Julio Bittencourt/Renner
Presidente da Renner teve recentemente sua remuneração atrelada a métricas ESG  Julio Bittencourt/Renner

‘Remuneração tem de refletir objetivo da empresa’, diz presidente da Renner

O executivo também percebe o consumidor mais atento ao assunto

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2021 | 05h00

O presidente da Renner, Fabio Faccio, teve recentemente sua remuneração atrelada a métricas ESG. Esse tipo de cálculo já era utilizado há alguns anos para 80% do alto escalão, mas agora vale para toda a cúpula.

A varejista não possui um controlador definido e, para Faccio, trazer o tema à mesa da alta administração e dar transparência a essas questões é uma obrigação. O executivo também percebe o consumidor mais atento ao assunto e que a pandemia deixou evidente a importância da temática ESG para sociedades, empresas e acionistas. 

O que muda na empresa e na sua administração quando a remuneração passa a refletir itens relacionados ao tema ESG?

Esse olhar para as questões ESG vem de muito tempo e trazer isso para a remuneração sedimenta nossa cultura e formaliza coisas que são importantes para nós. Esse tema está presente no dia a dia da empresa desde 2005, ano em que a Renner passou a ser uma ‘corporation’ (empresa sem controle definido) e temos nossa responsabilidade fiduciária, representando mais de 133 mil acionistas. Em 2008, com o Instituto Renner, já tínhamos grande foco no empoderamento feminimo. E desde 2013 colocamos esse tema em nossos princípios e valores. As metas em si já estão atreladas à grande parte da remuneração dos executivos desde 2017. Agora, mais recentemente, 100% dos executivos do C-level (alto escalão) têm remuneração ligada a essas métricas. Isso foi muito bem aceito pelos executivos.

O que significa para você ter parte da remuneração relacionada a critérios ambientais, sociais e de governança?

Faz todo o sentido. A remuneração tem que refletir o objetivo da empresa. Nada mais correto e justo do que isso. Independente desses fatores estarem na meta, isso já era algo que era feito, estava na crença, mas existir a métrica alinha. É mais um ponto importante, reforça a mensagem. Esse tema é uma prioridade desde que nos transformamos em uma corporation.

Como o tema ESG é tratado hoje nas reuniões do alto escalão da empresa?

Essa já é uma prioridade há muitos anos. Meio ambiente e sustentabilidade sempre foi um ponto central em nossa crença. No nosso conselho, temos um comitê de sustentabilidade. O tema ESG está na meta dos executivos, está em nossas reuniões.

O consumidor no Brasil está mudando seu consumo de moda e se voltando para empresas e produtos mais sustentáveis?

A gente entende que sim. O nível de consciência está aumentando mais. Às vezes questionam se o consumidor pagaria mais por isso. Não e nem deve: é uma obrigação da empresa entregar seus produtos sustentáveis, menos impactantes e acessíveis. O consumidor vem valorizando mais, mas existe uma parcela muito grande do público que não faz essa distinção. Mas a tendência é ser cada vez mais.

A pandemia acelerou esse processo de maior conscientização?

Tenho certeza que sim. Acredito que está mais claro para a maior parte da população, para acionista e empresas que o caminho é esse. Para sermos perenes, longevos, precisamos investir em sustentabilidade ou não iremos nos sustentar como sociedade. Se quisermos ter longevidade como sociedade, esse é o único caminho e isso está ficando muito claro. 

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Meta ambiental vira parte de salário de executivos de alto escalão

Grandes companhias do País começam a colocar também no cálculo da remuneração do alto escalão métricas sociais e de governança

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2021 | 05h00

Além das tradicionais métricas de desempenho financeiro e de crescimento da companhia que usualmente entram na conta das grandes empresas na hora de formar o salário de um executivo, começam a fazer parte dessa equação no Brasil metas relacionadas ao ESG – critérios ambientais, sociais e de governança, na sigla em inglês.

O País acompanha um movimento já comum no exterior, em resposta à cobrança da sociedade e de investidores pelo engajamento das empresas nas questões relacionadas à sustentabilidade, à inclusão e à transparência, aspectos cada vez importantes para o desempenho e, principalmente, para a perenidade da empresa. “O movimento das empresas para serem mais sustentáveis acaba por impactar diretamente o bolso dos executivos, com a entrada das metas ESG nos planos de incentivos de curto e de longo prazo”, aponta o sócio da X|R Consultoria, Henri Barochel.

