Regresso à normalidade

O ano de 2014 tem todos os ingredientes para entrar para a História como o "ano do regresso à normalidade". Depois de muito estresse e distorções na economia mundial e nos mercados financeiros, muita coisa mudou. Isso exigirá uma reavaliação das perspectivas de crescimento - no Velho Mundo e nos mercados emergentes, bem como nos preços dos ativos e nas decisões de investimento.

Christian Gattiker*, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2014 | 02h10

O início deste milênio foi de crescimento excepcional e de crises. A China, abrindo-se em 2001 para a economia mundial com a adesão à OMC, nos remete à citação de Napoleão Bonaparte: "Quando a China acordar, ela vai abalar o mundo". Primeiramente, isso provocou um enorme crescimento interno - e em toda a sua cadeia de fornecedores de matérias-primas -, bem como um excesso de poupança global, uma vez que muitos mercados emergentes só cresceram com despesas de capital, e não consumo. A maior parte das receitas de exportação foi "reciclada" nos mercados ocidentais, levando a aumentos de alavancagem em algumas economias mais maduras. O mercado imobiliário dos EUA é um exemplo típico desses excessos.

O estouro das bolhas (crise de crédito dos EUA e crise do euro) foi tão difícil quanto os anos anteriores foram agradáveis. Precisamente quando os economistas e os investidores se acostumaram a esse tipo de desequilíbrio e alterações nos padrões de crescimento, os arautos de uma nova era assumiram posição. Do ponto de vista do crescimento econômico, as diferenças entre as maiores economias emergentes (Brasil, Rússia, Índia e China) e as maduras (EUA, zona do euro e Japão) estão encolhendo drasticamente.

O que mudou? Primeiro, os EUA "reiniciaram" seu sistema financeiro em 2008/2009 e conseguiram controlar as dívidas infladas dos consumidores norte-americanos. A Europa ampliou suas opções institucionais com a introdução de um compacto fiscal, uma união bancária e uma almofada financeira de cerca de 2 trilhões, suportado por um banco central mais proativo. Em segundo lugar, o modelo de negócio de muitos mercados emergentes está atravessando uma fase crítica: gestores públicos desses países reagiram proporcionando estímulos a suas economias domésticas, por meio da liberação de mais crédito, o que resultou em déficits insustentáveis em conta corrente.

Dadas essas mudanças, várias evidências apontam para um mix de crescimento global mais equilibrado a partir de 2014. As diferenças de crescimento não serão mais tão drásticas como costumavam ser. Isso soa como uma perspectiva positiva de crescimento para 2014 - o que se reflete em nossas expectativas de expansão para EUA, Europa e Japão, com taxas de 1% a 2,5%, enquanto os mercados emergentes deverão crescer "apenas" a média de um dígito. Mas os mercados não prosseguirão tranquilos por muito tempo. Alguns desequilíbrios serão corrigidos por uma mudança consistente nos fluxos de bens e serviços. Mas parte da adaptação ao novo regime será mais abrupta. Para as economias que têm extremos desequilíbrios em conta corrente, crises cambiais poderão acontecer em 2014.

Desde que os bancos centrais dos EUA, Europa e Japão embarcaram na grande expansão de seus agregados monetários, investidores têm se preocupado com os efeitos sobre os preços dos bens e serviços. Embora saibamos que a inflação pode surgir com rapidez surpreendente após excesso de oferta monetária, é bem provável que vejamos grandes pressões inflacionárias ao longo do ano. A razão é o excesso de capacidade: das 21 maiores economias (maduras e emergentes), não vemos nenhuma praticando sua taxa de crescimento potencial. A inflação geralmente se torna um problema quando se opera a plena capacidade e a procura ainda está subindo. O oposto é o caso de 2014: há grande folga na economia global, pois as economias emergentes investiram demais nos últimos anos e as economias ocidentais assumiram a bandeira da eficiência como resposta. Em conclusão, a inflação não parece ser um ponto de grande preocupação.

*Christian Gattiker é estrategista-chefe do banco Julius Baer.

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