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Responsáveis demais

Virtuosa Europa afunda cada vez mais na areia movediça deflacionária; enquanto os americanos, gastões e liberais, vivenciam uma recuperação robusta

PAUL KRUGMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2015 | 02h05

Estados Unidos e Europa têm muito em comum. Ambos são multiculturais e democráticos; ambos possuem imensa riqueza; ambos têm moedas de alcance global. Infelizmente, ambos passaram pela formação de gigantescas bolhas de crédito e financiamento imobiliário entre 2000 e 2007, e sofreram dolorosos declínios quando elas estouraram.

Mas, desde então, as políticas em cada lado do Atlântico têm sido diferentes. Numa dessas grandes economias, os governantes demonstraram um inquebrantável compromisso com a virtude fiscal e monetária, fazendo desgastantes esforços para equilibrar os orçamentos e manter-se vigilante contra a inflação. Na outra, nem tanto.

E a diferença de atitude é o principal motivo pelo qual as duas economias se encontram agora em rumos tão diferentes. Gastões e liberais com o dinheiro, os americanos estão vivenciando uma recuperação robusta - realidade refletida no combativo discurso do presidente Obama a respeito do Estado da União. Enquanto isso, a virtuosa Europa está afundando cada vez mais na areia movediça deflacionária; todos esperam que as novas medidas monetárias anunciadas na quinta-feira detenham a espiral descendente, mas ninguém que conheço espera que sejam suficientes.

Em relação à economia americana: não, a prosperidade não chegou aos EUA, muito menos o tipo de crescimento observado durante os anos do governo Clinton. A recuperação poderia e deveria ter ocorrido muito mais rapidamente, e a renda das famílias continua bem abaixo do nível anterior à crise. Por mais difícil que seja perceber isso com base no debate público, entre os economistas comenta-se que a política de estímulo de Obama de 2009-10 ajudou a limitar os danos decorrentes da crise financeira, mas o pacote foi pequeno demais e durou muito pouco.

Ainda assim, se compararmos o desempenho da economia americana nos dois anos mais recentes a todas aquelas previsões catastróficas feitas pelos republicanos, podemos ver por que Obama se gaba um pouco.

Por outro lado, a Europa - ou melhor, os 19 países que compartilham a mesma moeda e formam a zona do euro - fez quase tudo errado. Do ponto de vista fiscal, a Europa nunca se preocupou muito com o estímulo, e logo adotou a austeridade - cortes nos gastos e, em menor grau, aumento nos impostos - apesar do alto desemprego. Do ponto de vista monetário, os governantes combateram a ameaça imaginária da inflação, e demoraram anos para reconhecer que a verdadeira ameaça é a deflação.

Por que eles interpretaram tão equivocadamente a situação? Até certo ponto, a opção pela austeridade refletiu uma fraqueza institucional: nos EUA, programas federais como a previdência social, Medicare e os cupons de alimentos ajudaram a sustentar Estados como a Flórida, que sofreram colapsos profundos no mercado imobiliário, enquanto países europeus em dificuldades semelhantes, como a Espanha, tiveram de enfrentar o problema sozinhos. Mas a austeridade europeia também refletiu um diagnóstico deliberadamente equivocado da situação.

Tanto na Europa quanto nos EUA, os excessos que levaram à crise envolveram o endividamento privado, e não público, com o caso da Grécia representando uma exceção. Mas os governantes em Berlim e Bruxelas optaram por ignorar as evidências e favorecer uma narrativa que jogava toda a culpa nos déficits orçamentários, ao mesmo tempo rejeitando as evidências indicando - corretamente - que a tentativa de cortar déficits numa economia deprimida só aprofundaria a depressão.

Enquanto isso, os administradores dos bancos centrais europeus decidiram se preocupar com a inflação em 2011 e elevar os juros. Na época já era óbvio que isso seria bobagem - sim, a inflação tinha aumentado um pouco, mas os indicadores da inflação subjacente estavam baixos demais, não altos demais.

A política monetária melhorou muito depois que Mario Draghi se tornou presidente do Banco Central Europeu no fim de 2011. De fato, é quase certo que os heroicos esforços de Draghi para dar liquidez aos países que eram alvo de ataques especulativos foram os responsáveis por salvar o euro do colapso. Mas não está nem um pouco claro se ele conta com as ferramentas corretas para combater as forças deflacionárias mais amplas que foram postas em movimento graças a anos de política econômica equivocada. Além disso, ele precisa trabalhar com uma mão amarrada às costas, porque a Alemanha continua a se opor veementemente a medidas que possam facilitar a vida dos países endividados.

O terrível é que a economia da Europa foi arruinada em nome da responsabilidade. É verdade que houve momentos nos quais ser disciplinado significou reduzir os déficits e resistir à tentação de imprimir dinheiro. Mas, numa economia deprimida, o fetiche do orçamento equilibrado e a obsessão pelo dinheiro concreto são profundamente irresponsáveis. Além de prejudicarem a economia no curto prazo, elas podem infligir - no caso europeu, já infligiram - danos no longo prazo, prejudicando o potencial da economia e empurrando-a para uma armadilha deflacionária da qual é muito difícil escapar.

E esse não foi um erro inocente. O que chama minha atenção nos arcontes europeus da austeridade, seus paladinos da deflação, é a autoindulgência deles. Eles se sentiram à vontade, emocional e politicamente, exigindo sacrifícios (dos outros) num momento em que o mundo precisava de mais gastos. Apressaram-se em ignorar as provas de que estavam errados.

E a Europa vai pagar o preço da autoindulgência deles durante anos, talvez décadas. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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