Relator da ONU diz que Bolsa-Alimentação é insuficiente

O relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Direito à Alimentação, Jean Ziegler, constatou nesta quarta-feira que R$ 15,00, valor mínimo pago pelo governo, mensalmente, às famílias beneficiadas pelos programas Bolsa-Alimentação e Bolsa-Escola, são insuficientes para a compra de uma cesta básica.Em visita ao Brasil para verificar a qualidade da alimentação, especialmente da população pobre, ele foi a um supermercado de Brasília, onde um kit com alimentos essenciais e material de higiene custava R$ 25,98."É insuficiente", disse Ziegler, após passar no caixa, levando 5 quilos de arroz, 5 quilos de açúcar, 1 lata de óleo de soja e 1 pacote de massa, 1 de café, 1 de farinha e 1 de feijão. Ele enfatizou que essa quantidade de alimento não basta para alimentar uma família por um mês e aproveitou para defender a elevação do valor pago pelo Bolsa-Alimentação e o Bolsa-Escola - de R$ 15,00 a R$ 45,00 mensais por família.De acordo com o coordenador para a América Latina e o Caribe da Aliança Mundial pela Nutrição e Direitos Humanos, Flávio Valente, que acompanha a visita, 23 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da miséria no Brasil, ou seja, passam fome.Mas o relator especial da ONU não poupou elogios à iniciativa do governo de manter programas que repassam dinheiro diretamente à população pobre, por meio de cartão magnético. "O Brasil é o único que faz alguma coisa", afirmou, lembrando já ter visitado 18 países, a maior parte na África e América Latina, sem ter visto programas semelhantes."Enquanto o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, é contrário ao direito à alimentação, o do Brasil é favorável." Ele elogiou também o fato de os recursos serem transferidos sem intermediários, o que diminui o risco de corrupção e uso político do programa. "Depois de 500 anos, acabou o clientelismo", afirmou.Além de Brasília, Ziegler deve ir a Pernambuco, Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro e Maranhão. Ao final da jornada de 21 dias no País, ele vai fazer um relatório sobre a situação alimentar no País, a ser apresentado em setembro na Assembléia-Geral das Nações Unidas, em Nova York."Vou a Nova York dizer que o Brasil deu passos importantes para garantir o direito à alimentação", afirmou Ziegler, que, na segunda-feira, conversou por mais de uma hora com o presidente Fernando Henrique Cardoso, no Palácio do Planalto. Autor do livro sobre lavagem de dinheiro "A Suíça Lava Mais Branco", ele observou que a falta de controle sobre o capital financeiro mundial é um fator "que aumenta a miséria e a fome".O convite para ir a um supermercado fazer compras com R$ 15,00 partiu da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, que hoje promoveu seminário sobre alimentação, com a presença do relator especial. Ao final das compras, Ziegler deu os alimentos ao guardador de carros Genivaldo de Souza, de 35 anos, que vigiou o veículo que transportava o diplomata. Depois foi conhecer o barraco onde vive o guardador, em um terreno invadido.O presidente da Comissão de Direitos Humanos, deputado Nelson Pellegrino (PT-BA), defendeu a elevação dos valores pagos pelo Bolsa-Alimentação e Bolsa-Escola para o equivalente a um salário mínimo (R$ 180,00). "É o que pagam as administrações do PT", disse o deputado.

Agencia Estado,

06 de março de 2002 | 20h11

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