Dida Sampaio/Estadão
João Sanzovo Neto, presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), durante coletiva em Brasília após reunião com Bolsonaro. Dida Sampaio/Estadão

Representante dos supermercados diz para brasileiro trocar arroz por macarrão

Depois de encontro com Bolsonaro, presidente da Abras disse que os mercados não são 'os vilões' da inflação da cesta básica e comentou sobre ação para estimular o consumidor a substituir o arroz

Dida Sampaio e Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2020 | 16h57

BRASÍLIA - O presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), João Sanzovo Neto, afirmou nesta quarta-feira, 9, que deve ocorrer uma campanha para o brasileiro substituir o arroz pelo macarrão. Segundo ele, não há prazo para que o preço do produto seja reduzido para os consumidores.

"Vamos estar promovendo o consumo de massa, macarrão, que é o substituto do arroz. E vamos orientar o consumidor que não estoque (arroz)", disse, depois de se reunir com o presidente Jair Bolsonaro, em Brasília, para falar sobre a questão do aumento dos preços dos produtos da cesta básica nas gôndolas.

O preço dos alimentos foi destaque para a alta de 0,24% inflação oficial do país em agosto, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira, 9. Dois alimentos chamaram a atenção: o arroz, com valorização de 19,2% no ano, e o óleo de soja, que subiu 18,6% no período.

Em 2014, no governo da ex-presidente Dilma Rousseff, quando a carne era a vilã da inflação, o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland, sugeriu substituí-la por outros alimentos mais baratos, como ovos e aves.

Questionado sobre a fala de Bolsonaro nos últimos dias, que chegou a pedir "patriotismo" aos donos de supermercado e que trabalhem com lucro "próximo de zero", Sanzovo Neto disse que explicou ao presidente que o setor "já está fazendo isso". "Sempre fizemos isso nos produtos essenciais", declarou a jornalistas.

O presidente da Abras foi informado de que a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), ligada ao Ministério da Justiça, notificou empresas e associações cooperativas ligadas à produção, distribuição e venda de alimentos da cesta básica para questionar a alta nos preços dos produtos. Ele indicou ter sido pego de surpresa pela informação. Todos terão cinco dias para responder aos questionamentos.

Após a reunião, Sanzovo Neto disse em entrevista que os mercados não são "os vilões" da inflação da cesta básica, e que o problema está ligado ao excesso de demanda, principalmente no exterior, e à falta de oferta. Na prática, isso significa que falta produto e, por isso, o preço aumenta. 

"É a lei de mercado, é oferta e procura. Se você tem menos produtos sendo ofertados, e no caso foi exportado, muitos dos nossos produtos estão sendo exportados, o produtor prefere exportar porque o câmbio está alto e tem uma receita maior do seu produto...", justificou.

Ontem, ao Estadão, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse o governo não fará nenhum tipo de intervenção nos preços dos principais alimentos da cesta básica brasileira. “Estamos vivendo uma situação de transição, é uma questão pontual e que vai passar. O governo não vai fazer nenhuma intervenção em preços de mercado, o que estamos fazendo é monitoramento constante”, disse.

Nesta quarta-feira, 9, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) deve zerar a tarifa de importação do arroz, segundo apurou o Estadão/Broadcast. A redução poderá valer a partir de amanhã, se for publicada em edição extra do Diário Oficial ainda hoje, ou a partir de sexta-feira, se a publicação for feita amanhã.

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Por que o arroz está mais caro?

Aumento da demanda tanto por parte do mercado nacional, com o auxílio emergencial, como do internacional, devido à desvalorização do real, têm papel na variação do preço

Érika Motoda, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2020 | 20h30
Atualizado 10 de setembro de 2020 | 08h20

A disparada do preço do arroz pode ser explicada pelo aumento da demanda, tanto por parte do mercado nacional como do internacional, ambos influenciados pela pandemia do coronavírus. Nas últimas semanas, um pacote de cinco quilos de arroz, que normalmente custa R$ 15, pôde ser encontrado em alguns lugares a R$ 40. Com isso, alguns supermercados já restringem a quantidade que cada cliente pode comprar

Por parte do mercado nacional, especialistas explicam que houve um aumento na demanda, enquanto a oferta já estava “dada”, ou seja, a quantidade de arroz oferecida no mercado era praticamente fixa, pois o plantio já havia sido feito, mas o interesse da população pelo item cresceu nos últimos meses. 

