Remarcação de preços caminha para calmaria

As remarcações de preços nos supermercados parecem ter, enfim, entrado em fase de calmaria. O turbilhão registrado no final do ano passado e início de 2003 foi o pior enfrentado pelo consumidor desde a implantação do Plano Real. Nem em 1999, quando o governo promoveu a desvalorização cambial, o impacto sobre o bolso da população foi tão forte, embora tenha contado com o mesmo ingrediente: a elevação do dólar.Naquela época, ao contrário do que se previa, a inflação não disparou, graças principalmente a um posicionamento dos supermercados, afirma a Associação Brasileira de Supermercados (Abras). Apesar de situação semelhante, alguns fatores contribuíram para que, desta vez, o varejo não conseguisse brecar os aumentos.De acordo com João Carlos de Oliveira, presidente da Abras, a diferença fundamental é que em 2002, graças à emissão de moeda pelo governo, a demanda avalizou os aumentos. A expansão da base monetária, principalmente com o pagamento do FGTS, colocou mais dinheiro na economia que acabou sendo deslocado para o consumo de não-duráveis. Ele argumenta que a partir de agosto a base monetária se expandiu em média 3% ao mês.Além disso, os aumentos pedidos pelos fornecedores tiveram como justificativa a valorização do dólar, que de fato ocorreu. Já em 1999 as indústrias tinham uma atitude preventiva, querendo elevar os preços para se protegerem de uma eventual disparada da moeda, o que acabou não acontecendo. "Era uma situação irreal", afirmou. Na ocasião, a pressão por reajustes era generalizada, até de empresas que não sofriam influência do câmbio. Agora, os aumentos estão bem localizados nestes setores. Se há exagero, não se sabe. "Trabalhamos com mais de 150 mil itens, não sabemos a composição de preço de cada um. O papel dos fornecedoresA resistência dos supermercados desta vez foi menor também por causa da falta de alternativas aos fornecedores tradicionais. O consultor da LCA, Luis Suzigan, adverte que em 1999 a economia era mais aberta e os importados ajudavam a equilibrar a disputa, tanto que o déficit da balança comercial batia a casa dos US$ 7 bilhões. Mesmo com a depreciação do real, os produtos estrangeiros não perderam espaço de imediato.Para completar, o dólar em alta tornou o mercado externo atrativo para as indústrias, fazendo com que elas preferissem mandar sua produção ao exterior a abastecer o mercado interno, reduzindo então a oferta. A elevação de commodities no mercado internacional contribuiu ainda mais para este movimento. Óleo de soja, farinha de trigo e açúcar lideraram os aumentos.Suzigan destaca ainda que o varejo estava no limite de sua capacidade de absorver aumentos e não conseguiu embutir mais uma pressão de custos, preferindo então proteger suas margens de lucro, mesmo com o risco de perder mercado. Os ganhos, até em razão da forte reestruturação do setor, estavam sendo comprimidos desde a década de 90.Por estes motivos, a previsão é de que os produtos a partir de agora podem até ´devolver´ parte dos aumentos imprimidos, mas os preços não vão retornar aos patamares anteriores. A tendência é de que entrem em trajetória de estabilidade já no próximo mês e assim se mantenham pelo menos até o final do ano. Suzigan acredita, caso haja uma recuperação da massa de rendimentos, que o varejo possa conquistar um fôlego extra no final de ano, com o aquecimento sazonal do consumo.

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