Reino Unido teme problemas econômicos em 2008

Setor imobiliário dá sinais de enfraquecimento e confiança do consumidor perde o fôlego

João Caminoto, da Agência Estado,

31 de dezembro de 2007 | 12h57

A chega do ano-novo para os britânicos está sendo marcada por uma acentuada preocupação com os rumos da economia do país. Vários riscos potenciais rondam o Reino Unido. O setor imobiliário, após viver sucessivos anos de valorização exuberante, tem exibido nos últimos meses sinais claros de esfriamento, alimentando os temores de estouro de uma bolha nos moldes da registrada nos Estados Unidos. A confiança dos consumidores, fator crucial na expansão da atividade econômica vem rapidamente perdendo fôlego. O grande déficit em conta corrente lança sombras sobre a cotação da libra. E há também o fantasma inflacionário. Após se valorizarem mais de 200% entre 1997 e o início deste ano, os preços dos imóveis começaram a dar sinais de fraqueza nos últimos meses. A queda, por enquanto, não é dramática, se limitando a alguns pontos percentuais dependendo da região do país. Mas ninguém sabe como essa tendência seguirá em 2008.  Parte dos analistas acredita que o pior será evitado, com os preços das casas se mantendo estáveis. Outros, no entanto, não descartam quedas entre 20% e 30% nos preços, que teria um impacto gravíssimo sobre a confiança dos consumidores. É importante lembrar que o boom imobiliário dos últimos dez anos fez com que os britânicos apostassem boa parte de seus investimentos ou financiamentos na compra de casas e apartamentos. E a confiança dos consumidores já está em queda. Pesquisas mostram que os britânicos estão menos dispostos a fazer grandes compras do que qualquer período desde 1991, quando o país vivia uma recessão. Como o observou o jornal Financial Times, o crescimento mais lento dos salários significa que a alta dos preços dos alimentos e de energia vão pressionar os orçamentos familiares. Por isso, muitos proprietários de imóveis vão enfrentar uma incerteza extra em 2008 ao renovarem suas hipotecas em condições de crédito mais difíceis. Déficit maior do que o dos EUA Também preocupa o aumento do déficit em conta corrente, que no terceiro trimestre deste ano atingiu 5,7% do PIB, o maior desde o final da década de 80 e que já supera o dos Estados Unidos. "Os otimistas apontam para o saudável superávit no setor de serviços, mas em todas as outras áreas a tendência é horrível", disse o economista Robert Lind, do banco ABN Amro. "Por isso, acredito que a libra esterlina está sobrevalorizada e poderá cair acentuadamente em 2008." Segundo o analista, uma libra mais fraca vai expor outro ponto fraco da economia: a intensificação das pressões inflacionárias. "Ao longo da última década, alguns acreditam que um novo paradigma alterou fundamentalmente o funcionamento das economias dos Estados Unidos e do Reino Unido, pois ambas viveram um período inédito de crescimento estável e forte com inflação baixa", disse. "Mas não houve milagres."  Lind explicou que o excesso do crescimento da demanda nessas economias foi direcionado para o aumento dos déficits comerciais, ao invés de resultarem em inflação mais elevada. Mas nos Estados Unidos esse processo já começou a ser revertido. O dólar caiu muito ao longo de 2007, colocando uma pressão altista sobre os preços dos produtos importados.  "Em 2008, deve ocorrer uma tendência similar no Reino Unido", disse. "Com a queda da libra esterlina, os preços das importações devem subir e isso vai pressionar a inflação ao consumidor britânico." Superar essas ameaças à estabilidade econômica será o principal desafio para o primeiro-ministro Gordon Brown. Ironicamente, como ministro das finanças de seu antecessor, Tony Blair, até meados de 2007, ele comandou o período mais próspero já contabilizado da economia britânica. Agora, justamente quando precisa fortalecer seu cadente apoio junto ao eleitorado para conseguir se manter no posto numa eleição parlamentar que deve ocorrer até 2009, nuvens pesadas estão se formando sobre a economia do país.

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