Respostas às ameaças ao etanol
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Respostas às ameaças ao etanol

O setor tenta encontrar caminhos para aumentar a competitividade

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

23 Julho 2017 | 05h00

Nesta semana, esta Coluna começou a apontar os problemas de baixa competitividade enfrentados pelo setor do etanol e do açúcar.

Os empresários da área tentam reagir de três maneiras. A primeira delas vai na direção correta. Tenta reduzir os custos de produção. Para isso, foi aumentado o emprego de novas tecnologias genéticas no plantio e no cultivo da cana. Cada vez mais adotam-se técnicas de semeadura, em vez da deposição de soquetes, toda a cultura passou a ser fortemente mecanizada, o emprego de drones tenta localizar falhas para ser mais rapidamente reparadas.

As usinas vêm aproveitando melhor o bagaço da cana para produção de energia elétrica e utilizando o vinhoto (resíduo depois da destilação) para obtenção de excedente de etanol. Os resultados, embora expressivos, ainda são insuficientes. O aumento do uso de tecnologia exige pesados investimentos, nem sempre acessíveis a empresas tradicionais e de gestão problemática, especialmente no Nordeste. As dívidas do setor são da ordem de R$ 85 bilhões, conforme estimativas do Banco Itaú. Desde 2008, por motivos diversos, foram fechadas 96 usinas.

Outro caminho é puxar pelo aumento do consumo de etanol, especialmente do anidro, que vai na mistura com a gasolina. Mas essa opção já deu o que tinha de dar. Hoje, a adição alcançou o teto tecnicamente recomendável, de 27%. Daqui para a frente, o aumento do consumo terá de ser mais consequência do avanço do PIB do que de criação de mercado interno.

É por isso que o setor pressiona o governo para conseguir maior competitividade do etanol por meio do aumento de tributos sobre a gasolina, seja pela Cide, seja por meio do PIS/Cofins ou de outros impostos. O que saiu nesta quinta-feira teve objetivos fiscais, mas vai também nessa direção. Há limitações nessa tentativa: exige elevação da carga tributária, o que aumenta a vulnerabilidade do setor a fraudes e à sonegação; é inflação na veia; e limitaria seus efeitos apenas ao segmento de etanol hidratado, o que vai direto no tanque, sem mistura com gasolina.

Para arrancar tratamento favorável do governo, o setor esgrima argumentos que expõem sua vulnerabilidade. Um deles, por exemplo, é tentar convencer as autoridades de que o maior uso de etanol contribuiria para a purificação do ar e, assim, para reduzir as doenças, especialmente do aparelho respiratório. Com isso, baixariam os custos da saúde pública. Mas se é para enfatizar os compromissos do setor com a saúde, não poderiam ser ignorados, como às vezes são, os efeitos nocivos do açúcar, também produto do setor, sobre o organismo humano, especialmente agora que aumentam as incidências de diabetes.

Outra linha de argumentação destinada a sensibilizar os políticos vai na direção do cumprimento de metas de redução de emissão de gases do efeito estufa. Para isso, está em exame o programa RenovaBio, com investimentos previstos de US$ 40 bilhões. Pretende dobrar até 2030 a capacidade produtora de etanol das usinas brasileiras, para 54 bilhões de litros por ano.

Apesar do entusiasmo dos usineiros e dos fornecedores de equipamento para o setor e apesar da iminência de exame de projeto de lei pelo Congresso, a sustentabilidade do programa enfrenta três limitações. A primeira delas são as dificuldades de financiamento a custos baixos, para um setor afogado em dívidas e na inadimplência. Outra é a necessidade estratégica de abrir mais espaço para o petróleo que, de quebra, cumpre o papel de fornecer receitas com royalties para Estados falidos, como o Rio de Janeiro. Questiona-se, também, se o incentivo de carros híbridos e elétricos não seria mais eficiente para o objetivo do cumprimento das metas de redução do efeito estufa do que esse RenovaBio.

E, a mais séria de todas as limitações, que turvam o horizonte do programa, são as dúvidas crescentes sobre a competitividade do etanol ante o achatamento dos preços do petróleo.

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