“Ao longo dos últimos anos, tínhamos uma queda no consumo de arroz. Quanto maior a renda da população, menor o consumo de arroz, porque você vai migrando o consumo, consumindo mais proteína, por exemplo. Logo, se você consome menos um produto, excedente aumenta e o preço cai. Então, os produtores de arroz foram buscar outras fontes de renda”, explicou Lucilio Alves, pesquisador responsável pela área de arroz do Cepea/ USP. 

“Só que em 2020, começa a haver a restrição de locomoção, e as pessoas vão buscar alimentos de fácil preparo em casa e a preços competitivos. Tivemos um choque de demanda, e os estoques caíram. O estoque de passagem estava previsto para ser baixo até fevereiro de 2021. Além disso, tivemos neste ano o auxílio emergencial dado às pessoas.”

Já por parte do mercado internacional, o interesse pelos produtos brasileiros se dá pela competitividade dos preços em função da desvalorização de quase 40% do real nos últimos 12 meses, em comparação com o dólar. “Com a aversão ao risco causada pela pandemia, o dólar subiu, enquanto o real caiu. Logo, qualquer produto produzido em real ficou mais barato para se comprar no exterior”, disse Felipe Serigatti, coordenador do mestrado profissional em Agronegócios da FGV, explicando como a elevação da taxa de câmbio favorece a exportação.

Tire suas principais dúvidas sobre a alta dos alimentos:  

De quanto foi o aumento dos alimentos? 

O gasto com o grupo alimentação e bebidas voltou a pesar no orçamento doméstico em agosto, com uma elevação de 0,78%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os alimentos para consumo no domicílio, aqueles comprados nos supermercados, tiveram um avanço de 1,15% no mês.

No mês de agosto, houve pressão dos preços do tomate (12,98%), leite longa vida (4,84%), frutas (3,37%), carnes (3,33%), óleo de soja (9,48%) e arroz (3,08%). O arroz acumula uma alta de 19,25% no ano de 2020. Por outro lado, ficaram mais baratos a cebola (-17,18%), alho (-14,16%), batata-inglesa (-12,40%) e feijão-carioca (-5,85%).

Até quando o preço do arroz vai continuar alto? 

Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), vinculada ao Ministério da Agricultura, a produção de arroz estimada para a próxima safra (2020/21) é de 12 milhões toneladas, o que representa um aumento de 7,2% em relação à safra anterior. Com o aumento da oferta de arroz, que começa a ser comercializada em março de 2021, a expectativa é de queda de preços no próximo ano.

Mas o governo não zerou o imposto para o arroz?

De fato, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) zerou a tarifa de importação do arroz. O governo estabeleceu uma cota de 400 mil toneladas de arroz até o fim do ano que podem entrar no País sem a taxa. O montante vale para o arroz com casca e o beneficiado. De acordo com fontes do Ministério da Agricultura, o total é considerado suficiente para ajudar a conter a subida no preço do arroz e garantir que não faltará produto nas prateleiras.

Alves, da USP, no entanto, diz que para o consumidor, os efeitos no bolso não vão se alterar no curtíssimo prazo. “Se o mercado encontrasse alguma alternativa mais atrativa, ele já teria ido atrás. É difícil haver algum arroz que chegue a um preço menor que temos aqui hoje.”

Com o dólar alto, o arroz importado não vai ser mais caro ainda?

É possível que os preços cheguem altos às prateleiras. “Os preços dos alimentos subiram em todo o mundo. No caso do arroz, países produtores tiveram problemas de safra e, por conta da pandemia, muitos países resolveram não exportar por segurança”, avaliou o coordenador do núcleo econômico da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Renato Conchon.

Devo estocar arroz? 

Não. “Esse alarde pode fazer com que as pessoas corram ainda mais para o mercado, e por isso os preços podem aumentar ainda mais”, disse Alves. 

De quem é a culpa? 

A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), ligada ao Ministério da Justiça, notificou empresas e associações cooperativas ligadas à produção, distribuição e venda de alimentos da cesta básica para questionar a alta nos preços dos produtos. Ele indicou ter sido pego de surpresa pela informação. Todos terão cinco dias para responder aos questionamentos.

Há pelo menos 20 dias, fornecedores e supermercados travam uma queda de braço para ver quem fica com a menor margem de lucro

A inflação vai aumentar por causa dos alimentos? 

O secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, diz que não. “A inflação é uma alta generalizada e recorrente. O aumento que estamos vendo agora não é generalizado, mas localizado em alguns produtos da cesta básica. Vai durar alguns meses e depois retorna à normalidade.”

Alguns economistas, entretanto, já revisaram para cima as projeções de inflação do ano. A XP Investimentos aumentou sua projeção para a inflação de 2020 de 1,4% para 1,7%; o economista Fabio Silveira, sócio da MacroSector, que antes projetava inflação do ano em 2,7%, está revendo para 3,3% e o economista André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Getúlio Vargas, prevê uma inflação de 2,3%, e não mais abaixo de 2%. 

Quem está comprando os alimentos brasileiros?

A China decidiu fazer estoques estratégicos de alimentos, depois de sentir o risco de faltar comida por causa da paralisação provocada pela pandemia. De janeiro a julho, as compras da China injetaram US$ 24 bilhões no agronegócio, segundo a Confederação  da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). É uma cifra recorde para o período e quase 30% maior do que a registrada nos mesmos meses de 2019. 

As compras de carnes bovina, suína, aves e especialmente da soja, que respondeu por 72% das aquisições no período, pressionou as cotações em reais desses produtos e já apareceu nos índices de inflação ao consumidor.

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Ministério da Justiça notifica supermercados e produtores de alimentos por alta nos preços

Segundo o documento distribuído, estabelecimentos terão cinco dias para responder a questionamentos da Secretaria Nacional do Consumidor

Julia Lindner , O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2020 | 15h48
Atualizado 10 de setembro de 2020 | 01h17

 BRASÍLIA - Após o presidente Jair Bolsonaro pedir lucro "próximo de zero" aos donos de supermercados, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), ligada ao Ministério da Justiça, notificou nesta quarta-feira, 9, empresas e associações cooperativas ligadas à produção, distribuição e venda de alimentos da cesta básica para questionar a alta nos preços dos produtos.

A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) e as associações de produtores terão cinco dias para explicar a alta nos preços praticados, por exemplo, na venda do arroz. A partir das explicações, a Senacon vai apurar se houve abuso de preço ou infração aos direitos dos consumidores. Uma eventual multa pode ultrapassar os R$ 10 milhões.

No texto, a Senacon justifica que, "diante do sensível aumento de preços de itens da cesta básica, em especial do arroz, a Secretaria Nacional do Consumidor decidiu notificar o setor produtivo e comercial para esclarecer as causas do aumento nos alimentos que compõem a cesta básica brasileira". 

"O aumento de valores foi notado especialmente em relação ao arroz que, apesar dos positivos volumes produtivos da última safra brasileira, informados pela Conab, teve significativo incremento de preços na prateleira", diz outro trecho da notificação.

Na terça-feira, 8, ao falar sobre  o preço do arroz, que disparou nas últimas semanas, com pacote de 5 quilos chegando a custar R$ 40 (normalmente, é vendido a cerca de R$ 15), Bolsonaro disse que o governo prepara medidas para encarar a inflação dos alimentos e "dar uma resposta a esses preços que dispararam nos supermercados”.   

De acordo com a secretaria ligada ao Ministério da Justiça, o intuito da notificação feita hoje é "coibir aumentos arbitrários". A notificação destaca trecho do Código de Defesa do Consumidor em que é considerada uma prática abusiva "elevar sem justa causa o preço de produtos ou serviços".

No prazo de cinco dias, os estabelecimentos deverão informar quais os produtos da cesta básica possuem maior variação de preço no último mês, quais são os três principais fornecedores do produto, qual o preço médio praticado pelos fornecedores nos últimos seis meses, entre outras questões.

A secretária nacional do consumidor, Juliana Domingues, afirmou, em nota, que é preciso avaliar toda a cadeia produtiva antes de verificar se há um eventual aumento abusivo de preços. “Não podemos falar em preços abusivos sem antes avaliar toda cadeia de produção e as oscilações decorrentes da pandemia. Por essa razão, o Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor expediu ofícios para o levantamento de dados que são necessários para aferir qualquer abusividade”, disse.

Segundo a nota encaminhada pela Senacon, a secretaria convidou os ministérios da Agricultura e da Economia para "debater medidas para mitigar o aumento exponencial nos preços de alimentos que compõem a base alimentar dos brasileiros". "A Secretaria também solicitou ao Ministério da Economia a avaliação de alternativas que possam permitir maior competitividade entre os produtores e comerciantes, bem como maior oferta aos consumidores, privilegiando a livre iniciativa e incentivando a concorrência."

