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''Regulação terá de ser internacional''

Para Scheinkman, o mundo enxerga hoje que, sem regras comuns, é difícil manter instituição financeira transnacional

Fernando Dantas, O Estadao de S.Paulo

09 de maio de 2009 | 00h00

A regulação financeira vai se tornar internacional, ou os países terão de se fechar aos fluxos de capitais, diz José Alexandre Scheinkman, o mais prestigiado economista brasileiro, professor da Universidade Princeton. Recentemente empossado na exclusiva Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, Scheinkman é um admirador do presidente americano, Barack Obama, mas é cético quanto ao impacto da estratégia de saneamento bancário e do pacote de estímulo fiscal do atual governo americano. Para o economista, uma das principais causas da crise foi simplesmente a incompetência de muitos executivos financeiros. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por telefone, de sua residência em Nova York.Como o sr. vê a situação da economia americana neste momento?Bem, eu não gosto de fazer previsões. Os fatores positivos do crescimento americano continuam aí: um volume enorme de inovações financeiras, um empreendedorismo muito forte. O problema é que essas pessoas e essas empresas estão sem crédito.E como o sr. avalia a tentativa de reavivar o sistema bancário e de crédito?A combinação do teste de estresse das instituições financeiras com as ações que o governo está demandando dos piores bancos mostra que há uma tentativa de tocar com a barriga, de ver se as coisas se ajeitam por si próprias. Os bancos em pior situação têm de levantar capital, mas têm seis meses para isso. Talvez dê certo, mas não está claro para mim que o governo está tomando as medidas mais decisivas para restaurar rapidamente o sistema bancário. Mesmo que aqueles bancos façam o que o governo quer, ainda estarão bastante frágeis. Mesmo que os problemas críticos sejam resolvidos, temos de saber quando o sistema financeiro e de crédito vai voltar a financiar a economia. Na sua opinião, haveria uma saída melhor do que o chamado "plano Geithner"?Eu acho que a coisa mais simples, mais direta, teria sido nacionalizar as instituições com os maiores problemas, tipo um Proer (programa brasileiro de saneamento bancário). Incluiria chamar instituições financeiras estrangeiras que não tivessem problemas para tomar conta de alguns bancos americanos, e intervir e nacionalizar outros. Mas para vender logo depois.O sr. é favorável a controlar a remuneração dos executivos financeiros?Nessa questão de incentivos, é importante notar que bancos com sistemas parecidos tiveram desempenho diferente, e alguns se saíram razoavelmente bem. O JP Morgan teve perdas, mas completamente possíveis de absorver. O mesmo se pode dizer do Goldman Sachs. Enquanto isso, outros bancos, como o Merrill Lynch, desapareceram, e o Citibank está com os problemas que está. O JP Morgan não tinha incentivos muito diferentes daqueles do Citibank. O que o JP tinha era um presidente que entendia do negócio e não deixou o banco tomar certos tipos de risco. A regulamentação pode até agir do lado dos incentivos, mas é difícil impedir que uma pessoa que saiba pouco esteja à frente de um banco e faça besteira. Então, poderíamos dizer que foi "falha humana"?Exatamente. Muitos banqueiros americanos gostam de dizer que foi uma crise de liquidez, que havia muita liquidez que de repente desapareceu. É uma história boa para contar para os acionistas para tentar manter o emprego. Mas não corresponde aos fatos. Os juros baixos foram um problema, mas é preciso chamar a atenção para a falta de competência dos executivos do mercado financeiro.O que deve mudar na regulação?O tema mais importante, que está sendo muito discutido agora, é não mais olhar o risco de cada instituição financeira, mas, sim, o risco que ela traz para o sistema. É sair do "grande demais para falir" para o "interligada demais para falir". O maior problema são instituições cujo mau comportamento afeta todo o sistema financeiro.Mas para isso é preciso um sistema regulador internacional. Não é utópico pensar nisso?Pelo prisma pessimista, ainda há problemas de regulação transnacional dentro de um bloco como a União Europeia, que não tem uma regulação geral para bancos nem para seguradoras. Aliás, mesmo nos Estados Unidos, cada Estado regula os seguros separadamente. Mas, olhando com otimismo, as pessoas estão começando a entender que, sem regulação internacional, é muito difícil manter o tipo de instituição financeira transnacional que conhecemos hoje. Sem isso, os países teriam de estabelecer controles de capital, para se isolar do resto do mundo - o que não deve acontecer, porque é muito custoso. Então, a regulação internacional me parece inevitável.Como ela deve evoluir?Não acho que vai haver um regulador para o mundo inteiro, ainda estamos muito longe disso. Mas pode haver suficiente cooperação entre os principais reguladores. Se não atingirmos 100% de regulação internacional, chegaremos a 50%. Se os reguladores dos grandes países europeus, dos Estados Unidos e do Japão chegarem a um acordo, já é o bastante, pelo menos por agora.E o pacote fiscal de estímulo à demanda nos Estados Unidos?Sou um pouco cético em relação ao impacto dessa política keynesiana clássica. Eles pensam em quanto se tem de gastar, enquanto eu acho que, se foi decidido se gastar, deveria ser bem gasto. O que me preocupa muito é o conflito entre o que é preciso fazer e como se pode gastar dinheiro rápido. Os Estados Unidos precisam de um sistema de trem, o metrô de Nova York precisa de melhoras. Acho que seria um emprego de dinheiro público que teria mais impacto na produtividade de longo prazo, mas são áreas que exigem um planejamento muito longo. Então o dinheiro vai para rodovias, de que os Estados Unidos não precisam. Já há rodovias demais. É uma escolha ruimComo o sr. vê a situação do Brasil nesse momento?Estamos bem melhor do que em outras crises, com possibilidade de retomar o crescimento e ter um desempenho melhor do que o dos países ricos. Tudo depende de não fazer erros de política econômica, como o de deixar a política fiscal deteriorar muito. Não vejo evidências de que isto esteja ocorrendo, embora não esteja acompanhando tanto o Brasil quanto gostaria - esta crise nos Estados Unidos me absorve muito. Quem é: José A. ScheinkmanÉ professor na Universidade Princeton. Foi vice-presidente em finanças estratégicas do Goldman SachsÉ doutor honoris-causa pela Universidade Paris-Dauphine. É membro da American Academy of Arts and Sciences e da Econometric Society

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