Nos Estados Unidos, o número de empresas que incluem métricas sociais ou ambientais para decidir as bonificações de seus executivos dobrou nos últimos dois anos, segundo levantamento da ISS ESG, o braço de investimentos responsáveis da firma de assessoria em votações de acionistas Institutional Shareholder Services.

O fundador e gestor da Fama Investimentos, um dos pioneiros de investimentos ESG no Brasil, Fabio Alperowitch, afirma que atrelar tais métricas à remuneração de executivos é algo positivo, mas lembra que a empresa precisa tornar transparente quais são essas metas, já que é relevante que elas estejam relacionadas a pontos sensíveis para o setor de atuação da companhia. 

A siderúrgica Gerdau definiu dois itens que passaram, neste ano, a compor a avaliação da remuneração de longo prazo dos executivos: diversidade e redução de gás carbônico. “Trazer esse comprometimento é mais uma ação em prol de continuar evoluindo”, comenta a diretora global de Pessoas e Responsabilidade Social da Gerdau, Caroline Carpenedo. As métricas relacionadas ao ESG passarão a ser atreladas a 20% da remuneração de longo prazo dos executivos da empresa. 

No GPA, dono da rede de supermercados Pão de Açúcar, desde 2016 a remuneração variável de executivos conta com uma métrica relacionada à redução do consumo de energia elétrica. Mas a companhia percebeu que faz mais sentido trazer para o cálculo a redução da emissão de gás carbônico. “Descobrimos que os gases que saem dos refrigeradores tinham mais impacto na nossa pegada de carbono do que a questão da energia elétrica”, explica a diretora de sustentabilidade do GPA, Susy Yoshimura. Até o fim de 2025, a meta é reduzir tais emissões em 35%. 

A Lojas Renner há dois anos tem compromissos públicos para a área de sustentabilidade, como ter 80% dos produtos feitos com matérias-primas e processos menos impactantes, além de 100% do algodão utilizado certificado. “Objetivo é ser referência em sustentabilidade”, comenta a diretora de Recursos Humanos da Lojas Renner, Clarice Martins Costa. O bônus anual do alto escalão da companhia tem relação com o atingimento dessas metas e cada executivo tem seu próprio desafio, comenta Clarice.

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‘Metas ESG precisam ser parte de um conjunto de ações’, diz presidente da Gerdau

Executivo diz que incorporar as métricas à remuneração reforça a importância do tema para a empresa

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2021 | 05h00

Entusiasta do tema ESG, o presidente da Gerdau, Gustavo Werneck, vem trazendo uma série de mudanças na Gerdau desde que assumiu a siderúrgica, há três anos. Colocando a sustentabilidade como um dos pilares do negócio, o executivo diz que incorporar as métricas ESG à remuneração reforça a importância do tema para a empresa.

O que muda na administração do dia a dia de uma grande empresa quando parte da remuneração variável passa a ser atrelada a métricas ESG?

A principal mudança é o olhar sobre o tema, que ganha ainda mais relevância. Mas ter a remuneração variável atrelada a métricas ESG é o resultado de mudanças e de decisões que a organização vem tomando nos últimos anos no sentido de dar cada vez mais equilíbrio entre as dimensões ambientais, sociais e de governança e a econômica. Elas representam a materialização de um processo de maturidade interna.

Como foi para você passar a ter neste ano parte da sua remuneração de longo prazo ligada à maior presença de líderes mulheres na empresa e à redução de gás carbônico? 

Está sendo um processo de evolução e aprendizado coletivo. Mas é muito satisfatório ver nossos líderes compreenderem e embarcarem nessa jornada. As duas metas ESG que definimos são reconhecidas internamente como fundamentais para nos tornamos uma empresa ainda melhor, mais sustentável e mais inclusiva. As mobilizações e ações para aumentarmos a participação de mulheres em cargos de liderança e reduzirmos nossa emissão de gases de efeito estufa já estavam na agenda. Mas as metas representam a consolidação de uma cultura corporativa de uma empresa que busca ser parte das soluções aos desafios da sociedade. Por isso, ter parte da minha remuneração atrelada a metas ESG é muito positivo, pois nos dá ainda mais clareza do caminho a percorrer numa jornada na qual toda a sociedade ganha. 

Já é possível identificar mudanças no olhar dos executivos em relação a esses temas?

