Werther Santana/Estadão - 21/12/2018
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Presidente do Citi: 'Não está no nosso cenário nenhum tipo de ruptura no Brasil'

Para Marcelo Maragon, que lidera a operação brasileira do maior banco de Wall Street presente no País, a disciplina do governo com as contas públicas é o que vai permitir ou não que o Brasil tenha um ambiente de negócios favorável

Entrevista com

Marcelo Marangon, presidente do Citi no Brasil

Aline Bronzati e Altamiro Silva Junior, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2021 | 15h30

Os ruídos políticos aumentaram e a preocupação com o risco fiscal voltou com força, mas o banco americano Citi continua olhando o Brasil como um País de oportunidades de crescimento da sua franquia e não considera um cenário de ruptura institucional pela frente. Para os próximos três anos, a ambição do maior banco de Wall Street com atuação no Brasil é elevar suas receitas em 50%.

O banco tem se expandido no País desde que vendeu a operação de varejo ao Itaú Unibanco no final de 2016, mas quer ir além. No primeiro semestre, com o crescimento do mercado de capitais, o Citi marcou presença em operações emblemáticas como a abertura de capital da Raízen, a maior do ano, e a oferta de ações da BR Distribuidora. O banco americano é ainda um dos que vão ajudar a fintech Nubank a captar bilhões de dólares na Nasdaq.

"Não é apenas um plano de crescimento, mas de um crescimento acelerado. Permanecemos bastante otimistas com o futuro do País", diz o presidente do Citi no Brasil, Marcelo Marangon, em entrevista ao Estadão/Broadcast. "Temos 106 anos ininterruptos de Brasil. Já passamos por diversas crises, desafios e, apesar do momento global, da pandemia, dos desafios que temos como País, continuamos vendo oportunidades de crescimento", afirma ele.

Presente em 96 países, o Citi vê o Brasil como uma prioridade na América Latina. Para Marangon, o País tem uma "democracia consolidada", que está se fortalecendo, mas não pode tirar o olho da política fiscal. É o ingrediente primordial para continuar atraindo o investidor estrangeiro. Abaixo, os principais trechos da entrevista:

Qual o plano de crescimento do Citi para o Brasil?

Estamos finalizando o plano. Já o submetemos ao nosso board [Conselho] e estamos no processo de discussão e ajustes. É um plano para a gente acelerar o crescimento. Nossa ambição é crescer 50% nos próximos três anos a franquia como um todo. E com intensidades diferentes de acordo com o segmento. Planejamos dobrar o tamanho do private banking, do middle, nosso commercial banking [que atende de médias a grandes empresas], e ganhar mais participação em banco de investimento. Do lado corporativo, já temos uma posição bastante sólida. Queremos continuar crescendo organicamente e ganhar participação em produtos estratégicos como fusões e aquisições, IPOs e follow ons e de dívida internacional e local.

 São três áreas que têm crescido muito no Brasil...

Felizmente, apresentamos um crescimento bastante sólido, mas a gente quer acelerar. Quando falamos em dobrar o tamanho do private, do middle e continuar crescendo no large corporate [grandes empresas], isso permite um avanço substancial de balanço local, de ativos, carteira de crédito, depósitos, funding, o que nos leva a uma geração esperada de receita 50% maior nos próximos três anos. Para nós, é um crescimento acelerado, considerando que atuamos em um mercado alvo bastante específico, limitado. São 1.200 clientes do large corporate, 1.100 do commercial e 500 famílias do private.

O que significa crescer 50%?

Hoje, temos um lucro líquido anual no Brasil acima de R$ 1 bilhão. Estamos falando em crescer nossas receitas em 50% e que vai ter um aumento proporcional no nosso resultado. A gente está falando de gerar resultados de R$ 1,5 bilhão a R$ 2 bilhões nos próximos anos, na franquia local.

O banco planeja entrar em alguma nova área de negócios no Brasil?

Nos últimos anos, acabamos investindo nas lacunas que tínhamos no atacado. Um deles era no financiamento a projetos. Desenvolvemos e criamos um time local. Nós tínhamos uma presença tímida no negócio de equity, na parte de IPOs, follow ons. Reforçamos o time, trouxemos nova liderança, tanto na parte de equity, quanto na de pesquisas e análises de ações.

Como está a atuação do banco de investimento?

Neste ano, nós já fizemos 21 operações de ações. Em termos de relevância, fomos um dos líderes do maior IPO do ano no Brasil, que foi o da Raizen, e do maior follow on, da BR Distribuidora. A gente se reposicionou. Não tem nenhum segmento novo ou produto que a gente tenha de investir. Temos um banco de atacado completo. Nossa ambição, agora, é ganhar participação onde vemos oportunidade estratégica e podemos ser complementares. Temos ganhado participação, mas a gente vê espaço para ganhar mais.

