Gabriela Biló/Estadão - Yoan Valat/via Pool Reuters - Wilson Dias/Agência Brasil - Adriano Machado/Reuters - Mandal Ngan/AFP
Gabriela Biló/Estadão - Yoan Valat/via Pool Reuters - Wilson Dias/Agência Brasil - Adriano Machado/Reuters - Mandal Ngan/AFP

Relembre atritos e polêmicas na relação Brasil-China 

Caso recente de Eduardo Bolsonaro sobre o 5G não é a primeira fala atribulada do deputado federal e filho do presidente Jair Bolsonaro sobre a China 

Felipe Siqueira, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2020 | 12h45

A polêmica provocada por uma publicação no Twitter de Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do presidente Jair Bolsonaro, em que ele afirma haver espionagem por parte da China na tecnologia 5Gestá longe de ser a primeira fala a provocar algum tipo de desconforto entre o governo Bolsonaro e a segunda maior economia do mundo - que também é o maior parceiro comercial do Brasil.  

Os primeiros atritos começaram ainda na campanha do então deputado Jair Bolsonaro à presidência, em 2018. Já naquela época a China demonstrava apreensão com uma possível guinada em direção às políticas defendidas pelo presidente americano, Donald Trump, de quem Bolsonaro se manteve próximo. 

Nos dois anos seguintes, o governo de Bolsonaro alternou entre ataques, recuos e afagos ao governo chinês. Sobre o próprio 5G, por exemplo, Bolsonaro afirmou, em meio à disputa entre Estados Unidos e China pela tecnologia no Brasil, que quem decidia sobre o assunto era ele, ressaltando, porém, que não iria resolver tudo sozinho. 

Duas das principais polêmicas envolvendo a relação Brasil-China têm Eduardo Bolsonaro e o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub como personagens principais. 

Eduardo chegou a afirmar que a pandemia do novo coronavírus existe por culpa da China, por negligência, comparando a situação ao desastre nuclear de Chernobyl, na antiga União Soviética. Weintraub, ainda como ministro do governo, falou que o país asiático se beneficiaria com a crise da covid-19. No post, que não está mais visível na conta de Weintraub, ele trocou a letra "R" por "L", o que, em resposta, a embaixada chinesa chamou de "cunho fortemente racista". 

Veja, abaixo, os principais atritos na relação Brasil-China.

12/8/2018 - Bolsonaro critica a China

Em encontro com empresários, ainda em campanha à Presidência da República, o então deputado federal Jair Bolsonaro afirmou que era preciso brecar o avanço da China em terras brasileiras, questionando a compra de propriedades no País pelos chineses. 

31/10/2018 - China questiona Bolsonaro em jornal estatal

Em um jornal estatal chinês, utilizado para mandar recados a parceiros globais, o China Daily, o governo do país asiático questionou se Bolsonaro, até então candidato à Presidência, iria abalar as relações entre Brasil e China. A pergunta central no conteúdo do texto era: "Até que ponto o próximo líder da maior economia da América Latina vai afetar a relação Brasil-China?" 

O texto seguia, afirmando que Bolsonaro era "apresentado por alguns como 'Trump tropical', que não apenas endossa a agenda nacionalista de Trump, mas pode copiar uma página de seu guia". 

O documento também mostrava descontentamento em relação à postura do candidato Bolsonaro sobre a China. Segundo eles, o então deputado se mostrou "menos amistoso em relação à China durante a campanha", e concluiu dizendo que esperava que, quando assumisse, Bolsonaro adotasse postura racional e objetiva nas relações Brasil-China. 

5/11/2018 - Bolsonaro comenta conversa com embaixador da China 

O então presidente eleito, Jair Bolsonaro, afirmou, em uma entrevista à Band TV, que, após receber o embaixador da China no Brasil, Li Jinzhang, "todos os países podem comprar no Brasil, mas não comprar o Brasil". Bolsonaro havia afirmado ainda, que estava "na cara" que a China queria aumentar os negócios com o País. "Não teremos nenhum problema com a China, pelo contrário, pode ser até ampliado." 

19/11/2018 - Partido comunista chinês convida o então partido de Bolsonaro a visitar Pequim 

Em uma tentativa de aproximação com o então governo eleito de Jair Bolsonaro, que assumiria em seguida, em 2019, o Partido Comunista da China convidou a então legenda de Bolsonaro, o PSL, para visitar Pequim. A embaixada da China no Brasil enviou carta para receber delegação de dez membros do partido. O partido, representado pelo presidente à época, Luciano Bivar, viu com "bons olhos o convite', o considerando muito bem-vindo. 

