Remessas de lucros e dividendos devem superar IED pela primeira vez, diz Sobeet

Em 2009, o Brasil caiu da 10ª para a 14ª posição em ranking mundial que mede o fluxo de IED

Francisco Carlos de Assis, da Agência Estado,

22 de julho de 2010 | 13h56

As perspectivas para o Investimento Estrangeiro Direto (IED) no Brasil nos próximos anos não são das melhores. Segundo o presidente do conselho da Sobeet, Herman Wever, é provável que as remessas de lucros e dividendos superem o ingresso de IED em 2010 pela primeira vez na história brasileira. De acordo com as expectativas da Unctad e da Sobeet, que apresentam nesta quinta-feira, 22, o estudo World Investment Report (WIR 2010), as remessas de lucros e dividendos neste ano deverão somar entre US$ 32 bilhões e US$ 35 bilhões, e a expectativa de ingresso de IED no País é de US$ 30 bilhões. "Isso coloca um quadro de piora na relação IED/transações em conta corrente", disse Wever.

No ano passado, comparativamente a 2008, o Brasil já havia caído da 10.ª para a 14.ª posição entre as 20 economias que mais receberam investimento estrangeiro no mundo. De acordo com o estudo, os motivos que levaram à queda no ingresso de IED no ano passado e que sustentam as expectativas negativas para os próximos anos são de caráter conjuntural e estrutural.

Do ponto de vista conjuntural, a diminuição do fluxo de IED no Brasil está relacionada à crise financeira internacional, mas há também o problema com o câmbio e a elevada carga tributária. O real valorizado tem estimulado o aumento de remessas de lucros e dividendos das empresas para suas matrizes, o que acaba impactando negativamente na balança de pagamentos e encarecendo os investimentos no País.

Do ponto de vista estrutural, entre vários exemplos, a Sobeet cita a ausência do Brasil no conjunto de países que, nos últimos dez anos, assinou tratados de investimento. Neste período, foram assinados no mundo 1.004 tratados, dos quais o Brasil não assinou nenhum, assim como apenas 19 dos 177 países da amostra da Unctad.

Para Wever, isso faz muito mal para a economia porque os tratados de investimento, entre outras funções, protegem os investimentos estrangeiros, tanto de empresas estrangeiras no Brasil quanto de empresas brasileiras no exterior. "O Brasil não só deixou de assinar tratados nos últimos dez anos como perdeu um que mantinha com a Alemanha", afirmou.

De acordo com o presidente da Sobeet, Luís Afonso Lima, a entidade tem conversado com o Itamaraty sobre essa questão. A justificativa, ainda que não oficial, é que o Brasil é um recebedor líquido de investimentos, e que, neste caso, o País teria mais que proteger investimentos estrangeiros do que ter seus investimentos protegidos no exterior.

O problema, segundo com Antônio Corrêa de Lacerda, membro do conselho da Sobeet e professor de Departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), é que boa parte dos investimentos brasileiros no exterior são de caráter governamental ou de capital misto, ou seja, trata-se de dinheiro público sem proteção no exterior. Ele citou, por exemplo, os problemas enfrentados pela Petrobrás na Bolívia e pela Odebrecht no Equador.

Apesar das perspectivas ruins para o Brasil, pesquisa feita pela Unctad em 2010 mostra que o País saltou da 4.ª para a 3.ª posição no ranking dos países mais citados para a entrada de IED até 2012, atrás de China e Índia, e à frente de Estados Unidos, Rússia e México. No entanto, de acordo com a Sobeet, os dados da pesquisa não devem ser concretizados com facilidade, uma vez que os investidores estrangeiros têm preferido outros destinos para seus recursos, dada a falta de segurança no País.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.