Regulamentação permite que Fundo Soberano compre dólar

Decisão impulsiona valorização da moeda norte-americana nesta terça-feira

Cristina Canas e Silvana Rocha, da Agência Estado,

29 de dezembro de 2009 | 17h37

O governo jogou mais um comprador de dólares de grande porte no mercado ao regulamentar o Fundo Soberano do Brasil e autorizar o Tesouro a comprar ativos em seu nome, na avaliação de boa parte dos profissionais de mercado. A notícia pressionou o dólar para cima no pregão desta terça-feira,29, mas o impacto foi comedido, acompanhando a falta de liquidez provocada pelos feriados do final de ano. A percepção dos especialista é de que a valorização da moeda norte-americana deve ser maior quando a presença do Tesouro nas mesas de operações se efetivar.

 

"O Tesouro tem poder de interferir nas cotações do dólar mais fortemente do que o Banco Central, pois ele deve atuar no escuro, provavelmente por meio de uma instituição como o Banco do Brasil e sem padrão em volume, na frequência e nos preços", avalia o operador da Corretora Renascença, José Carlos Amado.

 

O gerente da mesa de operações do banco Indusval, Alberto Felix de Oliveira Neto, concorda que a iminente presença do Tesouro no mercado de câmbio é fator de pressão altista nas cotações. Para ele, a puxada inicial da moeda norte-americana será seguida de uma análise detalhada das regras e a reação do mercado esquentará. "Falta saber como o Tesouro vai atuar, quanto haverá de dinheiro disponível para isso, etc.", disse.

 

O sócio da MCM Consultores Associados, Antonio Madeira, também vê nas movimentações do governo uma intenção de atingir o mercado de câmbio. Ele ressalta que as medidas de hoje autorizam o Tesouro a comprar ativos no exterior para o FSB e, para isso, será necessário adquirir dólares em mercado. "Resta saber quando vai começar", afirma.

 

Madeira acredita que o terceiro passo nesse sentido será a capitalização do FSB. O primeiro passo, na sua avaliação, foi a ida do ex-diretor do Banco Central, Emílio Garófalo, para a Fazenda "Ele é um homem que entende disso, é operador", disse. O segundo passo foi dado hoje, com a regulamentação da atuação do FSB. "O mercado vai ficar de olho para ver se o Tesouro emite papel para o FSB, pois hoje ele só tem cotas do Fundo Fiscal de Investimentos e Estabilização (FFIE)", disse Madeira, acrescentando que a emissão de dívida garantirá caixa ao FSB para a compra dos ativos no exterior e, consequentemente, de dólares.

 

Quando anunciou a intenção de criar o FSB, no passado, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que o objetivo era de atuar com dois braços, lembra o sócio da MCM. O primeiro, seria o FFIE. Embora teoricamente o FFIE até pudesse comprar ativos no exterior, abrindo a possibilidade de, indiretamente, o Tesouro adquirir dólares no mercado, essa não foi a opção do governo. O mundo vivia uma crise aguda e o FFIE serviu como "um cofrinho" para o qual o governo enviou o excedente primário de R$ 14 bilhões, que poderia ser revertido e usado para ajudar no cumprimento de metas fiscais.

 

O segundo braço, que permitiria ao Tesouro comprar ativos diretamente, está ganhando corpo agora. "O Tesouro não vai comprar dólares para guardar. Vai adquiri-los para comprar outros ativos que rendam no mínimo a Libor de seis meses e que tenham grau de investimento concedido por, pelo menos, duas agências de classificação de risco", disse Madeira.

 

A economista Mariana Costa, da Link Investimentos, avalia que o impacto da medida de hoje no câmbio foi pequeno porque se desconhece qual será a forma de atuação do Tesouro. Mas concorda que passou a existir um player a mais no mercado. "Deve-se esperar para ver como ficará na prática essa atuação, mas haverá um player a mais atuando, que é o Tesouro", afirma.

 

Já o economista Filipe Salto, da Tendências Consultoria, é voz destoante. Para ele, mesmo com o Tesouro habilitado a comprar ativos diretamente, o FSB deve permanecer com a mesma função que tinha até agora, quando possuía somente as cotas do FFIE. Ou seja, como um instrumento de estabilização para ajudar no cumprimento das metas fiscais, se necessário.

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