Relação entre ricos e pobres vai dominar agenda de Monterrey

O presidente Fernando Henrique Cardoso pensou em ir à Conferência das Nações Unidas sobre Financiamento ao Desenvolvimento, em Monterrey, no México, mas desistiu. Ele deixou para o ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, a tarefa de ser o principal representante brasileiro no evento, que começa oficialmente nesta segunda-feira e termina na sexta.A desistência de Fernando Henrique reflete o fato de que o tema dominante da Conferência será mesmo o da ajuda que os países mais ricos do mundo dão aos mais pobres. Os temas relacionados mais diretamente aos países de renda média, como o Brasil - tais como a prevenção e gestão de crises cambiais e financeiras, ou a redução da volatilidade de capitais para os países emergentes - estão na pauta, mas não devem ter o mesmo nível de atenção.Uma possível exceção, segundo o secretário internacional do Ministério da Fazenda, embaixador Marcos Caramuru, é a crise argentina. Ela certamente não está no cardápio principal da Conferência. Por outro lado, vários personagens-chave nas negociações sobre a crise estarão em Monterrey e terão a chance de se encontrar e discutir: Eduardo Duhalde, o presidente da Argentina; George W. Bush, presidente dos Estados Unidos; Paul O´Neill, secretário do Tesouro norte-americano; Horst Köhler, diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI); e John Taylor, sub-secretário do Tesouro americano para Assuntos Internacionais.Caramuru, que deve chegar nesta segunda-feira a Monterrey, como representante do Ministério da Fazenda, observa que, no tema da relação entre os países ricos e pobres, o Brasil se alinha com os primeiros. "Nós somos doadores, embora modestos", explica o embaixador.A participação brasileira no capital da Agência Internacional de Desenvolvimento (IDA, na sigla em inglês usada internacionalmente), braço do Banco Mundial dedicado a emprestar em termos concessionais para os países mais pobres do mundo, é de cerca de US$ 120 milhões.Em termos ajustados por renda per capita, diz Caramuru, o Brasil é o maior contribuidor. Na prática, porém, o peso da participação brasileira é pequeno, e o tema da ajuda aos países mais pobres passa quase despercebido na opinião pública e mídia brasileiras.Caramuru observa, entretanto, que esta postura não condiz com o maior peso que o Brasil quer ter no cenário internacional. A situação dos países mais pobres do mundo, concentrados na África, mas presentes também em regiões da Ásia e mesmo da América Latina e Caribe, é dramática."Na década de 90, um número grandes de países, entre eles o Brasil, se integrou na economia globalizada, e passou inclusive a ficar mais exposto a crises cambiais", ele diz. Um problema maior, porém, é o dos países que nem sequer se integraram, ficando para trás em um grau aterrador de pobreza e estagnação, e vitimados particularmente por flagelos como aids, tuberculose e malária.Para os países emergentes, a maioria de renda média, a década de 90 foi uma montanha-russa. O fluxo líqüido anual de capital para estes países saiu de US$ 39 bilhões em 1990 para US$ 233 bilhões em 1996, caiu para US$ 9 bilhões em 2000 - depois das crises asiática, russa e brasileira - e agora está por volta de US$ 50 bilhões a US$ 60 bilhões.O investimento direto teve um comportamento mais firme: saiu de US$ 19,3 bilhões em 90 para US$ 119 bilhões em 1996, e agora está por volta de US$ 140 bilhões. O contraste com os países da África negra, que têm um contingente humano da mesma ordem de grandeza do existente nos países emergentes, não poderia ser maior.Em 1990, o fluxo de capital para estes países foi US$ 1,7 bilhão apenas, e, em 1996, no momento de máxima euforia nos mercados emergentes, subiu para US$ 4,8 bilhões. Em termos de investimentos diretos líqüidos, o total saiu de US$ 2,4 bilhões em 1990 para US$ 2,8 bilhões em 1996, e caiu para um déficit de US$ 1,8 bilhão em 2000 (possivelmente atribuível ao crescimento dos investimentos sul-africanos fora do continente). Na verdade, como explica Caramuru, as quatro ou cinco dezenas de países mais pobres dependem totalmente do fluxo de empréstimos concessionais e doações dos países ricos para fechar seus balanços de pagamento e manter as suas economias funcionando.Por ano, são US$ 50 bilhões em transferências, e a avaliação é que este número deveria ser duplicado. Um tema freqüentemente tratado, e que interessa também a países como o Brasil, é o fato de os mais de US$ 300 bilhões que os países ricos gastam anualmente com subsídios agrícolas serem muito superiores à ajuda externa.E estes subsídios contribuem diretamente para reduzir a renda dos países pobres (e também do grupo de renda média). O mundo rico, com exceção de uns poucos países europeus, está muito longe de devotar 0,7% do seu PIB à ajuda externa, uma meta estabelecida há mais de 30 anos pelos organismos internacionais.A ajuda americana, por exemplo, está em torno de 0,1%. O país, porém, liderado por O´Neill, não tem se mostrado muito inclinado a discutir os níveis da ajuda, mas sim a forma, com a proposta de que uma boa parte dos recursos da IDA seja transformada em doações. Os europeus, por outro lado, já deram sinais de que têm reservas quanto a esta proposta e espera-se que tentem focar a discussão no aumento da ajuda externa.O Brasil é contrário à idéia americana, explica Caramuru, por duas razões. A primeira é que doações não retornam, naturalmente, ao capital da IDA. Assim, os países ricos podem se ver tentados a encarecer as linhas de empréstimos normais, tomadas principalmente por países de renda média, para reabastecer o IDA.E, em segundo lugar, o Brasil acha que financiamentos são instrumentos que, quando bem usados e monitorados, podem ter um papel mais importante em integrar aqueles países à economia global do que as doações.

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