17/1/2019 - Olavo de Carvalho critica ida de bancada do PSL à China 

O escritor  Olavo de Carvalho, muito próximo ao governo Bolsonaro, principalmente, no início do mandato - sendo responsável pelas indicações dos ministros Ernesto Araújo, chanceler, e Ricardo Vélez Rodríguez, primeiro ministro da Educação do governo -, criticou a  ida da bancada do PSL à China. A ideia, na época, era conhecer um sistema de reconhecimento facial, para, eventualmente, no futuro, trazê-lo ao Brasil. A comitiva havia sido convidada pela embaixada da China no Brasil. “Vocês estão fazendo uma loucura. Vocês estão entregando o Brasil para a China. Vocês são idiotas?”, questionou ele. 

18/01/2019 - Carla Zambelli minimiza mal-estar por viagem à China 

A deputada federal do PSL Carla Zambelli disse ter havido erro de comunicação sobre viagem à China, após críticas de Olavo de Carvalho. Para a Rádio Eldorado, a parlamentar comentou: "A gente não ouviu da boca do Bolsonaro nenhum desagravo. Em nenhum momento ele nos chamou a atenção. Se gerasse esse mal-estar que foi dito em algumas redes, acho que ele teria chegado até nós para conversar". Olavo chegou a criticá-la nominalmente. "Isso é um bando de caipira. Inclusive, você, Carla Zambelli. Nunca vou te perdoar isso aí. Eu já te ajudei muito. Se você não sair desse negócio eu não falo mais com você." 

29/06/2019 - Bolsonaro cancela encontro com Xi Jinping no G-20 por atraso de 20 minutos da delegação chinesa 

No G20, realizado em Osaka, no Japão, Bolsonaro iria encontrar o líder da China, Xi Jinping, mas o presidente brasileiro não quis esperar além dos 20 minutos que já aguardava na sala de espera e desmarcou a reunião, que estava prevista para as 14h30. Até mesmo assessores de Bolsonaro foram pegos de surpresa. O cancelamento também causou irritação em jornalistas chineses, que esperaram por mais de uma hora do lado de fora da sala para acompanharem o encontro. 

24/10/2019 - Bolsonaro chama China de país capitalista 

No mês em que se completaram 70 anos da Revolução Comunista na China, Bolsonaro visitou o país e disse estar, à época, em um local capitalista. Ao chegar a Pequim, destacou que havia interesse do Brasil e da China em aumentar o comércio entre os países. A frase aconteceu após ser indagado na época, após pressão de parte de seu eleitorado, por estar em um país assumidamente comunista. Bolsonaro é crítico ferrenho do comunismo. 

18/11/19 - Bolsonaro diz que Huawei quer instalar 5G no Brasil 

O presidente Jair Bolsonaro afirmou que a empresa de tecnologia chinesa Huawei quer implementar a tecnologia 5G no Brasil. Ele havia se encontrado com o presidente da empresa, Wei-Yao, e disse: "Apenas ouvi".  

18/3/2020 - Eduardo Bolsonaro diz que pandemia do novo coronavírus existe por negligência da China 

O deputado federal e filho do presidente do Brasil, Eduardo Bolsonaro, afirmou que a culpa da pandemia do novo coronavírus é da China. "Quem assistiu Chernobyl (série da HBO sobre o acidente nuclear na União Soviética) vai entender o que ocorreu. Substitua a usina nuclear pelo coronavírus e a ditadura soviética pela chinesa" disse, à época. 

Na minissérie, é mostrado que cientistas que estavam presentes na usina, na madrugada do acidente, esconderam a gravidade da situação. Eduardo Bolsonaro insinua que o mesmo ocorreria com o coronavírus, em março. Segundo ele, a China escondeu algo grave. "A culpa é da China e liberdade seria a solução", diz no Twitter, após chamar o país asiático de ditadura. 

No mesmo dia, a embaixada chinesa no País pediu a retratação do deputado. Yang Wanming afirmou que Eduardo feriu relação amistosa com o Brasil e "precisa assumir todas as suas consequências." 

 

 

18/3/2020 - China responde a Eduardo: "Contraiu vírus mental"

A embaixada chinesa, por meio do  Twitter, protestou contra a fala de Eduardo sobre a pandemia e afirmou: “As suas palavras são extremamente irresponsáveis e nos soam familiares. Não deixam de ser uma imitação dos seus queridos amigos. Ao voltar de Miami, contraiu, infelizmente, vírus mental, que está infectando a amizade entre os nossos povos”. 

