Renda agrícola deve aumentar 26% no ano

O setor agrícola se transformou em uma das poucas ilhas de prosperidade no País, enquanto a indústria e o comércio enfrentam sérias dificuldades, com queda na produção e nas vendas. Os agricultores devem embolsar este ano quase R$ 10 bilhões a mais do que conseguiram em 2001. Um estudo da empresa de consultoria MB Associados indica que a renda agrícola deve chegar a R$ 46 bilhões, ante R$ 36,6 bilhões no ano passado, o que representa um salto de 26%. O aumento da renda agrícola faz crescer o consumo no interior e deve contribuir para que o Produto Interno Bruto (PIB) seja positivo em 2002. Os dados preliminares do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam nessa direção. No primeiro trimestre, o PIB agropecuário cresceu 4,4% comparado com igual período do ano passado, enquanto o da indústria registrou queda de 3,9% e o dos serviços teve aumento de 1,7%. Na média, o PIB brasileiro recuou 0,7%. Mas deverá haver inversão da tendência até o fim do ano. O consultor José Augusto Savasini, sócio-diretor da Rosenberg & Associados, por exemplo, projeta crescimento de 0,9% para o PIB de 2002. Segundo ele, a expansão será puxada pela agropecuária e pelos serviços, que devem apresentar crescimento de 3% e 1,6%, respectivamente. Savasini prevê queda de 0,5% para o setor industrial. As estimativas da MB Associados são mais otimistas. Segundo a consultora Leila Vieira, a expectativa é de crescimento de 1,8% para o PIB, e a taxa prevista para a agropecuária é de 4,5%. Leila observa que o bom desempenho no campo este ano pode ser explicado pelo aumento da produção agrícola e pela recuperação de alguns preços, desencadeada tanto pela valorização das cotações no mercado internacional como pela escalada do dólar em relação ao real. O preço da soja, por exemplo, subiu 40% nos últimos três meses e meio no mercado mundial. A expectativa de obter preços melhores está levando produtores a segurar a venda da commodity, à espera de que o real continue se desvalorizando em relação à moeda americana. O agricultor Antonio Pedrini, da região de Maringá (PR), vendeu 80% da produção até agora. Ele plantou soja em 1.200 hectares e colheu cerca de 67 mil sacas de 60 quilos do produto. Com o dinheiro que já recebeu, Pedrini deu entrada na compra de uma colheitadeira que custa R$ 214 mil e o resto ele reinvestiu na sua lavoura de milho e trigo. Agora Antonio Pedrini aguarda o melhor momento para vender os 20% restantes da produção. "Quando os preços no mercado começarem a cair, vou saber que é hora de vender a soja. Por enquanto, o mercado está aquecido e os preços continuam subindo." EstrelaA capitalização do setor agrícola detectada pela sondagem da MB Associados não foi homogênea (ver quadro). Beneficiada duplamente pelo aumento da produção e dos preços, a estrela da temporada foi a soja, cuja safra cresceu 11% e atingiu o recorde de 41,8 milhões de toneladas. Com isso, a renda do produtor teve aumento de 44%, saltando de R$ 10,4 bilhões em 2001 para R$ 15 bilhões este ano. Uma boa medida do desempenho amplamente favorável dessa cultura pode ser dado pela elevação do poder de compra do produtor, que é medido pela relação entre a renda bruta, o custo de produção e a produtividade. Na soja, esse ganho chegou a 19%, bem acima da média do setor, que foi de 2,1%. Das nove lavouras analisadas, quatro repetiram o desempenho da soja e registraram ganhos expressivos na relação de troca: laranja (44%), milho (31%), trigo (12%) e arroz (9%). Nas demais lavouras pesquisadas, a relação entre preços recebidos e preços pagos ficou negativa para o agricultor. O pior resultado foi no café. Embora a renda bruta dos cafeicultores tenha apresentado aumento de 10%, o poder de compra dos produtores sofreu redução de 31%, por causa dos efeitos devastadores da combinação de preços em queda e custos em alta. Também registraram números negativos os produtores de cana-de-açúcar (24%), de algodão (9%) e de feijão (0,4%) O presidente da Associação Brasileira de Agribusiness (Abag), Roberto Rodrigues, ressalta que o setor deverá garantir o saldo positivo da balança comercial e sustentar o PIB e o emprego, neste ano marcado por fortes turbulências. Pesquisa conjuntural realizada pelo Bicbanco com 110 empresas em todo o País confirma que as estimativas de crescimento das contratações este ano estão baseadas no setor agropecuário. A previsão média geral de crescimento do emprego para 2002 é de 0,9%. No entanto, as empresas agropecuárias projetam aumento de 4,2% para o quadro de pessoal até dezembro. Dos nove setores de atividades pesquisados, as empresas agropecuárias foram as únicas que reviram para cima suas projeções para o emprego. Na pesquisa anterior, realizada no primeiro trimestre, a estimativa do setor apontava para uma estabilidade no nível de emprego. Na média geral, a previsão anterior era de aumento de 2,2% nas contratações.

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