Representante dos trabalhadores na Petrobrás denuncia ingerência política

Segundo Silvio Sinedino, conselho não discute estratégia da empresa e só referenda acordos feitos entre governo e diretoria da estatal

SABRINA VALLE / RIO, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2012 | 02h08

Primeiro representante dos empregados no Conselho de Administração da Petrobrás, o engenheiro Silvio Sinedino revelou ontem bastidores das discussões na principal instância decisória da empresa. Segundo ele, o conselho, presidido pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, não discute estratégia da empresa com profundidade, referendando acordos previamente fixados entre o governo e a diretoria executiva da companhia.

"O conselho não está decidindo os rumos estratégicos da Petrobrás. Isso é feito em outro lugar", disse, em palestra ontem à noite no Clube de Engenharia. "(Na reunião) a diretoria executiva já costurou tudo com o governo", disse.

Com a entrada de Sinedino, este ano, o conselho ampliou para dez o número de representantes. Ontem, ele fez o balanço de seu primeiro ano de mandato a uma plateia de petroleiros e engenheiros da estatal, marcado pelo tom de denúncia de ingerência política nas decisões e também por cobranças acerca de projetos orçamentários.

Afirmando que a companhia não pode ficar sujeita "à política baixo paroquiana dos aliados do governo", Sinedino citou o projeto das refinarias Premium, previstas para serem construídas no Nordeste. Disse que os projetos ainda não tiveram sua viabilidade financeira provada.

Em sua explanação, o conselheiro comentou que, na época da elaboração, fazia sentido construir as refinarias no Maranhão e no Ceará, já que iriam exportar produtos. Logisticamente, a localização se justificaria ser mais próximas do mercado destino. No entanto, diz, o mercado mudou e o País precisará das refinarias para consumo interno.

De acordo com ele, há estudos mostrando que o Centro-Oeste seria um local mais adequado para a construção. A manutenção dos planos de construí-las no Nordeste, declarou, poderia atender a interesses políticos. "(Uma coisa é usar a Petrobrás para) o desenvolvimento do País, outra é usar para atender à baixa política", disse.

Procurada, a Petrobrás informou que não comentaria as declarações do conselheiro que destacou, entre suas críticas, o aumento do orçamento da Refinaria Abreu e Lima (Rnest/PE). A obra passou de US$ 2,8 bilhões para US$ 20,1 bilhões. Segundo ele, falta clareza para o aumento de custo.

Reajuste. A presidente da Petrobrás, Maria das Graças Foster, pede aumento no preço de combustível em "todas as reuniões" do conselho, segundo enfatizou. As reuniões são mensais e o conselho é formado basicamente por representantes do governo, controlador majoritário da companhia.

O conselheiro disse, no entanto, que o aumento não é discutido na reunião. De acordo com ele, em uma das reuniões Mantega disse explicitamente a Graça que o conselho não é o fórum para decidir aumento. "Aqui entre nós, a senhora sabe que não é nesse fórum que se decide aumento de combustível", disse Mantega a Graça, segundo Sinedino.

O conselheiro afirmou que a companhia está com problemas de caixa, por não ter recebido os aumentos previstos em seu plano de investimentos.

De acordo com ele, no limite, há risco de a companhia vir a perder o grau de investimento, o que elevaria o custo de capital da empresa. Afirmou, também, que o plano de desinvestimento da companhia, de cerca de US$ 15 bilhões, ainda não foi apresentado no órgão.

Sinedino propõe que o plano seja apresentado e está cobrando no conselho explicações sobre a Refinaria de Pasadena (Texas/EUA), que integra a lista de ativos a serem vendidos. O ativo foi comprado pela companhia por preço acima do mercado e, segundo ele, a Petrobrás pode perder até US$ 1 bilhão com a sua venda, conforme revelou o Estado.

Lembrou que a Petrobrás gastou US$ 1,2 bilhão para adquirir a refinaria, mas hoje a planta "vale, no máximo, US$ 200 mil".

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