Rejeição ao verde

Não há pânico nos mercados, mas talvez esteja em formação algo próximo disso.Desde o dia 4, o mercado financeiro internacional manifesta um movimento de rejeição dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos de curto prazo, as T-Notes de 2 anos. Seria o começo da rejeição do dólar?O gráfico ao lado mostra uma forte escalada no rendimento (yield) destes títulos no seu mercado de revenda. (Veja a explicação no Entenda.) Um grupo minoritário de analistas faz o jogo do contente e interpreta a estocada do rendimento como demonstração de que mais gente está se desfazendo de posições defensivas (T-Notes) para voltar a aplicar em títulos de risco, especialmente ações. Mas o que parece estar acontecendo é que os títulos de curto prazo passam por uma forte rejeição.O fundamento disso é o medo de estarem próximos os dias em que o mercado global perca o apetite por títulos do Tesouro americano e este se veja obrigado a pagar o resgate não mais com emissão de novos títulos, mas com emissão de moeda providenciada pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Se isso ocorrer, estará escancarada a porta para a inflação nos Estados Unidos.Ao menos dois fatores sustentam esse medo. O primeiro é o fato de que o déficit orçamentário, ou seja, a insuficiência de arrecadação de impostos nos Estados Unidos para o tamanho das despesas correntes do governo, ultrapassará neste ano, cujo exercício fiscal termina em setembro, a magnitude de US$ 1,8 trilhão.Segundo, o Fed extrapolou todos os limites do seu mandato para socorrer a economia americana em plena crise. Despejou dinheiro vivo nos bancos, financiou o setor privado e, dentro do esquema heterodoxo do tal afrouxamento monetário, está recomprando US$ 300 bilhões em títulos do Tesouro de longo prazo, o que quase se equivale a financiar despesas correntes do setor público americano. Essas injeções incharam o balanço do Fed em nada menos que US$ 2 trilhões.Pode-se contra-argumentar que o Fed está comprando esses títulos no mercado secundário, porque estavam nas carteiras do John, do Joe e do Bill, e que isso não é a mesma coisa que passar dinheiro vivo para o Tesouro. Mas o fato é que o dinheiro deixado pelo Fed com o John, com o Joe e com o Bill em pagamento dos títulos está disponível agora para comprar novos títulos do Tesouro, que continua compulsivamente a despejá-los no mercado.Essas operações heterodoxas não estão levantando cismas apenas dos predadores habituais do mercado financeiro. As autoridades da China já se manifestaram algumas vezes sobre as dúvidas que começam a pairar sobre a saúde da principal moeda de reserva do Planeta. E, na semana passada, foi a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, que fez um duro pronunciamento contra as irresponsabilidades heterodoxas dos bancos centrais, e aí incluiu o Fed, o Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra.O presidente do Fed, Ben Bernanke, não respondeu diretamente a Merkel. Mas também fez declarações duras em que pareceu reconhecer que falta uma estratégia de saída e cobrou responsabilidade fiscal dos Congressistas e do governo americano. Enfim, são coisas que não podem ficar por isso mesmo. CONFIRAPor que o rendimento sobe quando um título é rejeitado? Ao ser emitido, um título prevê o prazo de vencimento e os juros. Esses títulos podem ser renegociados, a preços definidos pela lei da oferta e da procura. Se a procura aumenta, o preço pago pelo título sobe, ou seja, o vendedor exige mais dólares por ele. Como os juros embutidos continuam os mesmos, se o comprador precisa gastar mais, o juro fica mais baixo em relação ao capital aplicado.Se ocorre o contrário, ou seja, a procura se retrai, o titular do ativo aceita vendê-lo por menos e os juros ficam mais altos em relação ao total aplicado.

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