Sem dúvida. Não diria que essa mudança se dá exclusivamente pelas metas, mas elas ajudam a reforçar a importância desse tema para a organização. Hoje, ao visitar uma operação, além das questões de segurança, produtividade e eficiência, nossos lideres já incorporaram temas como meio ambiente e diversidade em seus destaques a serem reportados, nas conversas e reflexões com suas equipes. 

Há outras medidas possíveis para garantir que esse tema esteja presente na cultura da empresa?

As metas precisam ser parte de um conjunto de ações para que o tema esteja presente na cultura da empresa. Por isso, o primeiro passo deve ser uma reflexão da própria cultura, no sentido de tornar a organização menos hierárquica, mas ágil, transparente e colaborativa, onde as pessoas não tenham receio de sempre aprender, desaprender e reaprender. Em adicional ao trabalho de cultura, destaco a evolução da governança. Desde 2019, por exemplo, o Comitê de Estratégia, ligado ao Conselho de Administração, passou a atuar como Comitê de Estratégia e Sustentabilidade, com o papel de apoiar o conselho na análise dos nossos investimentos e decisões estratégicas também levando em consideração os fatores ambientais, sociais e de governança. 

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‘Uma empresa tem de responder pelo impacto do seu negócio’, diz presidente do GPA

No GPA, a percepção é de que as metas ESG instauram um processo educativo em toda a companhia

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2021 | 05h00

No GPA, ao colocar métricas relacionadas ao ESG na remuneração do alto escalão, a percepção é de que todo processo educativo instaurado vai permeando toda a companhia. A mudança ocorre, ainda, em um momento em que o consumidor brasileiro vem notando a importância da sustentabilidade, algo que ficou mais intenso nesse momento de pandemia, aponta do presidente do GPA, Jorge Faiçal.

Houve alguma mudança na condução da empresa a partir do momento em que a remuneração do alto escalão passou a ter vinculação às métricas ESG? 

A sustentabilidade sempre permeou nosso negócio. E a inclusão do tema nas metas de remuneração variável da liderança foi um desdobramento natural do nosso compromisso, com o qual procuramos evoluir de forma consistente permanentemente. Acreditamos que inserir o tema como um item da remuneração variável sinaliza e contribui para um processo educativo em toda a companhia que esse não só um compromisso do conselho ou do CEO, mas também de todos que fazem o dia a dia dos nossos negócios. 

O consumidor no Brasil está mudando seu consumo e se voltando para empresas e produtos mais sustentáveis? 

Não há dúvidas de que o consumidor brasileiro vem mudando o seu modo de pensar, intensificando a exigência com os produtos e o processo produtivo por trás deles. O consumo e a oferta consciente, inclusive, é um dos eixos da nossa estratégia de sustentabilidade. Isso significa que mais do que a nossa preocupação no processo educativo com o consumidor, acreditamos também no processo educativo e de evolução da nossa cadeia, elevando o entendimento e escolhas tanto da demanda, como da oferta. Essa alteração de comportamento do consumidor também foi intensificada com o período pandêmico que estamos vivendo. Todos nós começamos e perceber a interdependência dos temas e aumenta-se a busca por um comportamento mais sustentável, seja de indivíduos como de empresas. 

Como foi para a empresa - e para você pessoalmente - ter essa mudança no cálculo da remuneração? 

O impacto é extremamente positivo, nos orgulha saber que uma das nossas prioridades de negócio da qual somos remunerados e trazer valor para a sociedade. Além disso, é uma oportunidade de mais pessoas, diferentes saberes poderem contribuir com uma estratégia de negócios que tenha como premissa um desenvolvimento sustentável, reforça ainda mais ainda o compromisso da companhia na conduta que esperamos de nossos líderes. 

Como o tema ESG está na pauta da administração do GPA? 

Acredito que uma empresa é responsável não somente pelo seu negócio, mas pelo impacto dos seus negócios em tudo que a cerca. Essa é a nova forma de nos relacionarmos com todos os nossos stakeholders. Essa agenda é compromisso e propósito, e tem que estar refletida na nossa cultura, na liderança, no nosso modo de operar o hoje e o futuro. Temos uma estratégia de sustentabilidade de médio e longo prazo na qual direciona nossos compromissos, assim como nossas iniciativas e metas. O desdobramento disso é o envolvimento de dezenas de áreas do negócio. Isso envolve desde procedimentos e atividades quem envolvem o dia a dia a loja, como resíduos, energia, água, gases de efeito estufa, passando pelo que ofertamos e como homologamos nossos fornecedores até o relacionamento com o cliente.

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