Na tarde desta quarta-feira, o presidente Jair Bolsonaro recebeu o presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), João Sanzovo Neto, para tratar da alta dos preços, mas não mencionou a notificação do Ministério da Justiça. Sanzovo Neto soube da medida através da imprensa, na saída do encontro. "Não, eu ainda não recebi", reagiu o presidente da Abras.

"Nós vamos mostrar a realidade, temos todos os relatórios, inclusive as associações dos próprios produtores também têm, informando o que oscilou em cada produto. Temos muita confiança", afirmou, após tomar conhecimento da notificação. "Vamos explicar o porquê e esperamos que outros, desde lá da roça até o supermercado também expliquem, porque estamos no final (da cadeia)."

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Algumas lojas limitam pontualmente itens mais impactados pela alta de preços, diz Carrefour

Em nota, grupo disse que medida tem sido adotada para atender a um maior número de clientes; limitação na venda vem em meio ao aumento desenfreado nos preços dos produtos da cesta básica

Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2020 | 18h01

O Grupo Carrefour Brasil afirmou em nota ao Estadão/Broadcast que algumas de suas lojas passaram a limitar a compra de produtos básicos. "Para atender ao maior número de clientes, pontualmente algumas lojas estão informando a limitação quantitativa dos itens mais impactados (pela alta de preços)", disse.

"Diante do atual cenário, o Grupo Carrefour Brasil está mobilizado em todos os seus formatos para que itens essenciais da cesta básica estejam disponíveis para os brasileiros a preços justos", diz a empresa na nota. Conforme noticiado pelo Estadão/Broadcast na última sexta-feira, a queda de braço entre supermercados e fornecedores já dura mais de 20 dias. A postergação de compras em busca de preços menores é um dos fatores que podem levar a uma oferta menor de produtos básicos nas prateleiras. Mas esse não é o único motivo.

A diretoria da Associação Brasileira de Supermercados esteve em reunião com a equipe econômica do governo na tarde de hoje, quando foi notificada pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), ligada ao Ministério da Justiça. A notificação foi direcionada a empresas e associações cooperativas ligadas a produção, distribuição e venda de alimentos da cesta básica para questionar a alta nos preços dos produtos.

Na última semana, porém, a Abras já havia divulgado comunicado em que alertava para a alta de preços em razão do aumento das exportações, incentivos fiscais para os exportadores, alta do dólar e aumento da demanda interna. Na ocasião, a associação já falava em risco de desabastecimento.

"O Grupo Carrefour Brasil também segue posicionado em oferecer produtos a preços acessíveis em seus formatos, varejo e atacado, trabalhando para reduzir os aumentos recebidos por parte dos fornecedores. A empresa ressalta a importância da atuação conjunta de todos os setores, que inclui o setor agrícola, indústria, varejo e representantes do governo em prol das melhores soluções em benefícios dos brasileiros", conclui o Grupo Carrefour Brasil em nota.

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Camex zera imposto de importação de arroz

Governo estabeleceu uma cota de 400 mil toneladas de arroz até o fim do ano que podem entrar no País sem a taxa; o montante vale para o arroz com casca e o beneficiado.

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2020 | 12h01
Atualizado 09 de setembro de 2020 | 20h11

BRASÍLIA - A Câmara de Comércio Exterior (Camex) resolveu nesta quarta-feira, 9, zerar a tarifa de importação do arroz, como antecipou o Estadão/Broadcast. O governo estabeleceu uma cota de 400 mil toneladas de arroz até o fim do ano que podem entrar no País sem a taxa. O montante vale para o arroz com casca e o beneficiado.

A redução poderá valer a partir de quinta-feira, 10, se for publicada em edição extra do Diário Oficial ainda desta quarta, ou a partir de sexta-feira, se a publicação for feita amanhã. Para a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), a medida é "paliativa" e o arroz importado deve chegar com preço alto por causa da desvalorização do real (veja mais abaixo).

De acordo com fontes do Ministério da Agricultura, o total é considerado suficiente para ajudar a conter a subida no preço do arroz e garantir que não faltará produto nas prateleiras.

Neste ano, até agosto, o Brasil importou 45.087 toneladas de arroz com casca e 372.890 toneladas de arroz beneficiado (sem casca, parbolizado e polido).

