Resgate de banco aprofunda crise espanhola

Socorro do Cajasur, à beira da falência, deve custar ? 2,7 bilhões ao país, que já sofre com cortes promovidos pelo plano de austeridade

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2010 | 00h00

Combalidas por um déficit de 11,3%, as finanças públicas da Espanha deverão sofrer um novo golpe. A intervenção do Banco Central do país no banco Cajasur, à beira da falência, deverá custar ao Estado cerca de ? 2,7 bilhões, segundo estimativas do diário econômico "Expansion".

O salvamento foi anunciado no sábado, depois que o conselho administrativo da instituição recusou a proposta de fusão com o banco Unicaja, na véspera. A ameaça de falência no sistema financeiro espanhol reforçou as dúvidas no mercado sobre a capacidade do país de superar a crise.

Depois da Grécia, a Espanha parece estar se consolidando com o principal foco das atenções dos investidores, à frente até mesmo de Portugal. Na semana passada, o governo de José Luis Zapatero já havia sido obrigado a enviar ao Congresso um pacote de austeridade visando a reduzir o déficit do país. As medidas, que representam uma economia de ? 15 bilhões entre 2010 e 2011, foram mal recebidas pela opinião pública e também por parte dos analistas econômicos, que preveem o mergulho do país na deflação e na recessão nos próximos trimestres.

Esse panorama, temem analistas, pode se deteriorar ainda mais com o custo da intervenção na Cajasur. Até ontem, ? 523 milhões do Fundo de Reestruturação Bancária (Frob) espanhol já haviam sido injetados na instituição - que perdeu ? 300 milhões em depósitos bancários nos últimos três meses. A auditoria realizada no banco indica que a entidade tem ? 2,1 bilhões em créditos tóxicos que precisarão ser garantidos pelo Estado para evitar a falência da instituição.

Mercado. Em razão do novo foco de crise, o índice Ibex, da bolsa de valores de Madri, voltou a cair, apresentando um dos piores desempenhos da Europa: -1,27%.

Ao mesmo tempo em que é cada vez mais pressionado pelos investidores a redução gastos, o governo de Zapatero enfrenta cada vez mais o risco de mobilização dos trabalhadores contra o programa de rigor - em especial contra o corte de 5%, em média, dos salários do funcionalismo. Cálculos do Centro de Previsão Econômica (Ceprede), de Madri, baseados nas economias anunciadas pelo governo Zapatero, indicam que as medidas causarão a perda de 89 mil empregos no período - 34 mil em 2010 e 55 mil em 2011. "O tamanho do impacto na atividade vai depender se os funcionários públicos que terão salários cortados reduzirão seu arrocho ou seu consumo", estima José Carlos Díez, economista-chefe consultoria Intermoney.

O país sofre com o desemprego de 20% - ou 4,6 milhões de pessoas -, mas, em razão do aumento da crise de credibilidade das contas públicas, terá de priorizar o controle das contas à retomada da atividade econômica. Segundo a ministra da Finanças, Elena Salgado, a Espanha deverá crescer em 2011 1,3%, e não 1,8%, como previsto. O impacto imediato deste novo cenário será o fechamento de mais vagas.

Greve geral. Ontem, os dois maiores sindicatos do país, Comisiones Obreras (CO) e União Geral dos Trabalhadores (UGT), voltaram a ameaçar o governo com uma greve geral, a exemplo das que paralisam parcialmente a atividade econômica na Grécia. "Estamos mais próximos agora do que há uma semana", disse ontem à rede TVE o secretário-geral das CO, Ignacio Toxo, advertindo: "Uma greve geral seria o pior que poderia acontecer à Espanha."

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