Representantes da indústria criticam política externa

A política externa do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, especialmente no que tange os acordos comerciais, foi duramente criticada pelos representantes empresariais que participaram nesta quarta-feira do seminário realizado pelo Instituto Teotônio Vilela (ITV), ligado ao PSDB, e pelo Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), na sede da entidade empresarial na capital paulista. "Os acordos comerciais recentes são irrelevantes em termos de ganho de acesso a mercado. O último grande acordo que o Brasil firmou foi o do Mercosul", resumiu Sandra Rios, professora de economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), e consultora da Confederação Nacional da Indústria (CNI)."É lamentável que não aproveitemos a conjuntura mundial favorável para fazermos reformas. Nunca tivemos uma situação tão favorável", acrescentou o diretor do Departamento do Comércio Exterior do Ciesp, Humberto Barbato.Segundo ele, o Brasil deveria ter se valido da boa conjuntura internacional para aprofundar sua agenda comercial, desvinculando-a de questões diplomáticas e ideológicas, sobretudo ao que se referiu à obtenção do assento permanente no Conselho de Segurança da Organização nas Nações Unidas (ONU).Por isso, ele entende que o País cedeu à China, reconhecendo aquele país como economia de mercado, e não obteve nenhuma contrapartida. "Tivemos quase que fazer uma excursão de empresários a Brasília para que o decreto de salvaguardas da China fosse assinado", exemplificou.Cenário favorável Sandra, por sua vez, lembrou que a atual administração aproveitou o cenário internacional favorável para expandir as exportações, mas que isso se deu exclusivamente por esforços de empresas brasileiras para ganharem competitividade, e por algumas medidas de desoneração adotadas pelo governo. Nada, segundo ela, por meio de acordos bilaterais, condição fundamental para que o Brasil possa manter o ritmo de exportações quando a economia global instaurar definitivamente o processo de esfriamento."Essa fórmula de fechar um acordo mais como um troféu do que para termos acesso a mercados pode resultar em uma diminuição de participação do Brasil no mercado global", projetou a especialista. Ela lembrou que apenas as negociações no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) seguem transcorrendo, enquanto acordos com a União Européia ou a formalização da Área de Livre-Comércio das Américas (Alca) continuam parados. Além disso, observou que os acordos firmados com a União Aduaneira Africana e a Índia foram "absolutamente irrelevantes", porque a tarifa média aplicada pelos africanos é de 0,25% sobre importações, enquanto a dos indianos está em 3,13%. "Foi um acordo sobre o nada", opinou.Setor industrial O setor industrial também criticou a forma e a velocidade com que a Venezuela foi aceita no Mercosul. "O Mercosul já tem problemas suficientes, e não precisava de mais um. Não há convergência na política de comércio exterior da Venezuela e dos demais integrantes do Mercosul", salientou Sandra. Para justificar tal análise, ela ponderou que a união dos países do Mercosul no aspecto econômico tem se dado no setor agrícola, onde os países detêm altíssima competitividade, situação exatamente oposta à da Venezuela, que além de não ter competitividade na agricultura, exige tarifas maiores para importação de manufaturados."Será uma complicação enorme definir a política comercial dos países do Mercosul com tantas divergências trazidas pela Venezuela", disse a consultora, ao acrescentar que o empresariado foi "surpreendido" com a adesão da Venezuela ao Mercosul no primeiro trimestre deste ano. Presente no evento, o deputado Antonio Carlos Pannunzio (PSDB-SP), membro da Comissão de Relações Exteriores da Câmara Federal, comentou que o Congresso Nacional também não foi consultado, e tampouco aprovou a adesão da Venezuela ao bloco econômico.Agenda externa Para a agenda externa do próximo governo, os representantes da indústria sugeriram a priorização de assinatura de acordos comerciais, buscando mercados como a África, Coréia do Sul, Oriente Médio, México, Japão, e principalmente Estados Unidos e União Européia. "Os Estados Unidos são o melhor mercado para os produtos brasileiros, e ainda enfrentamos grandes barreiras por lá", apontou Sandra.Para Barbato, do Ciesp, o mercado Oriente Médio tem enorme potencial para ser explorado pelo Brasil, mas ainda falta a realização de uma profunda negociação, a ser conduzida de forma mais profissional do que a Cúpula dos Países Árabes e América do Sul, promovida no ano passado, vista pelos empresários como uma reunião de "centro acadêmico". Por fim, sugeriram ainda que as negociações com China e Rússia tragam "agendas mais pragmáticas". "Após a entrada da China na OMC, temos que usar as regras do comércio mundial para a defesa do nosso mercado, e para exigir a retirada de barreiras dos deles", ponderou a consultora da CNI.

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