Região Norte foi a mais afetada pela greve dos caminhoneiros

Atividade econômica caiu 2,14% na região no segundo trimestre, segundo o BC

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

18 Agosto 2018 | 04h00

Sob influência da greve dos caminhoneiros, que prejudicou a atividade nas últimas semanas de maio e no início de junho, o Norte do Brasil foi a região com o pior desempenho econômico no segundo trimestre do ano. Dados do Banco Central mostram que a atividade no Norte sofreu retração de 2,14% no período, após ter avançado 1,52% de janeiro a março. O tombo só não foi maior que o registrado no terceiro trimestre de 2005, quando a atividade despencou 3% na região. Na época, a economia brasileira era prejudicada pelo escândalo político do mensalão.

O Índice de Atividade Econômica Regional - Norte (IBCR-N) fechou o mês de abril em 153,17 pontos, conforme o Banco Central. Com a greve dos caminhoneiros, o indicador despencou para 149,94 pontos em maio (queda de 2,11%). Em junho, o índice voltou a subir, para 151,44 pontos (alta de 1,00%), mas ainda se manteve abaixo do patamar verificado antes do movimento grevista. Os dados são ajustados sazonalmente, o que permite comparações. Na prática, indicam que a atividade econômica ainda não se recuperou totalmente no Norte.

Medido em pontos, o IBCR-N é a versão regional do IBC-Br, o índice de atividade do BC que abarca todo o País. Na última quarta-feira, a instituição já havia informado uma retração de 0,99% da atividade econômica no Brasil no segundo trimestre. Embora seja tratado como uma espécie de “prévia do PIB”, o IBC-Br é mais precisamente um parâmetro para avaliação do ritmo da economia ao longo dos meses.

No caso da Região Norte, o índice mostra retração da atividade em função da greve dos caminhoneiros, sendo que a recuperação ocorrida em junho ainda não foi suficiente para compensar os resultados de maio. Nas demais regiões do País, houve plena recuperação já no mês de junho.

No extremo. Um dos Estados mais extremos do Brasil, o Pará tinha uma estrutura de transporte de cargas organizada ao redor do chamado frete-retorno. “Um caminhão que trazia mercadorias do Sul para o Norte, na hora de voltar, levava mercadoria por um preço menor, para não rodar vazio”, explica José Maria Mendonça, vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa). “Era um frete bom para o empresário e bom para o caminhoneiro”, defende. Com o advento do frete mínimo, conforme Mendonça, o preço do transporte de mercadorias do Pará para o Sul do País duplicou. “A decisão do governo foi muito mais desastrosa para o Estado do Pará que a própria greve dos caminhoneiros. A greve foi ruim para a economia, mas a solução dada foi terrível, porque desconhece o Brasil”, diz.

O presidente do Sindicato dos Transportadores Rodoviários Autônomos de Bens no Estado do Pará (Sindicam-PA), Eurico Tadeu Ribeiro dos Santos, vê o risco de caminhoneiros autônomos desistirem de prestar serviços no Estado. “Se não tiver carga para o Sul-Sudeste, o motorista voltará vazio por quase 2 mil quilômetros. Assim, ele vai parar de vir ao Pará.”

No Tocantins, a logística foi rapidamente reorganizada após o fim da greve dos caminhoneiros. No entanto, assim como no Pará, as indústrias da região criticam a adoção da tabela de frete.

Recuperação foi rápida no Sul e no Sudeste

Regiões com economias mais dinâmicas do País, o Sul e o Sudeste tiveram as quedas mais fortes com a greve dos caminhoneiros, mas também se recuperaram mais rápido. No auge do movimento, em maio, a atividade econômica despencou 3,79% no Sul e 3,40% no Sudeste. Por outro lado, em junho, já após a greve, houve avanço de 5,02% e 3,70%, respectivamente. Na prática, a retomada foi ainda maior. 

Estes porcentuais dizem respeito ao Índice de Atividade Econômica Regional – Sul (IBCR-S) e ao índice relativo ao Sudeste (IBCR-SE), calculados pelo Banco Central. Medidos em pontos, estes indicadores são usados como parâmetros para avaliação do ritmo da economia ao longo dos meses.

“Tínhamos a expectativa de que as regiões que mais sofreriam com a greve seriam o Sul e o Sudeste”, diz o economista Adriano Pitoli, diretor da área de Análise Setorial e Inteligência de Mercado da Tendências Consultoria Integrada. “Isso porque são regiões protagonistas do comércio interno do País e estão mais conectadas, dependendo do transporte rodoviário.” 

Os números do BC mostram que, apesar de o estrago sobre a atividade ter sido grande, a recuperação foi ainda mais firme nessas regiões. Tanto que, no acumulado do segundo trimestre de 2018, a atividade ficou praticamente estável nas duas regiões (recuo de 0,03% no Sul e alta de 0,06% no Sudeste), na comparação com o primeiro trimestre do ano. Os dados mostram ainda que no Centro-Oeste e Nordeste a atividade econômica já retornou, em junho, a níveis próximos dos verificados em abril, antes da greve dos caminhoneiros.

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