Reputação do BC piora a crise

Entre abril e maio, a nota de comunicação do BC despencou de 7,1 para 3,9, enquanto que a nota geral tombou de 7,1 para 5,4, segundo pesquisa do Broadcast

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

08 Junho 2018 | 04h00

A reputação arranhada do presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, está não somente tornando mais difícil o mercado se acalmar e se estabilizar, como também deixando os investidores mais sedentos por testar novos níveis no câmbio e forçar uma alta dos juros. 

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Antes da última reunião do Copom, a credibilidade da atual gestão do BC ainda estava intacta. Entre abril e maio, a nota de comunicação do BC despencou de 7,1 para 3,9, enquanto que a nota geral tombou de 7,1 para 5,4, segundo o Termômetro Broadcast, pesquisa mensal feita com agentes do mercado. 

 

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Em meio a uma crise aguda de confiança no mercado brasileiro, com o real tendo um desempenho claramente pior do que outras moedas frente ao dólar nos últimos dias, os movimentos do BC estão sendo quase que totalmente ignorados por um mercado que já não segue mais piamente a sinalização da autoridade monetária.

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O mau humor com Ilan e os outros diretores começou com a surpresa do último Copom, quando o BC manteve a taxa Selic em 6,50%, após Ilan ter dado uma entrevista às vésperas do período de silêncio guiando as expectativas para um corte de juros. As intervenções recentes do BC no câmbio têm atraído críticas pesadas do mercado. Muitos interlocutores chegam a dizer que o BC não sabe o que está fazendo e que os últimos anúncios no câmbio só incentivaram os investidores a testar a autoridade monetária.

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O dólar não parou de renovar máximas, apesar das recentes intervenções no câmbio pelo BC. E as taxas dos contratos futuros de juros dispararam nos últimos dias, embutindo uma probabilidade majoritária de uma alta da Selic já na próxima reunião do Copom, marcada para os dias 19 e 20 deste mês.

Pela imprensa, o BC passou recados, “off the record”, para o mercado, reforçando o lema “não há relação mecânica entre câmbio e política monetária”, mas...não funcionou. “Se ele diz que não está nem aí com o dólar, obviamente está convidando o mercado a comprar mais dólares”, diz um economista renomado. O BC nega e diz que não faz declarações “off the record”.

 

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O que pode acalmar o mercado agora? Intervir no câmbio com artilharia mais pesada? “Vender dólar não resolve. É paliativo”, sentencia outro renomado economista. “Sobrou apenas subir os juros.” Para ele, os argumentos de que a atividade está fraca e que o hiato negativo do PIB ainda é grande são todos razoáveis para condições normais. “Mas as condições agora não são normais”, diz. Por isso, a resposta do BC, neste momento, não pode ser normal.

“Uma alta da Selic no curto prazo não tem nada a ver com política monetária de médio prazo”, diz o mesmo economista. “Tem a ver com resposta extraordinária para condições extraordinárias. Até porque, quem sabe quem será o futuro presidente e, consequentemente, a taxa de câmbio nos próximos meses?”

Com vários países emergentes subindo juros (Argentina, Índia, Turquia, entre os principais) e o diferencial da taxa Selic versus a taxa dos Fed Funds no menor patamar da história, ficou muito barato apostar contra o real. Nesse ambiente, muitos interlocutores acreditam que, com a reputação arranhada, o BC não terá outra opção a não ser elevar os juros. "E não adianta vir com 0,25 ou 0,50 pontos-base", diz um experiente operador do mercado. "No mínimo, tem que vir com 1 ou 2 pontos porcentuais." Ao ter perdido a bala na agulha em termos de intervenção verbal, resta ao BC tentar administrar melhor a turbulência para reconquistar a confiança do mercado. 

É COLUNISTA DO BROADCAST 

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