Remédio errado pode matar o paciente

O biênio 2011 e 2012 não foi bom para a economia brasileira. Em 2011, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 2,7% e a taxa de inflação (IPCA) atingiu 6,5%. Em 2012 o crescimento do PIB foi de 0,9% e o IPCA, de 5,84%. Já em 2013 estamos prevendo crescimento de 2,5% e inflação em 5,9%.

José Márcio Camargo *,

20 de abril de 2013 | 02h05

Se o PIB cresce pouco, a indústria de transformação está em forte contração. Enquanto os setores de serviços (2,7% e 1,7%), comércio (3,4% e 1%) e construção civil (3,6% e 1,4%) mostraram crescimento em 2011 e 2012 - ainda que a taxas decrescentes -, a indústria de transformação encolheu 2,5% em 2012, cresceu apenas 0,1% em 2011 e continuou encolhendo no início de 2013 (-3,2% nos 12 meses encerrados em fevereiro). Esses dados mostram que o País entrou em processo de estagflação e está se desindustrializando.

Estagflação é um fenômeno cuja origem é a incapacidade de a oferta de bens e serviços responder de forma adequada aos aumentos de demanda. Como a oferta não cresce, os aumentos de demanda se transformam em aumentos de custos, de preços e de importação.

Por que a oferta não responde ao crescimento da demanda? Se as máquinas, equipamentos, infraestrutura (estradas, comunicações, etc.) e trabalhadores já estiverem totalmente empregados, para que a produção cresça é necessário aumentar a quantidade e a qualidade (produtividade) desses fatores. Isso exige investimento em capital físico e em capital humano, que leva um tempo maior para maturar do que os estímulos à demanda. Enquanto isso não ocorre, mais demanda se transforma em aumento de custos, inflação e mais importações, com pouco crescimento.

Os bens gerados pelos setores de serviços, comércio e construção civil (corte de cabelos, serviços bancários e de transporte, residências, shoppings, estradas, etc.) são, em grande parte, vendidos no próprio local onde são produzidos, enquanto aqueles bens gerados pela indústria de transformação podem ser vendidos em qualquer lugar do mundo, independentemente de onde são produzidos.

Existe uma importante diferença entre a reação destes dois grupos de produtos a uma situação de excesso de demanda. O primeiro grupo, como não sofre a concorrência de empresas de outros países, quando ocorre excesso de demanda e seus custos de produção aumentam, repassa esses aumentos de custos para os preços, gerando inflação. Para o segundo grupo, esse repasse é impossível, porque ele tem de competir com produtos similares que são importados. A inflação desses bens dentro do País tem de ser similar à inflação no resto do mundo, corrigida pela taxa de câmbio. O excesso de demanda e o aumento de custos significam redução das margens de lucros e da capacidade de competir com os importados e, portanto, menos investimento. Quanto maior o excesso de demanda, menos competitivo será o setor.

Dados os elevados níveis de utilização dos fatores, principalmente do trabalho, "acelerar o corte de juros pode ser um tiro no pé. (...) O problema da indústria não é falta de demanda. (...) O problema da indústria é oferta, falta de competitividade. E isso não se resolve com redução de juros. (...) A redução dos juros tem o efeito de aumentar a demanda na economia, inclusive a demanda por serviços, cuja taxa de inflação está em 9,5% ao ano. (...) Se você reduz juros, a demanda aumenta, o desemprego cai e o salário aumenta. Tudo isso prejudica a competitividade do setor industrial, que não consegue aumentar seus preços por causa dos importados" (José Márcio Camargo, Estado, 8/3/2012, página B4).

O desempenho da economia brasileira em 2012 mostra que esse diagnóstico estava correto. As políticas de incentivo à demanda, redução de juros, desonerações tributárias, expansionismo fiscal, etc., aceleraram a inflação de serviços, os aumentos dos salários acima dos ganhos de produtividade e, portanto, o custo unitário do trabalho e a redução da competitividade da indústria. Persistir nesse caminho só agrava o problema. A indústria de transformação definha, enquanto os setores produtores de bens não comerciáveis crescem a taxas cada vez menores.

Está na hora de reconhecer que o diagnóstico e, portanto, o remédio estão errados e este precisa ser mudado. Antes que ele mate o paciente.

* José Márcio Camargo é professor do departamento de Economia da PUC/Rio e economista da Opus Gestão de Recursos.
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