Relações entre Argentina e FMI entram em novo conflito

As relações entre o governo argentino e o Fundo Monetário Internacional entraram em curto circuito novamente por causa do vazamento à imprensa de um documento interno do Fundo sobre a Argentina. O assunto será discutido hoje pelo governo com o negociador permanente do FMI, John Dodsworth, que desembarcará nesta terça-feira em Buenos Aires, somando-se à missão que se encontra no país desde a última sexta-feira para a terceira e última revisão de metas do atual acordo. O documento "vazado" contém detalhes das exigências do fundo e motivou denúncias do secretário de Finanças, Guillermo Nielsen, de que alguns setores do FMI estariam "sabotando" as negociações para dificultar um novo acordo. Também despertou na equipe econômica argentina a desconfiança de que o FMI estaria atuando em conivência com determinados bancos de Wall Street, promovendo seus interesses para melhorar a cotação de alguns bônus. As especulações que circulam em torno das negociações ganharam ainda mais força com a reprodução parcial, por parte do the Wall Street Journal, de alguns trechos do documento publicado ontem pelo jornal argentino El Cronista. Parte do relatório, já antecipado na semana passada, falava sobre a proposta do FMI da inclusão da dívida de US$ 15 bilhões, referentes aos Boden, na renegociação geral do acordo. Os Boden foram títulos emitidos durante o governo de transição de Eduardo Duhalde para trocar os depósitos bancários do "corralito". O fato de o documento "vazado" do FMI incluir a dívida de US$ 15 bilhões referente aos Boden (que não estão em moratória) na reestruturação da dívida em geral levou à suspeita de que o Fundo estivesse interessado em baixar o preço destes papéis, ao mesmo tempo em que isso implicaria uma alta relativa dos bônus globais (em moratória, com valor muito inferior aos Boden). Essa foi a explicação técnica de um funcionário do ministério de Economia, que mostra a desconfiança que se instalou na equipe econômica argentina. O documento interno do FMI aborda também questões fiscais e tributárias, as relações com as províncias, a reestruturação do sistema bancário, a renegociação das tarifas dos serviços públicos, os gastos com os programas sociais, a política comercial e até o Mercosul, sendo este amplamente criticado pelo organismo. Segundo a fonte do ministério de Economia, o governo decidiu endurecer sua postura com o FMI e o ministro Roberto Lavagna recebeu ordens precisas do presidente Néstor Kirchner para não aceitar pressões "descabidas" e exigências "exageradas". O presidente Kirchner, que não tolera nenhum vazamento de medidas do governo ou informações sobre assuntos polêmicos sem a sua autorização, ficou irritado com a divulgação das exigências do FMI, sem nem mesmo ter iniciado as negociações para o novo acordo, conforme disse uma fonte da Casa Rosada.

Agencia Estado,

08 Julho 2003 | 09h36

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.