O produto tem pouca importação no Brasil - a ideia é justamente tirar a taxa para que aumente a compra enquanto os preços internos estão altos.

O Estadão/Broadcast mostrou que, no fim de agosto, preocupado com o aumento dos preços no mercado interno, o governo brasileiro avaliava retirar temporariamente as tarifas de importação para o arroz, milho e soja.

Na reunião da Camex desta quarta, de acordo com fontes, será analisada a desoneração apenas para o arroz, cujo preço disparou nas últimas semanas, com o pacote de cinco quilos chegando a custar R$ 40 em alguns sites (normalmente, é vendido por cerca de R$ 15).

Na terça-feira, 8, o presidente Jair Bolsonaro se reuniu com ministros e a alta dos preços agrícolas foi o principal assunto da pauta. A alíquota de importação para países fora do Mercosul é de 12% para o arroz.

Arroz importado também deve ter preço alto por causa do dólar

A importação de arroz é uma medida paliativa e não resolverá a alta no preço do produto, disse ao Estadão/Broadcast o coordenador do núcleo econômico da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Renato Conchon. Segundo o economista, com o real desvalorizado, mesmo sem imposto de importação a tendência é que o produto chegue às prateleiras a preços altos, a depender do tipo maior do que o cobrado pelo arroz brasileiro. 

“Reduzir a tarifa vai propiciar mais importação, mas importar está mais caro. Pode ser uma medida paliativa, mas que vai ser impactada pelo cambio. O Brasil até encontra arroz no mercado mundial, mas a preços maiores, em dólar”, afirmou.

“Os preços dos alimentos subiram em todo o mundo. No caso do arroz, países produtores tiveram problemas de safra e, por conta da pandemia, muitos países resolveram não exportar por segurança”, avalia Conchon. 

Para o coordenador, a redução do preço do produto brasileiro passa por diminuição nos custos de produção e fomento à produção interna, o que pode ter reflexo no médio prazo. 

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Mourão relaciona alta nos preços de alimentos ao pagamento de auxílio emergencial

Segundo o vice-presidente, com a injeção de recursos na economia pelo governo durante a pandemia, as pessoas estão 'se alimentando melhor e melhorando as suas casas' 

Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2020 | 14h02

BRASÍLIA - O vice-presidente da República, Hamilton Mourão, relacionou, nesta quarta-feira, 9, a alta no preço de alimentos à injeção de recursos na economia pelo governo durante a pandemia, como o auxílio emergencial. Segundo ele, as pessoas estão "se alimentando melhor e melhorando as suas casas".

"É a questão da lei de oferta e procura. Uma porção de gente comprando porque o dinheiro que o governo injetou na economia foi muito acima daquilo que as pessoas estavam acostumadas. Tanto que está tendo grande compra de alimentos e material de construção. Então, as pessoas estão se alimentando melhor e estão melhorando as suas casas. Essas são as duas áreas onde está havendo bastante gasto", disse Mourão a jornalistas, na entrada da vice-Presidência.

Segundo ele, o aumento das exportações brasileiras e questões sazonais também influenciam na alta dos preços. "Estamos vendendo bastante para o mercado externo", disse, citando o caso do arroz. Mourão disse que a área plantada com o grão diminuiu porque os arrozeiros tiveram prejuízo e "o cara muda de ramo. Aí, agora, eles estão replantando. É um momento sazonal, daqui a pouco volta tudo ao normal", declarou.

Na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro demonstrou receio do risco de inflação e pediu "patriotismo" aos donos de supermercados para tentar baixar os preços de produtos que compõem a cesta básica.

Na terça-feira, 8, em entrevista exclusiva ao Broadcast/Estadão, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse que o governo não fará nenhum tipo de intervenção nos preços dos principais alimentos da cesta básica brasileira, que têm apresentado forte inflação nas últimas semanas, como arroz, feijão, leite, carne e óleo de soja. Há registros de aumento de mais de 100% nas gôndolas de supermercados. 

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Alta de preço de alimentos vai durar alguns meses, mas volta à normalidade, diz secretário de Guedes

Segundo Adolfo Sachsida, aumento é transitório e não traz risco para o controle da inflação

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2020 | 11h52
Atualizado 09 de setembro de 2020 | 16h51

BRASÍLIA - O secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, avaliou que a alta de preços de alimentos, como o arroz, é "transitória e localizada" e não traz risco para o controle da inflação

“A inflação é uma alta generalizada e recorrente. O aumento que estamos vendo agora não é generalizado, mas localizado em alguns produtos da cesta básica. Vai durar alguns meses e depois retorna à normalidade”, diz Sachsida, que comanda a secretaria responsável pelo acompanhamento dos preços e dados de alta frequência da economia.

