Renuka quer crescer no Brasil via aquisições

Grupo indiano, dono da Equipav, já virou um dos dez maiores do setor sucroalcooleiro

Eduardo Magossi, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2010 | 00h00

A gigante indiana do açúcar Shree Renuka Sugars pretende repetir no Brasil o modelo de expansão adotado na Índia. "De nossas sete usinas na Índia, apenas uma foi construída desde o início", disse Narendra Murkumbi, presidente da empresa, em entrevista à Agência Estado, ressaltando o fato de a Shree Renuka tradicionalmente buscar a expansão por meio de aquisições.

"Nós vamos crescer no Brasil a uma taxa sustentável", disse o executivo. No Brasil, em pouco mais de seis meses e em apenas duas operações, a multinacional indiana já consolidou sua posição entre os dez principais grupos do setor sucroalcooleiro nacional, com uma capacidade instalada de processamento de 13,6 milhões de toneladas de cana-de-açúcar.

Neste período, a Shree Renuka comprou 100% das duas usinas do grupo paranaense Vale do Ivaí, avaliadas em US$ 240 milhões. "Desse total, nós pagamos US$ 82 milhões e o restante era dívida que foi renegociada para ser paga em oito anos", explica o presidente da Shree Renuka Sugars. As duas usinas do Vale do Ivaí têm capacidade de moagem de 3,1 milhões de toneladas de cana.

No fim de junho, a Shree adquiriu 50,34% das ações do Grupo Equipav, pagando US$ 250 milhões, depois de negociações conturbadas que se arrastaram por quase um semestre. A dívida da empresa, avaliada em torno de R$ 1 bilhão, será paga em 10 anos, com um período de carência de três anos. Atualmente, as duas usinas da Equipav têm moagem de 10,5 milhões de toneladas de cana.

Investimentos. De acordo com Murkumbi, investimentos de R$ 218 milhões serão realizados na Equipav para elevar sua capacidade de processamento para 12 milhões de toneladas e aumentar a geração de energia por queima de bagaço de cana em 96 MW, para 295 MW. Os investimentos feitos pela Shree na Equipav também serão utilizados para financiar as despesas da empresa, pagar dívidas e elevar a força de trabalho.

Engenheiro eletrônico de formação, Murkumbi foi um dos fundadores da Shree Renuka, em 1998, e a transformou na maior produtora de açúcar e etanol da Índia, onde possui oito usinas e três destilarias.

Com as quatro usinas brasileiras somadas, o processamento global da Renuka atingirá 22 milhões de toneladas de cana no ano que vem, com produção total de 2 milhões de toneladas de açúcar e 400 milhões de litros de etanol. A Shree Renuka também possui uma grande estrutura para refino de açúcar que já serve todo o Sudeste Asiático e o Oriente Médio.

O executivo se diz otimista em relação aos investimentos da Renuka no Brasil. "Nosso foco principal neste momento é o açúcar, mas estamos bastante animados com as perspectivas de longo prazo do etanol na Ásia", afirmou. Para Murkumbi, o etanol brasileiro pode complementar a produção doméstica de etanol da Índia.

Atualmente, a mistura obrigatória de etanol na gasolina é de apenas 5%, em função da pouca disponibilidade interna do produto. "Mas a política indiana para energia renovável permite o aumento da mistura para 10%, dependendo da disponibilidade de etanol. A meta é atingir 20% em 2017, o que pode representar um mercado cativo de 3 bilhões de litros de etanol por ano para produtores brasileiros."

Murkumbi afirmou também que a Renuka está preparada para entrar em um mercado como o brasileiro, onde a necessidade de capital é intensiva. "A capitalização de mercado da Renuka é de US$ 1 bilhão e a nossa dívida em relação ao capital é muito pequena, o que nos torna bastante competitivos no mercado brasileiro", disse. O executivo afirmou também que, depois de realizar várias pesquisas e trabalhos no leste e no sul da África nos últimos cinco anos, a Renuka decidiu focar seus investimentos no refino de açúcar e cogeração de energia na Índia e no plantio de cana e produção de açúcar e etanol no Brasil. Segundo ele, a Renuka também trabalha com reestruturação de usinas deficitárias e que, por problemas legais, não podem ser compradas diretamente.

Operação separada. Dentro do organograma da Shree Renuka, os grupos Vale do Ivaí e Equipav serão subsidiárias da companhia indiana. Segundo o executivo, as duas empresas vão operar separadamente no Brasil. "Elas possuem ambientes operacionais diferenciados, estão em lugares distintos e a forma de participação da Renuka também é diferente", disse.

Murkumbi disse também que os investimentos da Renuka no Brasil foram feitos com capital próprio. "Levantamos capital com nosso investidores institucionais, e os proprietários também fizeram um novo aporte de capital", disse. O executivo ressalta que os investimentos da Renuka foram os maiores feitos por uma companhia indiana no Brasil até hoje.

PARA LEMBRAR

Acordo com Equipav teve de ser renegociado

A Shree Renuka Sugars anunciou no final de fevereiro a compra de 50,8% da Equipav Açúcar e Álcool, dona de duas usinas de cana, nas cidades de Promissão e Brejo Alegre, no Estado de São Paulo. O negócio previa uma injeção de recursos de cerca de R$ 600 milhões , com os indianos assumindo uma participação proporcional na dívida da empresa, de mais de R$ 1 bilhão.

O negócio, porém, esteve ameaçado de não sair. Antes da assinatura final do acordo, mudanças no mercado mundial de açúcar acabaram levando a uma renegociação do contrato. A Shree Renuka alegava que, em fevereiro, o açúcar estava cotado a 30 cents por libra, enquanto em maio o preço havia caído para 15 cents por libra.

No início de junho, um novo acordo estava pronto para ser assinado. Mas, no último momento, um dos três sócios da Equipav - as famílias Toledo, Vetorazzo e Tarallo - decidiu não assinar. Irritado, o presidente da Shree Renuka, Narendra Murkumbi, que estava no Brasil para finalizar o acordo, voltou para a Índia. No final de junho, um novo acordo foi finalmente acertado. No lugar dos R$ 600 milhões inicialmente anunciados, a Shree Renuka pagou R$ 450 milhões por uma fatia de 50,34% da Equipav.

Foco

NARENDRA MURKUMBI PRESIDENTE DA SHREE RENUKA

"Estamos bastante animados com as perspectivas de longo prazo do etanol na Ásia"

"Nossa dívida em relação ao capital é muito pequena, o que nos torna bastante competitivos no mercado brasileiro"

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