade mais importante da capital baiana, enquanto municípios do entorno, como Camaçari e Candeias, possuem parte significativa dos ganhos ligados aos royalties do petróleo, que caíram nos últimos anos.  

De acordo com Isabela Tavares, da Tendências, a dificuldade de pagar dívidas é percebida entre a população do Nordeste, não apenas da Bahia. “E não só bancárias”, acrescenta. “O que vemos muito são pressões orçamentárias em outras dívidas, mais de primeira necessidade, como contas de água e luz, que têm pagamento prioritário.”

Entre a população que possui renda, a Bahia também apresenta desvantagem em relação a outros Estados e à média do País. Dados do IBGE mostram que, em 2018, a renda domiciliar per capita no Estado foi de R$ 841 por mês - menos de um salário mínimo. Esse valor foi 2,44% inferior ao verificado em 2017. Na média brasileira, a renda domiciliar per capita foi de R$ 1.373 no ano passado.

Na prática, os baianos enfrentam forte desemprego e retração da renda. “Os Estados do Nordeste têm sofrido muito com a crise que assola o Brasil. A construção civil está parada, há reflexos no comércio e o turismo se reduziu na Bahia”, afirma Mário Correia Dantas de Carvalho, presidente da Associação Comercial da Bahia. “Todos estes fatores levam ao desemprego, à baixa da renda. A população acaba caindo na inadimplência.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Funcionalismo público faz de Brasília 'ilha de bons pagadores'

Moradores do Distrito Federal tiveram renda domiciliar per capita mensal de R$ 2.460 em 2018, bem acima dos R$ 1.373 da média brasileira

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2019 | 16h30

BRASÍLIA - Enquanto a região metropolitana de Salvador amarga alguns dos maiores índices de atrasos no pagamento de dívidas bancárias, o Distrito Federal - mais especificamente Brasília - desponta no Brasil como uma espécie de “ilha de bons pagadores”.

Das sete modalidades de crédito que fazem parte do Sistema de Informações de Crédito (SCR) do Banco Central, Brasília possui os menores porcentuais de atraso em dois deles. Nos demais, porém, a cidade aparece sempre entre as menores taxas.

No caso do cartão de crédito, moradores de alguns bairros de Brasília - identificados pelo CEP com início 70 - apresentam porcentual de atraso superior a 15 dias de apenas 3,49%. No empréstimo consignado em folha, esse porcentual chega a ser de 0,75%.

Em comparação, o índice verificado nas cidades de Goiânia e Aparecida de Goiânia (CEP 74) é de 12,71% no empréstimo consignado em folha. Essa operação, aparentemente segura para os bancos, já que pressupõe o desconto direto das parcelas da dívida na folha dos trabalhadores, tem apresentado risco maior no Estado de Goiás, onde empresas e órgãos públicos encontram dificuldades para pagar salários em dia.

No crédito habitacional, o porcentual de atraso dos moradores de Brasília é de apenas 0,20% - muito próximo do menor índice do País, verificado em regiões da cidade de São Paulo (CEP 01).

“Brasília tem muito funcionário público, com renda maior que a média. Esse fator é determinante para isso”, diz o professor Rafael Shiozer, da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP-FGV). “São funcionários públicos com emprego estável, renda estável.” Segundo ele, o desemprego e a queda da renda costumam ser os determinantes para o aumento da inadimplência em dívidas em geral.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) mostram que os moradores de Brasília possuem situação privilegiada em relação ao restante do País. A renda domiciliar per capita mensal no Distrito Federal foi de R$ 2.460 em 2018, bem acima dos R$ 1.373 da média brasileira. No Maranhão, a renda per capita foi de apenas R$ 605 no ano passado.

“Funcionários públicos têm estabilidade e, em momentos de crise, mantêm empregos e salários”, lembra o professor de Finanças da Universidade de Brasília (UnB), Bruno Vinícius Ramos Fernandes. “Boa parte da inadimplência que ocorre no pagamento de dívidas é em função da perda do emprego e da renda fixa, com muita gente trabalhando como autônomo. Em Brasília é diferente.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.