'Reguladores precisam estar prontos para intervir'

'Reguladores precisam estar prontos para intervir'

Economista francês ganhou o Nobel por sua pesquisa sobre o poder do mercado e a regulação

Entrevista com

Jean Tirole, ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2014

BINYAMIN APPELBAUM, THE NEW YORK TIMES/O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2014 | 02h04

Jean Tirole ganhou o Prêmio Nobel de Economia na segunda-feira. Quando acordou na terça-feira, disse que ainda estava "nas nuvens". Ficou tão contente que decidiu conceder um pouco do seu tempo para conversar a respeito da neutralidade da rede, Amazon.com e seus interesses de pesquisa atuais. A seguir, trechos da entrevista.

Pedi a vários economistas que resumissem a abordagem de Tirole para o sistema regulatório e, basicamente, todos concordam que a melhor resposta seria "é complicado".

Não existe maneira fácil de resumir minha contribuição e a contribuição dos meus colegas. Trata-se de algo específico para a indústria. A forma de regular os cartões de pagamento não tem nada a ver com a forma de regular a propriedade intelectual ou as estradas de ferro. Há muitos fatores idiossincráticos. É isso que torna tudo tão interessante, tão rico. É necessário algum entendimento de como funciona uma indústria. E o raciocínio tem muito a ver com a teoria dos jogos. Normalmente, não temos um mercado de concorrência perfeita e, por isso, usamos a teoria dos jogos, que descreve situações com um pequeno número de atores. E a economia informacional é outra de nossas ferramentas. Mas então temos de analisar as indústrias e pensar nessas possíveis regras. Não é algo que possa ser resumido numa frase curta.

O que o atraiu para essa área? Quando começou a carreira, nos anos 1970, a organização industrial e a regulamentação não estavam atraindo muitos pesquisadores de ponta.

Foi basicamente o ponto de contato entre questões tópicas da tarefa de repensar a política antitruste e a economia regulatória, e também o contato com algumas pessoas fundamentais. Comecei quando estudava pós-graduação no MIT, com Drew Fudenberg, que está atualmente em Harvard, e Eric Maskin, também em Harvard, que trabalharam comigo nesses temas e, posteriormente, Jean-Jacques Laffont. Foram essas pessoas e o desafio. Ninguém sabia como desregular as telecomunicações e as empresas de energia.

Enquanto acadêmico, você mede o sucesso em termos da capacidade de redefinir a política do governo? Quanto do seu tempo é dedicado a moldar as políticas públicas?

Não muito. Num certo sentido, sou principalmente um pesquisador. Se minhas recomendações forem aplicadas, fico feliz e busco formular as ideias da maneira mais simples. Mas devemos nos lembrar de Keynes dizendo que políticos e governantes usam uma ciência econômica já morta. Há algo de verdadeiro nisso. Desenvolvemos novas ideias, que são adotadas ou não. Mas minha escolha foi permanecer dentro da torre de marfim.

Estou curioso para ouvir suas ideias em relação ao debate da "neutralidade da rede". Os governos devem evitar que os provedores de acesso de banda larga cobrem por privilégios?

Não trabalhei com a neutralidade da rede. Isso pode ter muitos significados. Uma delas é pagar por largura de banda e congestionamento, algo que funciona de acordo com a economia natural, pois queremos que as empresas paguem pelo custo social de suas escolhas. Mas o público tem medo - e os reguladores também - da possibilidade de as empresas usarem esse poder de mercado para expropriar os provedores de conteúdo, e é por isso que devemos permanecer cautelosos. Acompanho o tema de longe.

Outro assunto nas manchetes é a batalha da Amazon contra a editora Hachette. Seria este um exemplo de mercado de dois lados?

É melhor não falar em termos específicos. Temo que meu novo status signifique que as pessoas levarão a sério tudo que eu disser… Num mercado de dois lados, às vezes um lado vai pagar tudo. Não há nada de ineficiente e a situação não está ligada ao poder de mercado. Em termos de formação de trustes, essas indústrias avançam muito rapidamente. Há um monopólio num determinado ponto e é necessário termos as condições de entrada corretas, e os reguladores precisam estar atentos e prontos para intervir.

Qual é o seu projeto de trabalho atual?

Um exemplo de grande importância é a propriedade intelectual. Talvez você tenha acompanhado os recentes debates envolvendo patentes que não são muito importantes até serem incorporadas a um padrão, tornando-se importantes simplesmente porque foram escolhidas para o padrão em lugar de outras alternativas. Então seus proprietários começam a cobrar por elas preços exorbitantes. Com Josh Lerner, em Harvard, propusemos novas regras para proteger os padrões. Não há problema em proteger a inovação. Trata-se de algo essencial. Mas queremos recompensar as inovações importantes. Não queremos defender patentes que podem valer muito simplesmente porque podem ser escolhidas para o padrão.

Acha que a regulação está avançando no sentido correto? Será que esses regimes cada vez mais complexos - alguns erguidos a partir do seu trabalho, e outros o contrariando - estão melhorando nossa sociedade ou atrapalhando a inovação e o crescimento?

O que tentamos fazer é criar uma estrutura reguladora leve o bastante para permitir inovação e promover investimento. Uma estrutura reguladora ruim pode reduzir bastante o crescimento, criando problemas. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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