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Respeito à Ciência, por favor

Na guerra contra a pandemia, é hora de os economistas também ouvirem os médicos

Josef Barat*, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2020 | 04h00

Militantes de movimentos anticiência, antivacina e afins – sem compromisso com o conhecimento – vêm tentando levar o mundo para uma nova era de atraso e ignorância. Mas eis que a pandemia do coronavírus veio mostrar, com clareza, que não há saída fora do trabalho exaustivo de cientistas, pesquisadores e profissionais de saúde, cujo trabalho nos trará alguma saída para esta calamidade.

Obviamente, estes militantes têm a certeza de que, quando se sentirem ameaçados, recorrerão aos serviços de saúde e à dedicação dos seus profissionais. Mas a verdade é que, imbuídos da missão de propagar teses medievais em pleno século 21, desinformam e atraem uma legião de ignorantes, lembrando a frase de Nelson Rodrigues “os idiotas vão tomar conta do mundo não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”.

Se a tragédia da pandemia nos mostrou exemplos fantásticos de solidariedade, altruísmo e dedicação, desvendou também as profundezas da ignorância e da idiotice. Países que não levaram em conta, desde o início, a espantosa capacidade de difusão e contágio do vírus estão pagando alto preço em vítimas e mortes. No Brasil, a ação rápida do Ministério da Saúde, tanto pelas medidas de isolamento social como pela bem estruturada rede do SUS, de início conseguiu conter a propagação mais rápida. Mas a falta de apoio firme à ação do ministério acabou por passar uma mensagem dupla e incutiu a ideia de salvamento por medicamentos milagrosos.

Nossos generais sabem que, numa guerra, a dubiedade nas mensagens e palavras de comando e a indecisão em mostrar a situação real comprometem o êxito de qualquer ação. É óbvio que estamos ante uma escolha de Sofia. Taxa elevada de desemprego, queda abrupta na produção e nas vendas e comprometimento das cadeias produtivas. A escolha é difícil, mas na guerra contra esta pandemia o objetivo central é reduzir a mortalidade. É nesta hora que os generais têm de ouvir os médicos. Simplesmente porque a retomada do crescimento e do emprego já fica comprometida, de saída, com o avanço maior da pandemia. O impacto das mortes e as limitações do sistema de saúde já são fatores impeditivos do pleno funcionamento da economia. É hora, também, de os economistas ouvirem os médicos.

Os impactos da estratégia de isolamento social, ao contrário do que pensaram inicialmente muitos governos com a perspectiva de preservar a economia, poderão ser mais positivos na recuperação econômica (além de trazer menos mortes associadas) do que não realizá-lo. Se forem calculados os custos e benefícios das duas alternativas, um isolamento social seletivo (ou vertical) só faria sentido se fosse possível identificar em massa o número de positivos por meio de testes e rastrear a rede de contatos dos positivos para que estes dois conjuntos se submetessem a quarentenas e se quebrasse a correia de transmissão.

Países que utilizaram o isolamento seletivo são países pequenos, com populações menores, altos níveis de tecnologia e controle social, sistemas de informação e capacidade ociosa dos serviços de saúde. Começaram a realizar os testes com muita antecedência, permitindo um mapeamento dos casos positivos bem no início da pandemia. Mesmo assim, mudaram sua política em prol do isolamento social quando não conseguiram o achatamento da curva epidemiológica no ritmo desejado.

Sabe-se que Itália, Espanha e EUA falharam ao não iniciar o distanciamento social na hora certa ou não realizar testes para mapear os casos com antecipação, gerando situações de estresse em seus sistemas de saúde. Ainda que tenham partido posteriormente para o isolamento social compulsório, houve dificuldades de realizá-lo de forma plena. Cabe lembrar que na província de Hubei, na China, a reversão da curva pandêmica se deu após um severo lockdown regional.

O momento exige, pois, atitude firme e linguagem direta e clara dos dirigentes. Os que não agirem com grandeza serão varridos para a insignificância ou o desprezo na História.

*ECONOMISTA, CONSULTOR DE ENTIDADES PÚBLICAS E PRIVADAS, É COORDENADOR DO NÚCLEO DE ESTUDOS URBANOS DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE SÃO PAULO

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