Segundo ele, o presidente Jair Bolsonaro acertou quando disse que não vai resolver o problema na caneta. ”Vamos lembrar a frase completa dele. Ele falou que não dá para resolver o problema numa canetada”, ressaltou. Na semana passada, ao pedir "patriotismo" aos comerciantes, Bolsonaro disse que não baixaria os preços com uma intervenção governamental.

Na terça-feira, 8, ao falar sobre  o preço do arroz, que disparou nas últimas semanas, com pacote de cinco quilos chegando a custar R$ 40 (normalmente, é vendido a cerca de R$ 15), Bolsonaro disse que o governo prepara medidas para encarar a inflação dos alimentos e "dar uma resposta a esses preços que dispararam nos supermercados”.  

Nesta quarta-feira, 9, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que o IPCA, o índice oficial de preços, teve alta de 0,24% em agosto, sobre pressão, principalmente da gasolina e dos alimentos.

Como a secretaria vê a alta de preços dos produtos da cesta básica?

É problema localizado transitório na questão dos alimentos. Isso aconteceu, sobretudo porque o governo, no esforço para combater a crise do coronavírus,  transferiu parcela importante de recursos de auxílio emergencial aos informais. Era natural que as pessoas iriam gastar parte desse dinheiro com alimentos. O que é muito bom. A demanda por alimentos aumentou e é que estamos vendo hoje.  A demanda internacional  aumentou também.  Mas essa é questão de conjuntura. Não me parece ser estrutural.

Há o risco de repique da inflação?

Vai aumentar um pouquinho, porque o preço dos alimentos aumentou. Mas quando se olham os índices de inflação, em termos agregados, continuam totalmente sob controle. A inflação continua muito baixa. As pessoas que vão ao supermercado sentem que aumentou, mas é uma alta transitória na questão de alimentos. Nós temos que estar cientes dos efeitos das nossas intervenções de política econômica. O governo, junto com o Congresso, criou o auxílio emergencial aos informais. É  um programa que transfere mais de R$ 50 bilhões por mês para a população que está numa situação de dificuldade. Vamos dar o exemplo do Bolsa Família. As famílias do programa recebiam em média R$ 190 e passaram a receber quase R$ 900 com o auxílio aos informais (levando-se em conta que uma mesma família tenha mais de uma pessoa recebendo o auxílio de R$ 600 ou ainda a situação das chefes de famílias que receberam R$ 1,2 mil por mês). É natural que essas pessoas vão demandar mais alimentos, vão comer mais. Isso mostra o acerto da política, porque a pessoa está gastando mais com comida. É natural que o preço dos alimentos tenha um aumento. Era esperado.

Vai demorar quanto tempo para normalizar os preços?

São várias questões. Tem o  mercado internacional que está pressionando os preços dos alimentos para cima. Tem os programas governamentais de ajuda à população carente, porque é um momento que demanda intervenção do governo. Isso vai normalizado. Talvez demore um pouquinho, mas nada que comprometa a estabilidade de preços. Repito: é um choque localizado.

Qual a diferença?

A inflação é uma alta generalizada e recorrente. O aumento que estamos vendo agora não é generalizado, mas localizado em alguns produtos da cesta básica. Vai durar alguns meses e depois retorna à normalidade. O Banco Central tem feito um trabalho excepcional  no combate da inflação. Estamos muito seguros  disso.

O governo não está vendo risco maior de uma disseminação do aumento de preços?

Nenhum. O presidente Jair Bolsonaro pediu patriotismos do setor de supermercados para não aumentar os preços. Essa postura fez muitos lembrarem os fiscais de preços do ex-presidente José Sarney. Pelo contrário, o presidente Bolsonaro acertou. Vamos lembrar a frase completa dele. Ele falou que não dá para resolver o problema numa canetada. Ou seja, o presidente mostrou claramente que não pretende interferir no processo de preços.  Ele acertou.  O que está correto porque nesse momento é localizado. O que ele pediu é que cada um contribua como puder para ajudar nesse momento de crise na economia mundial e brasileiro. Todos nós estamos contribuindo. O presidente pediu que cada um ajude e dê a sua contribuição. 