O primeiro semestre foi bastante aquecido para IPOs, fusões e aquisições e até emissões de debêntures, com volumes recordes. Ao mesmo tempo, temos eleições no ano que vem. Como o senhor vê os próximos meses?

Vamos ter um segundo semestre bastante ativo. Será um ano recorde para a captação de recursos, seja de ações ou de dívida. A gente vê uma atividade grande no início de 2022, com uma antecipação de transações. Deve haver um pouco de antecipação do segundo semestre para o primeiro em virtude das eleições. Naturalmente, o período eleitoral sempre traz uma certa volatilidade, uma ansiedade em relação aos resultados, o que faz as empresas anteciparem as captações e transações estratégicas. O desenrolar do processo eleitoral é o que vai dar o tom do nível de atividade de 2022.

No ano passado, o lucro do Citi se reduziu no País em meio à pandemia. O recorde de operações no mercado de capitais ajudou os números do primeiro semestre?

Foi um primeiro semestre forte. A carteira de crédito continuou crescendo, e depósitos. Tivemos aumento nas receitas de serviços com todas essas transações. Continuamos apoiando nossos funcionários, aumentamos nossa despesa com pessoal, fruto de melhor remuneração e fizemos investimento em tecnologia, que é parte do nosso plano de aceleração.

Como avalia a tendência para a economia brasileira, com inflação pressionada, juros em alta e volta do risco fiscal?

O primeiro pilar é a sustentabilidade das contas públicas. O respeito ao teto de gastos e a disciplina do governo na gestão das contas públicas são fundamentais para que a gente possa manter um ambiente construtivo para 2022. A responsabilidade fiscal continua sendo o principal ponto a ser monitorado. Ela é fundamental para que a gente tenha um ambiente estável e continue atraindo o investidor estrangeiro. Vimos uma retomada da economia, que surpreendeu positivamente e temos previsão de crescimento acima de 5% para o PIB este ano e ao redor de 2% no ano que vem. Temos muitos desafios para 2022, o nível de desemprego é alto e ainda é um ano eleitoral.

Como está vendo o aumento dos ruídos políticos, que teve até um manifesto do setor privado defendendo as instituições e as eleições?

Vemos o Brasil como uma democracia consolidada. É por isso que a gente se sente confortável em continuar investindo no País. A gente acha que as instituições funcionam, vemos o setor privado cada dia mais atuante. Essas discussões podem trazer algum tipo de volatilidade, mas confiamos nas instituições. Não está no nosso cenário nenhum tipo de ruptura. Pelo contrário, vemos um cenário de fortalecimento da democracia.

Ainda não há uma terceira via para 2022. Como avalia o quadro eleitoral para o ano que vem e a questão fiscal?

Ainda é muito cedo. Independentemente do candidato e do partido, se vai ou não ter uma terceira via, a nossa mensagem é sempre de manter a disciplina fiscal, o teto de gastos, ter uma gestão transparente. O mais importante, independentemente do partido do líder, é a estabilidade fiscal. É isso que vai ditar o apetite do investidor estrangeiro. A gente tem se preocupado menos com a questão da terceira via e mais com a narrativa adequada desses candidatos. E com isso que destrava uma agenda muito positiva.

O Citi foi o primeiro banco de Wall Street a ter mulher no comando. Como está a gestão da Jane Fraser?

Ela está iniciando uma nova fase do banco. Ela quer o Citi como um 'banco com alma', que não é só falar de crescimento, rentabilidade, retorno, mas do papel social, da questão da diversidade, isso sem esquecer o negócio como um todo. Isso está ligado à questão ESG ( sigla para ambiental, social e de governança, em inglês).

Como está a agenda ESG dentro do banco?

ESG é um pilar estratégico para o banco já há alguns anos. Em 2015, tínhamos um plano de financiamento sustentável global de US$ 100 bilhões em 10 anos. Este número foi alcançado em 2020. Agora, a proposta é US$ 250 bilhões entre 2021 e 2025 e a Jane já anunciou dobrar para US$ 500 bilhões entre 2025 e 2030. No crédito, fazemos um questionário socioambiental para todos os nossos clientes. Já aconteceu de declinarmos  financiamentos que não se enquadravam nas nossas regras mínimas ambientais. Participamos este ano de sete emissões internacionais de papéis sustentáveis. Há ainda a meta de zerar a emissão de carbono da nossa atividade.

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