Remédios amargos, porém inevitáveis

Opinião

CLAUDIO ADILSON , GONÇALEZ, O Estado de S.Paulo

02 Fevereiro 2015 | 02h03

Ninguém gosta de tomar remédios. São caros, amargos ou de administração dolorosa e causam efeitos colaterais em geral extremamente desagradáveis. Mas, muitas vezes, não é possível evitá-los. E, como orientam os médicos, quanto mais se permitir que a moléstia avance, pior. Necessita-se de fármacos mais fortes e em doses elevadas.

Infelizmente, a presidente Dilma herdou da presidente Dilma uma economia enferma, com várias moléstias, algumas em estágios avançados, que exigirão tratamentos dolorosos: estagnação, talvez recessão, descontrole fiscal, déficit em conta corrente de 4,2% do PIB, inflação acima do teto da meta, desindustrialização prematura, petrolão, crise energética e enorme desequilíbrio de preços relativos, ou seja, o preço de um bem em relação ao de todos os demais.

É claro que o tratamento começa pelo ajuste fiscal. Apesar disso, neste artigo vou abordar o último ponto citado no parágrafo anterior, qual seja, o desequilíbrio de preços relativos, e examinar a consistência da política macroeconômica necessária para corrigir o problema.

Os preços relativos exercem papel crucial na economia. São eles que determinam as escolhas de consumidores e de produtores e sua livre flutuação é fundamental para a alocação eficiente dos recursos. Quando são distorcidos, em geral por interferências do governo, provocam ineficiências, queda de produtividade, crises de abastecimento, etc.

No Brasil, atualmente, há dois conjuntos de preços relativos que estão fortemente distorcidos, em razão das interferências do governo na economia, a saber: preços administrados (principalmente, mas não só, energia elétrica) vis-à-vis os preços livres e os preços dos bens comercializáveis (tradables) em relação aos dos bens e serviços não comercializáveis (non tradables), ou seja, a taxa real de câmbio.

As consequências dessas distorções são gravíssimas. No caso da energia elétrica, as distribuidoras estão com as finanças à míngua, vivem de caros empréstimos bancários de curto prazo, não geram caixa para a manutenção das redes e tampouco têm incentivos para investimento.

O Brasil está às portas de um racionamento de energia elétrica. Não é correto culpar a defasagem das tarifas por essa situação. Mas a correção da crise energética brasileira começa pelo saneamento das finanças das distribuidoras sem, é claro, a ajuda do Tesouro Nacional, pois isso conflitaria com o objetivo maior do ajuste fiscal. Para tanto, serão necessários aumentos nos preços da energia elétrica para o consumidor da ordem de 35% a 40%, em média.

Passemos ao ajuste cambial. De meados de 2014, quando a taxa de câmbio se encontrava em torno de R$ 2,25 por dólar, até o momento em que este artigo estava sendo redigido, o real havia sofrido depreciação de aproximadamente 18%. Mas essa depreciação é quase igual à ocorrida numa cesta de moedas que acompanhamos, composta principalmente (mas não só) por países exportadores de commodities e cujas variações cambiais são fortemente correlacionadas com as do real. Ou seja, a depreciação cambial ocorrida até o momento ainda não reflete as fragilidades específicas da economia brasileira, mas simplesmente o fortalecimento internacional da moeda norte-americana.

Se levarmos em conta que o dólar também se fortaleceu em relação a moedas de grandes economias desenvolvidas, tais como o euro e o iene, concluímos facilmente que a depreciação do real, até agora, ajudou muito pouco o aumento da competitividade de nossas exportações, sejam de produtos primários, sejam de manufaturados.

Tomemos, por exemplo, o custo unitário do trabalho (CUT) da indústria de transformação expresso em dólares. Esse indicador mensura o valor dos salários e dos encargos por unidade produzida pelo setor. Segundo minhas estimativas, o CUT passou de US$ 25, em 2002, para US$ 45, atualmente. A situação já foi pior, uma vez que o CUT médio de 2006 a 2014 foi de US$ 55, em decorrência dos aumentos reais de salário acima da produtividade e do uso da taxa de câmbio como instrumento para controle da inflação. O patamar atual, porém, ilustra de forma cabal a perda de competitividade de nossas manufaturas. Essa não é a única causa da crise da indústria, mas explica boa parte do problema.

Swap cambial. Enquanto isso, o Banco Central exerceu e continua a exercer forte influência na contenção da depreciação do real. Isso, como se sabe, se dá por meio da venda de ativos cambiais para o mercado (swap cambial), cujo saldo já ultrapassa US$ 100 bilhões. Tenho forte inclinação a acreditar que tamanha interferência na formação da taxa de câmbio não se coaduna com a visão do ministro Joaquim Levy sobre como deve funcionar um regime de livre flutuação cambial. Assim, o ajuste de preços relativos também deve incluir a retirada gradual da cortisona, ou seja, do swap cambial, e, tudo o mais constante, provocará mais depreciação do real.

Para que esse ajuste de preços relativos efetivamente ocorra, é preciso impedir que os aumentos tarifários e a depreciação cambial (que eleva o preço dos bens comercializáveis) sejam repassados para os preços dos bens e serviços não comercializáveis, basicamente os salários. E aqui entram a parte amarga e os efeitos colaterais da medicação.

Para tanto, será necessário controlar a demanda, não só pela austeridade fiscal, mas, sobretudo, mediante uma política monetária apertada, ou seja, com elevação da taxa básica de juros para patamar que corresponda a um juro real (descontada a inflação) superior àquele que não afeta a taxa de desemprego, conhecido no jargão econômico como juro neutro. Em português mais claro, será necessário elevar temporariamente a taxa de desemprego em algo em torno de 2,0% em relação ao patamar atual, segundo minhas estimativas obtidas em modelos estatísticos.

Em resumo, os ajustes de preços relativos significam aumentos tarifários, queda de salário real e significativa elevação temporária do desemprego. São remédios amargos, mas, infelizmente, inevitáveis.

ECONOMISTA, DIRETOR-PRESIDENTE DA MCM CONSULTORES, FOI CONSULTOR DO BANCO MUNDIAL, SUBSECRETÁRIO DO TESOURO NACIONAL E CHEFE DA ASSESSORIA ECONÔMICA DO MINISTÉRIO DA FAZENDA

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