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Quando a Selic está abaixo de 8,5% ao ano o rendimento da poupança é de 70% da Selic mais a taxa referencial Estadão

Poupança: veja como fica o rendimento com aumento dos juros

O Banco Central deve elevar a taxa básica de juros nesta quarta-feira e acionar o gatilho para que a caderneta volte a ter remuneração fixa: 0,5% ao mês mais a TR; veja simulações com outros investimentos

Heloísa Scognamiglio, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2021 | 05h00
Atualizado 08 de dezembro de 2021 | 11h49

A Selic está atualmente em 7,75% ao ano. Mas a aposta do mercado é que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central determine um novo aumento para a taxa básica de juros na reunião que termina nesta quarta-feira, 8. A expectativa é de que se mantenha o ritmo de aumento de 1,50 ponto porcentual, fazendo com que a taxa encerre 2021 no patamar de 9,25% ao ano. 

O cenário alteraria a remuneração da poupança, aumentando seu rendimento nominal. Ainda assim, ela continuaria tendo rentabilidade líquida inferior à de outras aplicações de renda fixa, como os títulos públicos ou privados (por exemplo, o Tesouro Direto ou CDBs de instituições financeiras). 

 

Segundo a regra do Banco Central, quando a Selic está abaixo de 8,5% ao ano o rendimento da poupança é de 70% da Selic mais a taxa referencial (TR), que está zerada. Quando a taxa básica de juros é superior a 8,5% ao ano, o rendimento da poupança passa a ser de 0,5% ao mês mais a TR. Ou seja, caso se confirme a Selic a 9,25%, a segunda regra passará a valer, elevando o rendimento para 0,5% ao mês – atualmente, a poupança rende 0,44% ao mês. 

Investimentos 

Apesar da mudança na remuneração, o investimento que é feito na caderneta de poupança continuaria menos atraente do que em outras aplicações de renda fixa, afirma Camilla Dolle, head de renda fixa da corretora XP

Para demonstrar sua tese, ela fez uma simulação que compara a poupança com outros investimentos em renda fixa no cenário de Selic a 9,25%. “Pode ser que algumas pessoas achem que terão mais rendimento, que vai melhorar. Mas, em relação a outros investimentos, a poupança continua sendo inferior”, afirma. 

 

“A rentabilidade da poupança ocorre apenas uma vez ao mês, no aniversário da aplicação, enquanto os outros investimentos possuem rentabilidade diária”, diz Camilla.

A poupança se popularizou entre os brasileiros por ser considerada menos arriscada e não ter incidência de Imposto de Renda. “Há uma questão comportamental de se investir na poupança no Brasil. Muitas vezes o próprio investidor não busca mais informações ou, então, acha que não é para ele investir em outras aplicações. Mas é muito mais vantajoso investir nessas outras aplicações de renda fixa, como o Tesouro Selic e o CDB”, afirma Camilla. 

Liquidez

A liquidez diária, ou seja, a possibilidade de resgate a qualquer momento dos valores investidos na poupança, é um dos fatores que contribuem para a escolha pela aplicação. “Mas o Tesouro Selic, por exemplo, possibilita liquidez no mesmo dia útil para resgates feitos até as 13 horas. E quem aplica em poupança costuma deixar o dinheiro parado, em média, por 11 anos antes de fazer movimentações”, diz Camilla. 

“Mesmo para os investidores mais conservadores, existem outras opções de investimento, que possibilitam rentabilidades maiores.” 

O estoque atualizado da poupança até o dia 25 do mês passado era de R$ 1,012 trilhão, de acordo com dados do BC. Em outubro, esse valor era um pouco maior, de R$ 1,027 trilhão, conforme a instituição. 

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Banco Central avalia rever o cálculo do rendimento da poupança

Ideia inicial da autoridade monetária é que aplicação tenha um rendimento mais próximo das taxas usadas em financiamentos imobiliários; alta da Selic pode apressar movimento

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2021 | 05h00

BRASÍLIA - O Banco Central estuda mudar a regra de correção da caderneta de poupança, a principal fonte para os financiamentos à casa própria e ainda hoje o investimento mais popular dos brasileiros.

A medida não é para agora, exigirá um prazo para consulta pública e uma transição longa e feita em etapas. Mas a fala do presidente do BC, Roberto Campos Neto, revelando os estudos em andamento, durante evento do setor imobiliário, acabou colocando o tema da remuneração da poupança em debate na véspera da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), quando a taxa Selic, hoje em 7,75%, poderá ultrapassar 8,5%.

Pela regra em vigor, se os juros passarem desse patamar, a caderneta passaria a render 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial (hoje, zerada). Com a Selic abaixo de 8,5%, o rendimento da poupança é de 70% da taxa Selic mais a TR. Esse modelo existe desde 2012 e foi adotado na época para permitir a redução dos juros naquele momento.

O BC quer que a poupança tenha uma correção mais próxima daquela que é usada para fazer o financiamento de projetos imobiliários. Hoje, há um descasamento de prazos e de indexadores. A caderneta, que tem uma liquidez de curto prazo (ou seja, o poupador pode a qualquer momento fazer o saque do dinheiro), é também fonte do crédito imobiliário, em geral de longo prazo, entre 20 anos e 30 anos.

Esse descasamento exige um colchão de liquidez alto (uma reserva) para fazer frente aos saques. O ponto em análise pelo BC é que se a poupança tivesse um indexador mais próximo daquele que é usado para o financiamento, esse colchão tão elevado não seria necessário, liberando mais recursos para o sistema.

O BC tem há mais de um ano um grupo de estudo dedicado a fazer uma nova fórmula da poupança que funcione melhor como captador de recursos e como repassador. Embora a mudança exija cautela e muito cuidado na implementação, poderá ser anunciada ainda em 2022, durante o governo Bolsonaro. O assunto vem sendo discutido com os  bancos.

“Com a Selic em 2%, estávamos preocupados com a migração alta para a poupança. Com a taxa de juros subindo, temos preocupação com a saída de recursos da poupança”, enfatizou Campos Neto no evento, quando foi provocado por um participante que questionou os depósitos compulsórios altos da poupança e propôs a criação de uma caderneta indexada ao IPCA.

Segundo o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), José Carlos Martins, essa mudança é uma demanda antiga do setor. “Faz anos que está em todas as propostas que da Cbic ter indexador de índice de preços e não a TR, que é manipulada pelo governo”, diz.

Para Rodrigo Sgavioli, head de Alocação e Fundos da XP, a dinâmica de relacionamento da poupança com o  investidor brasileiro vem mudando e cada vez mais a aplicação vem sendo usada como um “pit stop” (parada)  dos recursos para serem gastos por pouco tempo ou uma reserva de emergência. Um instrumento fácil de acessar e de resgatar, o qual o poupador opta mesmo que perca em rentabilidade.

“Ouso dizer que no ano passado a poupança foi alvo de uma captação absurda sendo que deveria ser o contrário. Minha percepção é que a poupança foi vista como um lugar seguro quando todo mundo ficou com medo da pandemia num momento de aversão a risco”, avalia.

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