Renda do petróleo: modos de usar

Cidades com reforço similar no caixa proporcionam cotidianos diferentes

, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2010 | 00h00

Quando chegou a Rio das Ostras, há 14 anos, com três filhos e pouco dinheiro, a agente social Ivone Conceição da Silva tinha sempre sacos plásticos na bolsa. Com eles nos pés, conseguia chegar com os sapatos limpos ao outro lado do mangue que separava sua casa do asfalto.

Hoje, aos 43 anos, ela gosta de caminhar devagar pelo engenhoso deque que dá acesso à sua comunidade, às margens do rio que dá nome à cidade. No meio do manguezal replantado, uma manilha avança. "É esgoto, mas é tudo tratado ali, ó", apressa-se em informar, apontando a estação de tratamento.

Quando chegou a Carapebus, há seis anos, com filho pequeno e marido desempregado, Nilzete Alves dos Santos furou um poço por causa da falta de água. O marido, Marcos Santos, ligou o cano do banheiro à rede improvisada que conduzia os dejetos da rua toda até a lagoa que dá nome ao município.

Hoje, aos 28 anos, Nilzete já conta seis filhos e até recebe conta, mas a água continua ausente, só aparece na torneira uma vez por semana. O vazamento no meio fio é daquela ligação, que continua levando esgoto para a lagoa. É difícil ver o espelho d"água, coberto por plantas aquáticas nutridas pela poluição. Sem trabalho, Marcos pesca para ajudar no almoço, mas evita aquele ponto. "Se colocar o pé nessa água suja, é arriscado perder um dedo", exagera.

Carapebus e Rio das Ostras são cidades vizinhas de Macaé, a base operacional da produção na Bacia de Campos. Com 11,6 mil moradores, Carapebus recebeu, em 2008, R$ 35,3 milhões de royalties, R$ 3.047 por habitante. O número é próximo aos R$ 3.753 destinados a cada um dos 91,1 mil habitantes de Rio das Ostras, mas a riqueza é aproveitada de forma diferente.

Estagnação. Em Carapebus, o cenário rural nunca muda. O hospital municipal não faz cirurgia, mas a cidade ganhou um parque de exposições. Os alunos saem no meio do turno por falta de merenda. Os moradores de um conjunto habitacional invadido no Caxangá também preferem o poço ao carro-pipa da prefeitura. "Cobram até R$ 30, mas na época de eleição é de graça", justifica, com resignação, o desempregado Wellington Sampaio, 25.

Na sexta-feira, ninguém podia antender a reportagem do Estado na prefeitura, que se preparava para a posse do novo prefeito. Depois que o eleito em 2008 foi cassado por contas de gestões anteriores reprovadas, uma nova eleição foi realizada em fevereiro.

Saneamento. Em Rio das Ostras, nada lembra o balneário de 25 mil habitantes que se emancipou há 15 anos. A Rodovia Amaral Peixoto, engolida pela cidade como uma avenida, despeja um tráfego intenso numa imponente ponte estaiada que mostra que o município ainda coleciona obras vistosas. Mas vem mudando de rumo desde que, em 2004, virou símbolo do desperdício dos royalties ao aplicar R$ 12 milhões num calçadão de porcelanato na orla carente de esgoto.

Com mais de 70% das casas usando fossa séptica, a prefeitura resolveu investir em coisa mais útil. Como o emissário submarino, de 2006, que lança no mar o esgoto tratado de 45% da cidade. A obra foi planejada para a universalização da rede e o crescimento dos próximos 20 anos.

As escolas triplicaram e propiciaram o salto do 24.° lugar para o 3.° na lista do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) das cidades fluminenses entre 2005 e 2009.

Ivone ouviu falar da emenda Ibsen, mas não tem medo. "Nada acontece à toa. Não vamos perder os royalties, mas talvez o susto faça os administradores aplicarem esse dinheiro melhor."

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