Infográficos/Estadão
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Remédios amargos

O governo espera que os pecados lhe sejam perdoados e que tudo fique por isso mesmo

Celso Ming, O Estado de S. Paulo

08 Setembro 2015 | 21h00

O governo afinal reconhece que não notou o agravamento da crise e que precisa agora adotar "remédios amargos". Espera que os pecados lhe sejam perdoados e que tudo fique por isso mesmo.

Não notou a deterioração da economia, porque estava envolvido no debate eleitoral, embora a oposição não falasse de outra coisa. Quando acordou, ficou tarde demais.

"Se cometemos erros, e isso é possível..."- admitiu a presidente Dilma em pronunciamento de 7 de setembro, divulgado apenas pela internet para não provocar panelaços. E mais, pela primeira vez sugeriu que pode reduzir até mesmo gastos sociais. 

O ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, foi algo mais específico na entrevista publicada domingo na Folha de S.Paulo: "Fomos longe demais na política anticíclica, na desoneração de impostos".

Ora, quem denunciava essas distorções e advertia para a grave desarrumação da economia era tratado como "irresponsável" e "catastrofista". 

Além de tardio, esse reconhecimento é parcial. Insiste em que as causas dos problemas são externas, e não o resultado das más políticas que, entre outros desacertos, não prepararam o País para a tempestade perfeita que estava vindo.

Não reconhece o tamanho da devastação produzida. Este governo empurrou as contas públicas para a beira da perda do grau de investimento, afundou a indústria, desidratou a Petrobrás, desorganizou o setor elétrico e quebrou o do etanol. 

Não vem acompanhado de um compromisso de mudança, daquilo que os ingleses chamam de "commitment", pela recuperação do setor público.

Bom dia, a presidente Dilma diz, e logo se contradiz. Há apenas cinco dias avisou que não tinha como reduzir despesas no Orçamento, porque cortara tudo o que podia. Agora, fala em cortar até gastos sociais, mas sabe-se lá com que convicção.

Foi ela quem, há 9 dias, mandou para o Congresso projeto de lei orçamentária para 2016, com um rombo de R$ 30,5 bilhões, redução de arrecadação e aumento de despesas (veja a tabela ao lado). Entendeu que o Congresso Nacional faria o serviço desagradável que ela não quis assumir.

A presidente Dilma aprecia mais a estridência das cigarras desenvolvimentistas, como Nelson Barbosa, Aloizio Mercadante, Paulo Skaf e dos economistas da Unicamp do que os convites à dureza da disciplina fiscal e à recuperação dos fundamentos feitos por Joaquim Levy, Delfim Netto, Samuel Pessôa e Affonso Celso Pastore.

Já deu demonstrações suficientes de que acredita em que a vontade pode tudo. Para ela, basta querer para virar um jogo perdedor.

Daí suas intervenções na economia, como no achatamento das tarifas da energia elétrica e dos combustíveis e na adoção de políticas industriais irrigadas de pacotes de bondade a destinatários selecionados com critérios arbitrários. Daí também os mesmos apelos aos empresários, para que "soltem de uma vez seu espírito animal", independentemente das condições dos negócios e da qualidade da política econômica.

Resta a certeza de que o Brasil é maior do que o buraco e do que as opções equivocadas dos seus governos.

CONFIRA:

Na percepção dos analistas do mercado, as condições da economia continuam em deterioração. É o que mostra a Pesquisa Focus, feita semanalmente pelo Banco Central com cerca de 100 consultores e analistas.

Gols de Merkel

Ao liderar na Europa a acolhida de migrantes e refugiados, a chanceler Angela Merkel atinge três objetivos: começa a reverter a fama de dura insensibilidade com que a Alemanha continua sendo vista internacionalmente; reduz o déficit de mão de obra; e reduz a tendência ao envelhecimento de sua população. 

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