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Inflação vai a 0,24% em agosto, puxada por combustíveis e alimentos

IPCA desacelerou em relação a julho, quando subiu 0,36%, mas resultado é o maior para o mês de agosto desde 2016

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2020 | 09h15
Atualizado 09 de setembro de 2020 | 16h55

RIO - As famílias brasileiras voltaram a gastar mais com alimentação no mês de agosto. Os alimentos e os combustíveis foram os itens que mais pressionaram a inflação oficial no País, que fechou o mês em 0,24%, segundo os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) divulgados nesta quarta-feira, 9, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O índice desacelerou em relação a julho, quando subiu 0,36%, mas o resutlado é o maior para o mês de agosto desde 2016. No ano, o indicador acumula alta de 0,70% e, em 12 meses, de 2,44%.

Após um repique no início da pandemia, provocado por uma corrida da população aos supermercados com receio de desabastecimento, o gasto com o grupo alimentação e bebidas voltou a pesar no orçamento doméstico em agosto, com uma elevação de 0,78%. Os alimentos para consumo no domicílio, aqueles comprados nos supermercados, tiveram um avanço de 1,15% no mês.

Os aumentos de preços são impulsionados agora por uma elevação nas exportações brasileiras e pela alta do dólar ante o real, mas também por uma pressão da demanda doméstica, aquecida pelo pagamento do auxílio emergencial, apontou Pedro Kislanov, gerente do Sistema Nacional de Índices de Preços do IBGE. A alimentação para consumo no domicílio acumula um aumento de 11,39% nos 12 meses encerrados em agosto, maior resultado desde novembro de 2016.

“Alguns alimentos estão em alta, outros estão em queda, como alho, cebola, batata. O consumidor acaba percebendo muito mais as altas que as quedas. E sua percepção de inflação depende muito da sua cesta de consumo individual. Se você é vegetariano vai sentir menos preço das carnes”, disse Kislanov.

Embora o Brasil esteja colhendo uma safra recorde de grãos em 2020, Kislanov lembra que o dólar mais valorizado estimula as exportações e reduz a oferta de produtos no mercado doméstico.

“Essa alta nos alimentícios tem a ver com vários fatores, um deles é demanda externa, principalmente chinesa. Outro é câmbio, porque com dólar alto é interessante para o produtor exportar. E o auxílio emergencial ajudou a sustentar preços de alimentos, especialmente arroz e feijão, produtos mais básicos. Aumenta demanda também por laticínios”, justificou Kislanov. “O auxílio emergencial foi importante para sustentar a demanda por alguns produtos da cesta mais básica, e pode continuar sustentando nos próximos meses.”

No mês de agosto, houve pressão dos preços do tomate (12,98%), leite longa vida (4,84%), frutas (3,37%), carnes (3,33%), óleo de soja (9,48%) e arroz (3,08%). O arroz acumula uma alta de 19,25% no ano de 2020. Por outro lado, ficaram mais baratos a cebola (-17,18%), alho (-14,16%), batata-inglesa (-12,40%) e feijão-carioca (-5,85%).

A pressão nos itens alimentícios fez a XP Investimentos aumentar sua projeção para a inflação de 2020, que passou de 1,4% para 1,7%. "A alta de preços em alimentos, que já víamos no atacado, chegou ao consumidor final, e isto também está relacionado com a demanda agregada, já que a população está com dinheiro dos auxílios do governo", justificou o economista da corretora, Vitor Vidal.

Por outro lado, num momento em que a população ainda tem saído menos de casa, por conta da pandemia, a alimentação fora do domicílio voltou a recuar em agosto: -0,11%. A refeição fora de casa ficou 0,56% mais barata.

Também aliviaram o orçamento doméstico os recuos nos preços de itens de vestuário e, principalmente, das mensalidades escolares. Os descontos concedidos pelas instituições de ensino em decorrência da pandemia foram captados pelo IBGE apenas na inflação de agosto, mas já ajudaram a deter o IPCA em 0,22 ponto porcentual. Os gastos com educação recuaram 3,47%. Os preços dos cursos regulares diminuíram 4,38%, com descontos em todas as etapas: pré-escola (-7,71%), seguida por cursos de pós-graduação (-5,84%), educação de jovens e adultos (-4,80%) e creches (-4,76%).

O IPCA teria subido de 0,48% não fosse a queda dos cursos regulares, calculou Pedro Kislanov. / COLABOROU GREGORY PRUDENCIANO

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