Remédio mais brando reacende debate político

Argumentos técnicos respaldam a decisão do BC de reduzir o ritmo do aperto monetário: a inflação está mais branda e a atividade econômica dá sinais claros de desaceleração. Mas uma parte do mercado financeiro pode começar os negócios hoje com a pulga atrás da orelha. A dúvida é sobre a percepção de que o noticiário político pode ter influenciado em uma parte da decisão anunciada ontem à noite.

Cenário: Fernando Nakagawa, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2010 | 00h00

O tema é tratado com muita reserva entre analistas e economistas. Oficialmente, são raros os que questionam a atuação do BC, que foi absolutamente vitoriosa nos últimos sete anos. Mas, ao mesmo tempo, ninguém deixa de citar informalmente que o banco, como membro de um governo, pode estar sujeito a pressões políticas. É aí que está a vidraça.

Os mesmos números que respaldam a mudança no ritmo dos juros serviram de munição para os críticos à política monetária adotada por Meirelles. Para quem não gosta da atuação do BC, a inflação em queda e atividade mais fraca formaram os argumentos perfeitos para cobrar a diminuição do ritmo de aperto monetário. Esses mesmos dados agitaram parte do Ministério da Fazenda que, nos bastidores, fomentou o debate para a perspectiva - confirmada - de aumentos mais comedidos do juro. O discurso chegou a Lula, como mostrou o Estado no início da semana. Guido Mantega procurou o presidente para alertar sobre os riscos relacionados aos juros.

Crítico nos bastidores da estratégia adotada por Meirelles, o ministro da Fazenda sugeriu a Lula que o crescimento da economia poderia ser comprometido com o aumento de 0,75 ponto. Na ocasião, Lula indicou que não levaria o tema a Meirelles. Esse foi o comportamento de Lula desde o início do governo. Mas a decisão de diminuir a dose do remédio contra a inflação pode ressuscitar o entendimento de que o BC está, sim, sujeito às pressões do governo.

É JORNALISTA DO "ESTADO"

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