Região sofre com serviços precários

Além das estradas ruins e da falta de transporte ferroviário, sul do Piauí tem rede elétrica frágil e telecomunicações instáveis

, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2011 | 00h00

A alta tecnologia das fazendas do Piauí é um contraste com a precária infraestrutura da região. Apesar de as principais rodovias terem sido recapeadas recentemente, os acessos às fazendas ainda são de terra batida, estreitas e esburacadas. Sem nenhuma ligação ferroviária - como ocorre em quase todas as grandes áreas produtoras de grãos do Brasil -, as milhões de toneladas produzidas na região saem da lavoura de caminhão.

No pico da safra, os enormes congestionamentos mais lembram as filas que se formam nos portos do Sul, garantem os produtores. "O Piauí é uma região difícil do ponto de vista de infraestrutura", afirma o presidente da Insolo, Salomão Ioschpe, que tem 41 mil hectares de terra plantada no Estado.

A esperança dos produtores é a construção da Ferrovia Transnordestina, que ligará o sertão do Piauí aos portos de Suape, em Pernambuco, e Pecém, no Ceará. A estrada de ferro sairá da cidade de Eliseu Martins.

Mas não é apenas a infraestrutura logística que castiga os moradores do sul do Piauí. A rede elétrica é extremamente frágil e limitada. Basta chover alguns minutos para as cidades ficarem às escuras. Nas fazendas, a situação é ainda mais complicada. A maioria tem de recorrer aos geradores movidos a óleo diesel para não ficar refém das redes de distribuição.

"A gente só paga imposto e não tem benefício nenhum", afirma Luiz Quirino Peteck, dono de uma propriedade em Baixa Grande do Ribeira, segundo maior região produtora do Estado. Ele conta que em algumas épocas do ano chega a consumir 2 mil litros de diesel por dia (ou R$ 4 mil).

O produtor - que esperava um dia inteiro para fazer duas ligações para o Sul do País na única linha da cidade - hoje tem telefone fixo, celular e internet na fazenda. Isso não significa, porém, que funcionam todo o tempo.

Na Fazenda Progresso, os serviços funcionam um pouco melhor por causa da proximidade com o município de Uruçuí. Mas, como a propriedade é muito grande, em algumas áreas nem os rádios funcionam. Nesse caso, vale tudo para tentar se comunicar com a sede, que fica às margens da rodovia PI-247, a 30 km de Uruçuí. A saída é subir no local mais alto - no caso, os tratores e plantadeiras.

Avanços e retrocessos. Apesar das dificuldades, os moradores de Uruçuí - cidade de 20 mil habitantes visitada pela reportagem do Estado por ser a maior produtora de grãos do Piauí - reconhecem as mudanças trazidas pelo agronegócio. "Melhorou 90%. A cidade era muito atrasada. Hoje temos trabalho e podemos continuar por aqui", afirma Valdina Barbosa da Silva, que morou dez anos em Brasília e retornou à cidade natal em 2007.

Hoje ela trabalha numa financeira, no centro de Uruçuí. Valdina conta que a busca por crédito na loja tem crescido todo mês. O dinheiro do empréstimo é usado para reformar casas ou para comprar o veículo preferido dos uruçuienses, a moto. "Todo mundo tem moto, mas quase ninguém tem carteira", diz.

Uruçuí tem hoje a maior renda per capita do Estado, superando até a da capital Teresina. Mas, apesar dos avanços, a maioria decorrente de investimentos privados, muitos moradores reclamam que a cidade poderia estar numa posição mais privilegiada e com melhores condições de lazer para a população. Além de ter a maior renda per capita, o município tem o quarto Produto Interno Bruto (PIB) do Estado.

Mas, infelizmente, os anos de desmandos de políticos que comandaram a cidade não permitiram que a população fosse beneficiada. A prefeitura vive atolada em dívidas, já teve as contas bloqueadas pelo Ministério Público e não consegue fazer novos investimentos. Já o atual prefeito pouco conseguiu mudar a situação caótica das contas públicas. E na semana passada foi preso numa operação da Polícia Federal, ao lado de outros prefeitos do Piauí.

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