Lawrence Jackson/The New York Times
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Regular a libra, a nova moeda do Facebook

Bancos centrais não se importaram com o aparecimento de moedas digitais como o bitcoin, mas ficaram alvoroçados com a libra, a ser lançada pelo Facebook em parceria com 27 gigantes da tecnologia

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2019 | 20h00

Até agora, os grandes bancos centrais não se importaram com o aparecimento e a atuação das primeiras moedas digitais, entre elas o bitcoin e outras 2,2 mil que existem por aí. Mas ficaram alvoroçados com a libra, a moeda digital que será lançada no ano que vem pelo Facebook com outras 27 gigantes da tecnologia digital, como Visa, Mastercard, Spotify, Uber, Lyft, eBay e PayPal.

A principal fonte de preocupação é a provável capacidade de interferência que a nova moeda passe a ter na política monetária dos principais países, dada a densidade que poderá adquirir e sua capacidade de fugir aos controles. Apenas o Facebook tem, hoje, 2,6 bilhões de usuários ao redor do mundo e é intenção declarada atender outros 2 bilhões de pessoas que não são alcançadas por nenhuma rede bancária. 

Pelas informações disponíveis, suas principais áreas de atuação serão a liquidação de transações (pagamentos), das mais inexpressivas às maiores, e as transferências de recursos para qualquer canto do planeta.

Nada impede que também atue no crédito ou, então, que ativos em libras sirvam de garantia para levantamento de créditos na rede bancária convencional. Se as fintechs estão no segmento do crédito com as bênçãos dos bancos centrais, com o objetivo de aumentar a concorrência nesse setor, por que a libra ficaria de fora dele?

Uma das preocupações dos banqueiros centrais é a de que, em caso de crise de confiança, haja corrida para liquidar ativos em libras por outras moedas conversíveis. Nesse caso, não sobraria opção às autoridades senão intervir. Ou seja, a libra e outras moedas digitais que vierem a surgir após ela levam risco para os quais seria preciso prever mecanismos de defesa.

Já houve quem dissesse que se trata de uma espécie de apêndice das mais importantes moedas do mundo e que, portanto, já conta com reguladores indiretos. O projeto é criar um bolão em reservas, como moedas (dólar, euro, iene), títulos públicos dos países ricos e outros valores denominados em moedas conversíveis. Cada libra será uma espécie de recibo correspondente a uma fração desse fundo, a ser acionada por mecanismos simples, como o WhatsApp ou o Facebook Messenger.

Uma das questões que se levantam aí é até que ponto poderá ser fator multiplicador próprio de moeda, especialmente se os detentores de libras passarem a operar no crédito, também em libras. Assim emprestadas, essas libras cairão numa conta de outro detentor de libras que, por sua vez, poderá usá-las para novos empréstimos. Assim, a moeda digital poderia se multiplicar.

As moedas convencionais estão sujeitas ao mesmo efeito. Depósitos em conta corrente nos bancos podem ser emprestados para terceiros, cujo volume cairá em outra conta corrente bancária, de onde pode ser reemprestado, e assim sucessivamente. No passado, quando a atividade não era suficientemente regulada, foram inúmeros os casos de quebra de bancos. O dono dos depósitos ia buscar seu dinheiro, mas ele não estava lá porque tinha sido reemprestado com prazo para voltar. Fosse caso isolado, o banco se defendia, porque poderia obter socorro de emergência no mercado. Mas, em caso de corrida de correntistas por causa de uma crise de confiança, não havia como evitar a falência do banco ou, até mesmo, uma crise sistêmica, na medida em que vários bancos passassem a ter a mesma dificuldade de devolver os depósitos à vista.

Para evitar essa multiplicação de moeda e os riscos que a envolvem, os bancos são obrigados a depositar reservas nos bancos centrais (os chamados compulsórios). Não está nem um pouco claro como a nova moeda digital evitará esse risco, uma vez que não conta nem com organismo regulador nem com emprestador de última instância que a socorra numa emergência.

Alguém vai dizer que basta enquadrar o Mark Zuckerberg, o chefão do Facebook, para que todo o sistema financeiro volte a ser estável. No entanto, mesmo que a libra seja abortada, como começam a pregar alguns analistas, outras moedas digitais da mesma natureza e com a mesma envergadura poderiam ser criadas a partir de instituições de grande porte. Ou seja, a regulação não poderia se restringir à libra.

Tampouco poderia ficar a cargo de um único banco central, porque a circulação de moedas desse tipo tende a ser global. Por aí se vê que começa a surgir a necessidade de um regulador monetário também global. É por essas e outras que os antiglobalistas, que se aferram a interesses puramente nacionais, parecem fadados a quebrar a cara.

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