Relações agricultura-indústria

A agricultura brasileira sempre foi vista com desdém pelos chamados "desenvolvimentistas", como setor atrasado tecnologicamente, impotente para estimular o crescimento e fadado a ter participação cada vez menor no PIB. Nos EUA e em países da União Europeia a agricultura representa menos de 3% do PIB e do emprego gerado, mas ainda assim é defendida com unhas e dentes pelos governos, à custa até mesmo do desrespeito às regras internacionais de comércio.

Antônio M. Buainain e José Maria da Silveira *,

14 de maio de 2013 | 02h04

Não é estranho que um setor tão insignificante receba tamanha atenção? A força política dos agricultores é relativa, haja vista que a esmagadora maioria dos eleitores nasceu e vive nas cidades. A resposta é que naqueles países se compreendeu, desde cedo, que a agricultura tem papel estratégico para o desenvolvimento urbano industrial, seja como provedora de recursos, seja por causa dos vínculos dinâmicos e virtuosos que estabelece com a indústria de transformação e com as atividades do setor de serviços, responsáveis em conjunto por parcela crescente do PIB. No Brasil, a política de desenvolvimento teve sempre forte viés urbano, o meio rural ficou por décadas abandonado e a política econômica nunca hesitou em congelar preços agropecuários a favor dos consumidores. Apesar dos incentivos negativos, a agricultura teimou em crescer e, nos últimos anos, desponta como base do agronegócio, que responde por 23% do PIB e 33% da ocupação. Esse crescimento está, hoje, ameaçado pelo apagão logístico e pelos mesmos fatores que estão de fato corroendo a indústria brasileira.

A oposição entre os dois setores se manifesta nas discussões sobre a desindustrialização em curso. É preciso entender que o desenvolvimento da agricultura é agora integrado à indústria e que o fracasso da indústria compromete o sistema integrado e suas partes, da mesma maneira que as safras ruins afetam negativamente toda a economia.

Consolidou-se, no Brasil, um mercado de produtos e serviços tecnológicos para a agricultura, fundado numa ampla classe média rural, que viabiliza a produção de outros setores e estimula as inovações responsáveis pelos ganhos de produtividade da agricultura e cadeias agroindustriais. Na agricultura de grãos, o segmento mais dinâmico, organizou-se um sistema complexo envolvendo agricultura, indústria e serviços, incluindo a pesquisa tecnológica, no qual a fragilidade de uma das partes compromete todo o sistema e se reflete em queda de produtividade e rendimento econômico da agricultura, queda da demanda por máquinas e insumos agroindustriais e, no limite, redução da atividade econômica, com elevados custos de reconversão produtiva em várias regiões. Equivocam-se também os que pensam que é possível ter uma agricultura dinâmica sem uma base industrial forte.

No período recente há sinais de esgotamento da articulação virtuosa agricultura-indústria, mesmo na Região Sul, conhecida pelos sistemas agroindustriais com elevada participação de pequenos agricultores. A indústria processadora brasileira já não tem acesso à matéria-prima agropecuária a preços mais baixos, que lhe assegurava vantagens competitivas para abastecer o mercado doméstico e exportar. Isso se deve, principalmente, ao custo do transporte interno e ao emaranhado tributário nas transações interestaduais, que elevam os custos de transação e colocam a importação de matéria-prima e ou do produto final como melhor opção. Usar a política comercial para modificar esse quadro, restringindo ou taxando as exportações de matérias-primas para estimular a agregação de valor no País, como faz a Argentina, equivale a um tiro no pé e não eleva a competitividade da agroindústria brasileira.

De outro lado, a agricultura também é negativamente afetada pela baixa produtividade e crescente escassez de mão de obra, pelo encarecimento e baixa eficiência dos serviços em geral e até mesmo pela ameaça inflacionária, que corrói seu principal mercado.

Num mundo que funciona em rede, dicotomias não servem nem mais para simplificar, mas ajudam a atrasar até mesmo o moderno.

* Antônio M. Buainain e José Maria da Silveira são professores do Instituto de Economia da Unicamp.

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