RESSACA DO CRÉDITO PODE DURAR ATÉ 2014

Banqueiros e analistas avaliam que a dor de cabeça provocada pela ressaca do crédito fácil vai durar até o terceiro trimestre de 2013 e pode chegar a 2014 em algumas instituições financeiras. "É natural, porque as carteiras dos bancos demoram para serem limpas", diz um ex-diretor do Banco Central.

O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2012 | 02h06

Com o aumento da inadimplência, os bancos privados pisaram no freio, mas os bancos públicos seguem emprestando fortemente por decisão do governo Dilma, que mantém a estratégia de incentivar o crescimento da economia por meio do crédito e quer forçar a concorrência no setor financeiro para baixar os estratosféricos juros brasileiros.

"Eles (bancos públicos) estão pegando os clientes que nós não queremos. Vão ter problemas lá na frente", diz um alto executivo de um dos maiores bancos privados do País. Para o ex-diretor do BC, o ativismo dos bancos públicos ajuda a "limpar" as carteiras dos bancos privados, porque as pessoas pegam empréstimos no Banco do Brasil e na Caixa e pagam dívidas contraídas em outras instituições com juros mais altos.

No BB, a avaliação é que os bancos privados vão voltar a acelerar os empréstimos em 2013 para não perder mercado e que o crédito, que saiu de 24,6% do PIB em 2003 para 49% em 2011, tem fôlego para atingir 80% do PIB até 2016. "A inadimplência do BB está estável em 2% como um eletrocardiograma de morto", diz Paulo Caffarelli, vice-presidente de atacado. "Todos vão lembrar que o BB foi protagonista na redução de juros no País", diz Alexandre Correia Abreu, vice-presidente de negócios de varejo.

Setor produtivo. Os reflexos do maior comprometimento da renda com dívidas vão além dos balanços dos bancos. Ao mesmo tempo em que as vendas de produtos como cosméticos e bebidas continuaram aceleradas, o impacto foi percebido em setores como transporte aéreo e construção civil.

"Estamos todos no mesmo barco", diz Rubens Menin, presidente da construtora MRV, especializada em casas populares. "O pagamento da TV e do computador a juros altos comprometeu a renda das famílias. Isso afetou a construção civil e as vendas ficaram mais lentas." No início do ano, a MRV previa atingir um volume de vendas entre R$ 4,5 bilhões e R$ 5,5 bilhões em 2012, mas alcançou apenas R$ 2,7 bilhões até setembro.

A Gol, que acumula prejuízo de R$ 1 bilhão desde o início do ano, sofreu com problemas específicos do setor, como o aumento de custos - mas também com a redução do ritmo de consumo. O crescimento do número de passageiros, uma média de 15% ao ano na década passada, deve ficar entre 5% e 10% nos próximos três anos. "Não temos mais a explosão de antes", constata Edmar Prado Lopes Neto, diretor financeiro e de relações com investidores./ R.L. e M.C.

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