AFP PHOTO / POOL / Kirsty Wigglesworth
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Reino Unido será mais globalizado, diz Theresa May

Ministra britânica defende Brexit e globalização, em um Fórum ainda inquieto em relação a Trump

Rolf Kuntz, enviado especial a Davos

19 Janeiro 2017 | 17h37

A Grã-Bretanha deixa a União Europeia para tornar-se verdadeiramente global, mas sem voltar às costas à Europa, disse nesta quinta-feira, 19, a primeira ministra Theresa May, tentando dissipar as inquietações sobre os efeitos do Brexit, a separação entre o Reino Unido e o bloco europeu. Incertezas sobre as consequências desse divórcio e sobre a política americana sob a nova presidência marcaram a reunião do Fórum Econômico Mundial, em Davos. Um dia antes da posse, permaneciam as dúvidas sobre as intenções do presidente Donald Trump em relação ao comércio e aos acordos internacionais. Em contraste com os discursos mais agressivos de Trump, Theresa May reiterou sua profissão de fé na globalização, no livre comércio e numa ordem mundial baseada em regras.

Dois dias antes, Anthony Scaramucci, um dos assessores mais próximos do presidente eleito dos Estados Unidos, havia tentado apresentar uma versão mais suave das ideias defendidas na campanha eleitoral e mesmo depois da eleição. Repeliu as acusações de racismo e negou o risco de uma virada protecionista na política de comércio exterior de seu chefe. Ele só pretende, segundo Scaramucci, relações comerciais menos assimétricas. Se alguém se convenceu, preferiu ficar quieto.

O diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, escolheu a prudência diplomática: seria preciso esperar mais informações. Mas comentando - apenas em tese - o risco de maior protecionismo, lembrou dados de um estudo recente: só dois de cada dez empregos perdidos nos últimos anos, no mundo avançado, foram extintos por causa da concorrência comercial. O desemprego é causado principalmente pela mudança tecnológica e pelo aumento da produtividade (descontando-se, é claro, os efeitos conjunturais de uma recessão). Esses dados atingem diretamente as alegações de Trump, mesmo sem referência direta a suas palavras. 

O comércio pode ser o alvo errado, quando se trata de proteger o emprego, mas os dados apontam, de toda forma, um problema estrutural. A globalização tem custos, assim como a rápida inovação, um dos componentes mais importantes do cenário atual. Ao reafirmar seu compromisso com o livre comércio e os valores liberais, a primeira-ministra reconheceu o drama de milhões de famílias deixadas para trás na transformação econômica.

Os governos, observou, podem ter de adotar políticas para tornar os mercados, o comércio e a globalização mais equitativos e includentes, com distribuição mais ampla dos benefícios. "Estou disposta", afirmou, "a defender os mercados livres, o livre comércio e a globalização e a usar este momento para prover uma liderança responsiva e responsável para levar o benefícios do livre comércio a todos os cantos do mundo", acrescentou. É sua intenção, declarou, negociar acordos comerciais com países de todos continentes. Sua lista, apresentada como exemplificação de possíveis parcerias, incluiu uma referência ao Brasil, já envolvido, como membro do Mercosul, numa longa negociação com a União Europeia. 

Ao reconhecer os custos da globalização, a primeira-ministra mencionou o sentimento de frustração manifestado muitas vezes por grandes segmentos da população. Falar de globalização causa medo, admitiu, e os governos devem reconhecer esse fato. "Servir o povo é nossa primeira obrigação", acrescentou.

Na terça-feira, o presidente da China, Xi Jinping, havia defendido a globalização e a abertura de mercados, apontando, ao mesmo tempo, a necessidade de políticas para distribuição mais equitativa de resultados e de oportunidades entre pessoas e entre países.

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