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Renda agrícola recorde puxa negócios

Alta dos preços dos alimentos no mercado internacional deve garantir receita de quase R$ 210 bilhões para a agricultura neste ano

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

Quase R$ 210 bilhões começam a irrigar a economia das cidades do interior do País a partir deste mês. A cifra recorde é resultado da venda das safras de café, laranja, cana, algodão e grãos, que estão em fase inicial de colheita no Centro-Sul. São perto de R$ 30 bilhões ou 16% a mais no bolso dos produtores rurais em relação à receita obtida em 2010, com praticamente os mesmos volumes de produção, segundo projeções da RC Consultores.

O dinheiro do campo já aquece o comércio dos polos do agronegócio. Em Sorriso (MT), por exemplo, o maior município produtor de soja do mundo, há fila de espera para compra de máquinas agrícolas. Em Rio Verde (GO), as vendas de caminhonetes dobraram este mês e faltam imóveis para alugar ou comprar. Já em Barreiras, oeste da Bahia, várias grifes de vestuário, como M.Oficcer, Arezzo, MMartan e Mahogany, desembarcaram no comércio local atrás da riqueza do campo.

"Esta será a safra mais rentável de todos os tempos, apesar do câmbio desfavorável", afirma Walter Horita. Ele cultiva 43 mil hectares com algodão, soja e milho no oeste da Bahia e preside a Associação de Agricultores Irrigantes da Bahia (Aiba), que reúne 1.200 produtores.

Por causa da disparada das cotações dos alimentos no mercado internacional neste início de ano, o campo vive hoje uma situação inusitada: praticamente todas as lavouras estão com preço e renda crescentes em relação a 2010, observa o sócio da RC Consultores, Fabio Silveira. Segundo ele, a política monetária restritiva do Banco Central deve esfriar a demanda, mas não vai conseguir conter a alta dos preços agrícolas e a renda do campo. "O setor tem dinâmica própria."

Diferenças. Apesar da cifra recorde, o economista pondera que a sua projeção de receita da safra é conservadora, porque embute um pequeno recuo das cotações dos produtos agrícolas entre o primeiro e o segundo semestres deste ano em razão de alguns riscos, como, por exemplo, um aperto monetário nos Estados Unidos e na China.

Na semana passada o Ministério da Agricultura divulgou uma projeção de receita da safra agrícola para este ano de R$ 184,2 bilhões, a maior em 14 anos. A diferença entre a estimativa privada e a do governo ocorre porque os cálculos do Ministério da Agricultura foram feitos com preços de novembro de 2010 e não incluem a recente arrancada das commodities.

Na quinta-feira, a cotação do algodão, por exemplo, atingiu US$ 2 por libra peso na Bolsa de Nova York, a maior marca em 140 anos, observa Horita, que tem 80% do seu faturamento proveniente do algodão.

É exatamente o algodão a estrela da safra deste ano devido à escassez do produto no mercado internacional e as compras agressivas da China e da Índia. A receita do algodão deve crescer 153% em relação a 2010, de R$ 3,4 bilhões para R$ 8,6 bilhões. Mesmo assim, a dobradinha soja/milho ainda garante um terço da renda total (R$ 69,2 bilhões).

Cenário. "Tá danado de bom", resume o momento do agronegócio para soja e milho o superintendente de negócios da Cocamar, cooperativa do Paraná, José Cícero Aderaldo. A saca de soja sai hoje a R$ 46, um preço 40% maior que no mesmo período de 2010. Ele observa que normalmente o preço sobe quando a produção recua. Mas, neste ano, o preço avançou sem queda da produção.

O otimismo do produtor faz eco no comércio. "A demanda por máquinas está muito acima da média", afirma Ivandir Manrique, gerente comercial da Guimarães, revenda de máquinas agrícolas da Massey Ferguson em Sorriso (MT). Este ano, ele já vendeu 28 colheitadeiras e 19 tratores. Cada colheitadeira custa cerca de R$ 700 mil e um trator sai por R$ 250 mil. O gerente conta que não há máquinas para pronta entrega e a saída é entrar numa lista de espera, na qual já constam 50 nomes. Os pedidos serão atendidos só no mês de agosto. Detalhe: os produtores quitam o produto à vista mesmo sem recebê-lo.

Eletrônicos. Em Rio Verde (GO), outro polo produtor de soja, a procura por picapes e imóveis está aquecida. Em apenas três dias da semana passada, a Regivel, revenda Ford em Rio Verde, vendeu 11 picapes, conta o consultor de vendas, Fabrício Silva. Dependendo do modelo, o preço do utilitário varia entre R$ 87 mil e R$ 122 mil. "O ritmo de vendas dobrou este mês", diz.

O setor imobiliário também reflete o bom momento do campo. "A colheita já começou e a dinâmica da economia é fantástica", diz Antonio Barbosa, gerente de vendas da Imobiliária Rei, em Rio Verde. Segundo ele, o aluguel de uma quitinete sai por R$ 500 e não há imóvel disponível.

Nas cidades que fazem parte do eixo da soja em Mato Grosso (Sinop, Lucas do Rio Verde, Primavera do Leste), as vendas de eletrônicos crescem 25% neste ano ante o mesmo período de 2010, enquanto a média do Estado é de 15%, segundo Luiz Araújo, gestor da rede Novo Mundo.

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