O post se referia à viagem realizada pouco tempo antes por comitiva do presidente Jair Bolsonaro, em que Eduardo estava presente, para encontro com o presidente americano, Donald Trump. 

19/3/2020 - Eduardo diz que jamais ofendeu o povo chinês 

Após acusar China de ser culpada pela pandemia do novo coronavírus, Eduardo Bolsonaro recuou e afirmou que jamais ofendeu o povo chinês. Segundo ele, não havia, à época, desejo de problemas com o país asiático. "Esclareço que compartilhei postagem que critica a atuação do governo chinês na prevenção da pandemia, principalmente no compartilhamento de informações que teriam sido úteis na prevenção em escala mundial." 

4/4/2020 - Weintraub faz post insinuando que China sairá 'fortalecida' com crise do coronavírus 

Por meio do Twitter, o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, fez uma publicação ironizando a China, ao insinuar que a segunda maior economia do mundo sairia "fortalecida" com a crise global provocada pelo novo coronavírus. 

Além disso, Weintraub trocou "R" por "L" na publicação. "Geopoliticamente, quem podeLá saiL foLtalecido, em teLmos Lelativos, dessa cLise mundial? PodeLia seL o Cebolinha? Quem são os aliados no BLasil do plano infalível do Cebolinha paLa dominaL o mundo? SeLia o Cascão ou há mais amiguinhos?", escreve Weintraub.

No mesmo dia, o cônsul-geral da China no Rio de Janeiro, Li Yang, havia assinado artigo no jornal O Globo questionando o deputado federal e filho do presidente Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, sobre os motivos de suas declarações polêmicas a respeito do país asiático. 

O post não está mais visível na conta do ex-ministro. 

6/4/2020 - Embaixada da China repudia tuíte de Weintraub: "Racista"

Após falas de Weintraub trocando "R" por "L", a embaixada chinesa no Brasil repudiou o tuíte do então ministro da Educação e disse que a declaração tinha "forte cunho racista". “Deliberadamente elaboradas, tais declarações são completamentes absurdas e desprezíveis, que têm cunho fortemente racista e objetivos indizíveis, tendo causado influências negativas no desenvolvimento saudável das relações bilaterais China-Brasil”, diz a nota divulgada no Twitter da Embaixada. 

03/09/2020 - Bolsonaro diz que decisão sobre 5g cabe a ele 

Em meio à disputa entre Estados Unidos e China sobre a tecnologia 5G no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que a decisão sobre o assunto cabe a ele. "Vou deixar bem claro, quem vai decidir 5G sou eu. Não é terceiro, ninguém dando palpite por aí, não. Eu vou decidir o 5G", disse Bolsonaro durante transmissão semanal nas redes sociais. Ele ainda falou que o Brasil é uma potência e precisa ter sistema de inteligência robusto para trabalhar. Bolsonaro também ressaltou que não vai decidir sozinho sobre o tema. 

24/11/2020 - Eduardo Bolsonaro fala que iniciativa brasileira do 5G não terá espionagem da China 

O deputado federal Eduardo Bolsonaro publicou e apagou pouco tempo depois um post no Twitter exaltando apoio do Brasil a projeto dos Estados Unidos sobre o 5G. Além disso, ele afirmou que o presidente americano, Donald Trump, estaria criando uma "aliança global para um 5G seguro, sem espionagem da China." 

Em uma sequência de tuítes, o filho do presidente Jair Bolsonaro citou, por exemplo, fala que é atribuída ao ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre governo analisar "alertas geopolíticos" no âmbito da tecnologia do 5G. 

24/11/2020 -  China reage a Eduardo e diz que Brasil poderá "arcar com consequências"

A China reagiu à fala do deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, afirmando que "algumas personalidades têm produzido uma série de declarações infames, que solapam a atmosfera amistosa entre os dois países." 

“Acreditamos que a sociedade brasileira, em geral, não endossa nem aceita esse tipo de postura. Instamos essas personalidades a deixar de seguir a retórica da extrema direita norte-americana, cessar as desinformações e calúnias sobre a China e a amizade sino-brasileira, e evitar ir longe demais no caminho equivocado, tendo em  vista os interesses de ambos os povos e a tendência geral da parceria bilateral. Caso contrário, vão arcar com as consequências negativas e carregar a responsabilidade histórica de perturbar a normalidade da parceria China-Brasil.” 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.